Uma frase que temos ouvido bastante sempre que algum filme repercute nos cinemas por alguma questão diferente das comuns é: “não era o filme que queríamos, mas o que precisávamos”.

Nós queríamos e precisávamos do Pantera Negra, porém não apenas pela representatividade tão necessária no mundo, e nas produções cinematográficas, mas também por trazer aos filmes de super-heróis temas de política, e de política internacional de maneira séria. Claro, é um filme de herói, não de política: aventura e diversão vem primeiro, mas com a contestação junto.

Representantes de movimentos negros se reúnem para sessão de “Pantera Negra” no RJ. Foto: Edilson Dantas

Não estou desmerecendo a representatividade de Pantera. Adorei a cena final quando um sorriso aparece no rosto de T’Challa após um menino negro e pobre perguntá-lo quem ele é. Mentalmente eu respondi, “Sou T’Challa, o Pantera Negra, um modelo para você”.

Não sou negro, não posso falar por eles, mas já fui pobre, e as crianças do conjunto habitacional da periferia de Los Angeles que aparecem no filme lembraram a mim e aos meus amigos e vizinhos de uma época distante, até porque costumávamos jogar basquete em uma quadra degradada de um centro comunitário. A empatia com aqueles garotos negros do filme foi imediata.

E respondam, quantos heróis, ou super-heróis negros existem nos quadrinhos? E nos filmes baseados em quadrinhos? Representatividade importa sim, e muito, e o melhor, representatividade em um filme incrível fica melhor ainda.

Crianças negras recriam pôsteres de “Pantera Negra”. Foto: @asiko_artist

Pantera Negra é um filme ótimo, não vou falar espetacular para não subir muito as expectativas…. Já na  primeira cena de ação vemos T’Challa, vivido por Chadwick Boseman, dispensar ajuda da General Okoye, estrelada por Danai Gurira, para enfrentar uma grupo de traficantes de mulheres. Na hora lembrei-me do soldado da SHIELD, na cena de abertura de Soldado Invernal, perguntando se o Capitão América não iria usar paraquedas para pular do avião, e o Ossos Cruzados respondendo que ele não usa essas coisas… O Pantera Negra é um herói impetuoso e que faz a semelhança de seu uniforme com o Homem sem medo justificada. Demolidor lembram? O Homem sem medo?

O Pantera é assim, um herói que vai para as missões, seja qual for, na linha de frente mostrando o líder que é.

O elenco feminino então é uma surpresa bem-vinda. Sabem o porquê? Nem  Mulher Maravilha possui tantas mulheres tão fortes e importantes na trama. Meu colega, o Hobbit, em sua resenha, leia aqui, diz que por ser um filme de apresentação os personagens não são bem desenvolvidos, mas para mim, ficou ótimo, melhor, ficaram ótimas.

As fantásticas “amazonas” de Wakanda

Não estou falando mal de Mulher Maravilha. Estou APENAS dizendo que em Pantera Negra as mulheres foram mais desenvolvidas, com mais tempo de tela e A MIM pareceram mais fortes. Eu gostei de Mulher Maravilha.

A irmã do T’Challa, Shuri, interpretada por Letitia Wright, é a versão feminina do Tony Stark, ela inventa o aparato tecnológico utilizado pelo Pantera Negra, entende de engenharia à medicina, sem deixar de ser descolada, divertida e jovem.

Shuri pode provocar o mesmo efeito que a personagem de Arquivo-X provocou, o aumento de garotas interessando-se por ciências tendo como referência a perita interpretada pela Gillian Anderson. Agora a minha princesa Disney favorita, a Shuri, poderá estimular o interesse científico.

O interesse amoroso do Pantera,  Nakia, vivida por Lupita Nyong’o, é uma espiã estilo 007 que não deixará sua carreira por amor. Ela sente a necessidade de lutar por um mundo melhor e mais justo, fora de Wakanda. Casando-se com T’Challa e tornando-se rainha ela teria que parar. Opção que ela não cogita aceitar.

A General Okoye é leal a Wakanda sobretudo, e mesmo que tenha preferência por T’Challa como rei, defenderá quem estiver no trono com sua própria vida. Okoye é para o Pantera Negra o que o Bucky é para o Capitão América. Cheguei a imaginar que a General Okoye mereceria uma filme dela, tamanha a força e o carisma que a personagem transmitiu.

A utopia afrofuturista de Wakanda

Wakanda é um espetáculo a parte. Está entre a tecnologia das empresas Stark e o mundo mítico de Asgard. Em muitos momentos o reino africano parecia um universo alienígena pela sofisticação tecnológica proporcionada pela exploração do vibranium, metal encontrado apenas naquele país. A integração entre tecnologia e natureza é harmoniosa e passa a mensagem que a exploração de recursos naturais pode ser sustentável.

Citando o meu colega Hobbit de novo, “A verdade é que Pantera Negra poderia ser tranquilamente renomeado para Wakanda“. Eu troco fácil a série sobre Krypton por uma sobre Wakanda.

Situada no centro da África, Wakanda isolou-se do mundo exterior para proteger seus cidadãos da exploração estrangeira que a cobiça pelo vibranium despertaria. Esse isolamento é alvo de debates constantes entre a elite do reino, que se questiona se devem: continuar isolados, compartilhar a tecnologia avançada que adquiriram com o mundo exterior  ou utilizá-la para dominá-lo. Mas este debate ficará para outro post…

O filme tem nuances de Shakespeare (isso nuances, o Maurílio do Choque de Cultura, está certo)  quando apresenta a relação entre T’Challa e seu pai. O amor dedicado é abalado quando Pantera Negra descobre que seu pai matou seu tio, e, abandonou o seu primo a própria sorte. T’Challa repensa o seu papel como rei, como Pantera Negra e a posição de Wakanda no mundo. Ser ou não ser eis a questão.

E Michael B. Jordan interpreta o vilão do filme, o Killmonger. Que personagem. Pena que ele morre (eu avisei no título que tem spoilers). Um homem obstinado, determinado a alcançar um objetivo, ser rei de Wakanda e dominar o mundo usando o mesmo método que outros países já utilizaram, porém com a tecnologia avançada de Wakanda. Na visão de Killmonger ele estaria fazendo apenas o que as outras nações sempre fizeram.

Mas Killmonger não quer dominar o mundo por dominar o mundo, como Loki em Vingadores. Ele quer levar o seu povo, sua raça, a ter um mundo no qual não seja oprimido e subjugado. Killmonger é pura raiva, não admite o isolamento de Wakanda, considera T’Challa fraco e seu pai mais fraco ainda.

Para Killmonger, seus objetivos estão acima das tradições de Wakanda, e para atingi-los nada irá pará-lo. Só a morte. Michael B. Jordan falou de sua preparação para o filme, que assistiu repetidas vezes Cidade de Deus para poder representar a raiva dos personagens no filme brasileiro, e no fim das contas é isso que o Killmonger é, raiva, pura raiva. Eu realmente gostaria de vê-lo mais vezes…

É na morte de Killmonger que vemos a altivez de monarca de T’Challa, altivez que já havíamos visto antes,  no final de Guerra Civil, quando o Pantera Negra perdoa o Helmut Zemo, ou pelo menos não o mata… Quando Killmonger, já agonizando, diz que seu pai o contava o quanto Wakanda era linda e que ele sempre quis ver. T’Challa leva-o para uma entrada da montanha onde estavam para que Kilmonger pudesse contemplar o reino.

As últimas palavras de Killmonger são ““Bury me in the ocean with my ancestors who jumped from ships, ‘cause they knew death was better than bondage”, em tradução livre “jogue-me no oceano com meus ancestrais que pulavam dos navios, porque eles sabiam que a morte era melhor do que a escravidão”.

Pantera Negra é um filme espetacular, lindo visualmente, atores carismáticos, história envolvente e que não se furta a abordar temas polêmicos e ,acima de tudo, mostrar que representatividade importa. Em um filme incrível como esse fica melhor ainda.