O que torna uma pessoa má? São seus atos? Ou a ausência de arrependimento? Suas motivações? Ou apenas um rótulo que a elas é arbitrariamente dado?

Essas são algumas perguntas que podem assaltar você durante o festival de tiros, porradas e bombas que é Esquadrão Suicida. Depois do polêmico Batman v Superman nos apresentar os maiores heróis do Universo Extendido da DC Comics (DCEU), é o momento de seus vilões entrarem em cena e ganharem os holofotes. Mas ao contrário de seu clássico papel de antagonistas, dessa vez cabe aos “caras maus” a inédita tarefa de salvar o dia – e talvez sobreviver no processo.

"Você sabe o que é isso, minha filha?"

“Você sabe o que é isso, minha filha?”

“Os Piores dentre os Piores”

O improvável grupo é recrutado por Amanda Waller (Viola Davis), uma sombria tecnocrata do governo americano, cuja brutalidade faz Nick Fury parecer um escoteiro-mirim. Sua “Força-Tarefa X” reúne os piores vilões da DC, coagidos a trabalhar para os EUA em missões suicidas pela ameaça de morte e uma ínfima mitigação de pena. A apresentação dos principais personagens é feita à la Tarantino: a narração de Waller é acompanhada por flashbacks do passado criminoso dos recrutados e sua vida miserável na presídio de Belle Rive (cuja violência dos carcereiros deixaria nosso sistema penitenciário envergonhado). A transição frenética de cenas ao som de sucessos dos anos 80 e raps ostentação dão o tom anárquico do arco inicial do filme. Tudo é sujo, colorido, violento e barulhento.

Arlequina (Margot Robbie) aparece como um dos personagens mais interessantes do grupo. Ao mesmo tempo infantil e hipersexualizada, a atuação exagerada de Robbie cai como uma luva para a personagem, e em alguns momentos pode-se duvidar da (in)sanidade da vilã. O Pistoleiro (Will Smith) segue a fórmula batida do mercenário de bom coração, mas executada com eficiência. O roteiro até sugere uma psicopatia do assassino, mas aposto que tem algo no contrato de Smith que o impede de interpretar esse tipo de personagem. Juntamente com o soldado Rick Flag (Joel Kinnaman), os três formam o “núcleo duro” do grupo e desenvolvem uma dinâmica interessante.

Ao contrário de BvS, dessa vez a produtora acertou em cheio nas referências e fan services. Batman e Coringa, dois chamarizes da Warner para atrair espectadores, são usados em favor da trama e não para atrapalhar o roteiro. O Coringa, um antagonista secundário, é  uma caricutara do gangsta negro americano, uma espécie de “Rei do crime” do submundo de Gotham. A encarnação do vilão, com a atuação canastrona de Jared Leto, pode ser polêmica, mas é perfeitamente condizente com a proposta da película.

Caramba, esse filme promete, né? Então…

"Hora da caminhada em câmera lenta!"

“Hora da caminhada em câmera lenta!”

Entre o Anarquismo e a Pieguice

Mas alguma coisa acontece mais ou menos quando somos apresentados ao antagonista principal da história e o Esquadrão parte para sua primeira missão: resgatar um VIP em Midway City, uma cidade tomada por uma entidade sobrehumana. A ameaça é uma das mais genéricas que já vi em um filme de super-herói, uma façanha para o gênero. O filme muda de tom, ensaiando se tornar uma aventura de terror e adotando uma trilha sonora mais comum. Os diálogos fracos são gotejados com piadas com timing ruim. Flashbacks se repetem com a edição de má qualidade. Personagens secundários são apresentados e descartados de forma descuidada.

O filme ainda reserva algumas boas cenas de ação e um ou dois plot twists interessantes, mas o roteiro se torna um dos mais batidos dos  últimos tempos. Perto do final, o filme até desiste de apresentar alguma motivação para os personagens, que passam a agir simplesmente porque a trama precisa deles. Sabe aqueles trabalhos de escola, que você toma cuidado para ficar bacana no começo, mas que lá pelo meio você passa a escrever e colar qualquer coisa porque o prazo está acabando?

Ante à avalanche de críticas negativas que o filme recebeu em seus primeiros dias de exibição, surgiram boatos que a versão sofreu inúmeras edições para satisfazer interesses conflitantes dos envolvidos na produção. O diretor David Ayer se apressou em confirmar que a edição final é de fato a sua. De qualquer forma, fica claro que o filme é bastante bipolar, ora querendo ser anárquico, ora abraçando uma pieguice tremenda, tornando-se uma história meio furada e sem personalidade.

Resta então ao carismático elenco principal a hercúlea tarefa de arrastar o espectador pelo restante do filme, até o sua insossa resolução. Quer dizer, insossa não, porque fica aquele gostinho rançoso de que “só o amor constrói” como mensagem final da película.

Pistoleiro e Arlequina: os heróis do DCEU

Pistoleiro e Arlequina: os heróis do DCEU

O Paradoxo da Terra-3

Mas no final das contas, o que é uma pessoa má? Certamente, não os membros do Esquadrão Suicida.

Eis o paradoxo de Esquadrao Suicida: vendido como uma história de super-heróis que teria os “caras maus” como protagonistas, o filme em praticamente nenhum momento mostra os membros do grupo cometendo grandes atos de vilania. Sua ficha corrida até é apresentada rapidamente, mas suas ações durante o filme não são tão duvidosas.Talvez os produtores quisessem garantir uma classificação indicativa menor, talvez ter certeza que o espectador teria empatia com os personagens. O fato é que o discurso dos “piores dentre os piores” feito por Waller no arco inicial em nenhum momento se confirma no desenrolar da trama.

Esse paradoxo fica ainda mais marcante ao lembrarmos que Esquadrão faz parte do DCEU, cujos filmes anteriores estabeleceram um tom sombrio e heróis de moralidade duvidosa. Os “vilões” do esquadrão são foras-da-lei? Com certeza. São párias sociais? Certamente. Mas, entre o governo, o Coringa, e um certo vigilante de Gotham, os membros dos esquadrão são os que tem feitos mais heroicos durante da película. O filme parece dizer, intencionalmente ou não, que os “caras maus” são aqueles que estão contra nós. Acho que não devo ser o único que terminou o filme se perguntando quem realmente deveria estar detrás das grades…

Fico então imaginando se Snyder não é mesmo um grande gênio e no final vamos descobrir que todos os filmes do DCEU se passam na verdade em uma variação da Terra-3 dos quadrinhos, onde bem é mal, e os heróis são os verdadeiros vilões da história.

Até porque, convenhamos, Arlequina e sua turma serão verdadeiros heróis se fizerem você gostar mesmo desse filme.

Nota: 6.5/10 Pôneis Rosas de Pelúcia

 

 

Autor: