Aviso: essa resenha contém informações já reveladas nos trailers do filme. BUKA CHAKA BUKA!

Talvez você esteja indo meio sonâmbulo para a escola, ou saindo exausto do trabalho. Se tiver sorte, está de folga, aproveitando algum passeio por ai. Sem grandes pretensões, você coloca seu fone de ouvido, liga o som do carro, ou em algum outro aparelho por perto começa a tocar aquele hit antigo e animado, bem conhecido. Não é uma obra-prima musical, nem tem uma letra profunda, mas sempre coloca um sorriso nos seus lábios. Você relaxa, embalado pela melodia familiar. Por alguns segundos, os problemas lá fora parecem distantes.

Bem-Vindo à Guardiões da Galáxia Vol.2.

“Vamo cair dentro, GALERAAA!!!”

Tudo que você já viu, so que MUITO MAIS!!!

Após um estrondoso (e inesperado) sucesso de Guardiões da Galáxia em 2014, o time de obscuros anti-heróis cósmicos da Marvel retorna às telonas, novamente sob a batuta do diretor James Gunn. Ciente do desafio de fazer frente ao imenso hype gerado em torno da continuação, Gunn e sua equipe dessa vez decidiram não tomar muitos riscos, jogando em terreno seguro. Assim, Guardiões da Galáxia Vol.2 (GdG2) segue o perfil das continuações dos anos 80 que inspiram a franquia galática: o que vimos no filme original, só que mais! Mais Piadas! Mais Explosões! Mais Músicas-Chiclete! Nesse sentido, GdG2 é uma grande “Sessão da Tarde” com esteroides.

É claro, embora GdG2 seja uma comédia de aventura espacial, não espere piadas escatológicas à la Monty Phyton: ainda estamos no domínio controlado da Disney®, o que, se é uma garantia de diversão para toda a família (com direito até a fogos de artifício no final), também é certeza de que não teremos nada muito polêmico. Assim, é uma ótima pedida para quem amou a película anterior, mas confesso que o exagero de algumas cenas, entre esquetes de cocô e situações cafonas, que chegaram a me deixar um pouco constrangido.

Na contramão da Marvel nos quadrinhos, o filme não se propõe a ser um “épico que irá alterar tudo que você conhece sobre esse universo”, mas sim contar mais uma das muitas desventuras dos Guardiões, agora um grupo estabelecido, que divide o tempo salvando o universo (por um preço) e discutindo entre si. O leitor de quadrinho vai se sentir confortável na sessão, como se estivesse folheando uma (ótima) edição de sua revistinha mensal preferida. GdG2 se beneficia ainda de ser uma história bastante contida, não tendo que perder tempo de tela para estabelecer ligações com outros filmes do MCU (algo que por vezes atrapalha os demais os filmes da Marvel).

“Chega, o menino tá muito quieto! Vai olhar o que ele tá fazendo!!!”

Um filme sobre pais e filhos…

Eu já falei que é um filme para toda família? Ah, sim, é também um filme sobre Família. Dessa vez, a história usa o encontro de Peter Quill, o Senhor das Estrelas, com seu pai, Ego (interpretado de forma bem canastrona por Kurt Russell) como mote para falar sobre relações familiares, especialmente entre pais e filhos. Sério, depois de Logan, estou achando que algum marqueteiro de Hollywood decidiu que 2017 é o ano da paternidade. Trata-se de um tema já bastante visitado, mas que cai como uma luva para tratar das relações de amizade e afeto entre os disfuncionais membros da equipe, inclusive aqueles que acabam entrando involuntariamente nela. É como ver aquele seu amigo que te tira do sério, ou o parente com quem você não suporta conversar no encontro de família, mas que vai estar do seu lado quando você precisar.

Mas é claro que o filme não é só uma ceia de natal. Ele é repleto de cenas de ação bastante divertidas e dinâmicas, emolduradas em cenários psicodélicos de encher os olhos e que transmite a sensação de que estamos singrando por uma galáxia fantástica, exótica e bastante colorida (mesmo para os padrões do MCU). É definitivamente um prato cheio para quem conseguir assistir numa tela IMAX, embora infelizmente o excesso de cenários em CGI atrapalhe um pouco, sendo nítido que em alguns momentos os atores estão duros, atuando em uma sala verde, sem qualquer interação com ambiente que os cerca.

Nesse ponto, o espectador que queira se divertir tem que realmente deixar explicações mais racionais de lado e se entregar a um universo escatológico, de mulheres pintadas de dourado, naves que fazem barulho de jogo de Atari, e heróis que despencam de naves espacial e levantam sem nenhum arranhão. É um filme sem vergonha de ser cafona e que realmente não se leva a sério, embora reserve alguns momentos sinceros e emocionantes.

Maior Vilão: o Jantar de Família!

… e sobre personagens

Todo esse desbunde de cores, luzes e músicas é realmente muito bacana, mas me parece que um dos grandes diferenciais de GdG2 é o tratamento equilibrado de todos os personagens principais em tela. Já tendo sido devidamente apresentados no filme anterior, cada um dos Guardiões tem sua dose de cenas divertidas, dramáticas e momentos grandiosos. Condizentes com o tema central da história, essas cenas dialogam entre si e permitem que cada personagem tenha seu arco próprio e, juntos, experimentem algum tipo de evolução do início até o Ato Final da história, quando a ameaça final se apresenta e a tensão realmente pode ser sentida.

Se Peter Quill e Rocket Raccoon continuam bem estabelecidos como os anti-heróis de bom coração, Gamora nesse filme ganha mais personalidade e profundidade graças à sua relação com sua irmã (e inimiga) Nebula, deixando de ser só a femme fatale e interesse romântico de Peter e se tornando uma personagem bem mais interessante. Chega a ser obscena a fofura de Baby Groot, um alívio cômico divertidíssimo que deve agradar tanto a molecada quanto os mais velhos (quem já conviveu com criança pequena vai se identificar – e rir – em diversos momentos do gravetinho).

Mantis é uma ótima adição para “dar mais cor” ao grupo, felizmente fugindo do esteriótipo da heroína poderosa e marrenta (como é sua versão dos quadrinhos), especialmente pela sua relação com Drax, outra surpresa do filme. Mesmo Yondu, um antagonista secundário do filme anterior, cresce bastante como personagem e ganha aqui um arco próprio, sintético mais interessante de se acompanhar.

A clássica pose de equipe

Colorido, Simples e… Ótimo!

Mas é no meio dessa cacofonia de referências, sons e imagens, nessa viagem psicodélica e eletrizante pela galáxia que para mim se escondem os grandes trunfos de GdG2: roteiro enxuto e acessível que se presta a apresentar personagens individualmente carismáticos e que como grupo praticamente clamam por novas aventuras nas telonas.

Se por um lado a produção se mostra despretensiosa em ser “o mais novo melhor filme de herói da última semana”, é certo ainda que o filme é um prato cheio para os fãs de quadrinhos, que podem acompanhar como Gunn espertamente vai transportando a mitologia cósmica da Marvel, construída por artistas como Jack Kirby e Jim Starlin (por vezes relegada pela própria editora) para o universo dos cinemas.

Nota: 8,5/10 Gravetos Falantes Teimosos (WE´RE GROOT!)

PS: Cinco (!) Cenas Pós-Créditos, com algumas piadinhas e indicações das novas direções da franquia, mas sem grandes revelações. Se quiser, pode assistir em casa.

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