Mais um ano se passou e mais um ano em que o Universo Cinemático Marvel (UCM) lavou o chão com a concorrência. Sim, eu concordo que Mulher Maravilha foi muito bem, mas o lançamento de Liga da Justiça nos cinemas demonstrou que ainda não existe uma consistência no Universo Cinematográfico DC (UCDC). E o Universo Estendido dos Monstros da Universal? Morto e enterrado.

Já apontamos aqui antes que o sucesso da Marvel não é nenhum acidente, e tendo em vista a monumental dificuldade de outros estúdios em criar marcas bem-sucedidas no cinema, somos obrigados a crer que o segredo está mais nas qualidades dos estúdios que pertencem à Disney do que nas deficiências dos adversários. vejam, eu mais do que ninguém entendo a propensão humana em apontar um culpado quando algo dá errado, mas vamos tentar um exercício mais difícil aqui para apontar quem são os responsáveis pelo sucesso dos estúdios do Mickey. Vamos conhecê-los um pouco melhor a seguir.

John Lasseter Jr. (Pixar)

Lesseter viu o potencial da animação por computador enquanto trabalhava na área de animação da Disney, em 1981. Sim, a data está certa, não existiam celulares nem internet, e computadores ainda eram considerados coisa de outro mundo. Você que está lendo isso, a probabilidade é que nessa época ainda não soubesse assoar o próprio nariz, se é que não estava fazendo hora na fila para entrar na trompa de Falópio da sua mãe. Só que ele pagou por ter a ideia cedo demais. A casa do Mickey o despejou quando achou que os projetos que ele tocava na área sairiam muito caros e não dariam em nada no futuro.

Isso foi em 1984, e ele continuou trabalhando em projetos com apoio da Lucasfilm Computer Graphics até ser definitivamente contratado por ela. Um divórcio especialmente agressivo obrigou George Lucas a vender parte de seu patrimônio e, em 1986, a divisão foi vendida, agora com o nome de Pixar Graphics Group, que tinha Steve Jobs como acionista majoritário.

Jobs era centralizador, mas sabia reconhecer o talento, e por este motivo não interveria muito na Pixar. Até 1995, a empresa tinha virado um estúdio de animação e lançou Toy Story, dirigido por Lasseter, o primeiro longa animado completamente por computador lançado até então. Esse trabalho rendeu a ele o Oscar de Realização Especial (ele ainda tem outra estatueta de Melhor Curta Animado por Tin Toy).

Desde então, além de assumir a direção executiva de todos os filmes da Pixar, que se tornou a queridinha da crítica e garantia de público na área de animação, dirigiu Vida de InsetoToy Story 2CarrosCarros 2 e está preparando Toy Story 4.

Em uma reviravolta digna de novelas como A Rainha da Sucata, em 2006, a Disney, então uma empresa estagnada mas com muito dinheiro, comprou a Pixar. Lasseter voltou à empresa que o tinha mandado embora sob aplausos, visto como a esperança de revitalização que ela precisaria.

Como dirigir e produzir filmes da Pixar parece dar pouco trabalho para ele, assumiu o cargo de diretor de criação não só dessa empresa como também da Walt Disney Animation Studios. Desde então, assina a produção executiva também das animações da Disney. Além de tudo isso, também manda no design de atrações dos parques temáticos da empresa.

Em 22 anos, a Pixar já lançou 19 filmes sob os olhos atentos de Lasseter e, ainda que não conte mais com a força da novidade, suas produções continuam a ser muito bem recebidas pelo público. Ao todo, já arrecadou mais de US$ 4,5 bilhão nas bilheterias até agora, a quarta maior marca de todos os tempos. A segunda média de arrecadação por filme em Hollywood. Quem disse pra ele que filmes feitos no computador não faziam dinheiro mesmo?

Ainda que a palavra de Lasseter tenha muita força dentro dos estúdios, sua atuação é discreta para o público em geral. Pouco se comenta sobre enfrentamentos de bastidores nos quais ele teve que insistir em uma visão coerente com o estúdio. Sabe-se, por exemplo, que a história de O Bom Dinossauro passou por mudanças profundas ao longo da produção, mas até hoje os detalhes de como isso aconteceu internamente não vieram à tona.

Apesar disso, o que têm aparecido de uns tempos para cá são relatos de comportamento inapropriado de Lasseter em relação a mulheres e a falta de voz de minorias no estúdio, o que causou seu afastamento voluntário por seis meses para pensar no que fez. Por conta de seu comportamento, não é de se duvidar que a Disney se veja em uma posição de ter que substituí-lo, o que não seria tarefa fácil.

Kathleen Kenedy (Lucasfilm)

Talvez você nunca tenha ouvido falar dela, mas Kennedy é uma veterana do entretenimento hollywoodiano. Seu primeiro trabalho em produção foi em 1979 como assistente no filme 1941, de Steven Spielberg. Passou a manter então uma parceria com o diretor em filmes como Poltergeist, E.T. – O Extraterrestre e a série Indiana Jones, que a tornaria uma das maiores produtoras em Hollywood.

Ela teve uma mão em filmes que marcaram época no no cinema, como Gremlins, Goonies, Sexto Sentido, as séries De Volta para o Futuro e Jurassic Park, entre os mais de 60 em seu currículo. Em 2012, deixou a empresa de produção que tinha com o marido Frank Marshall para assumir a Lucasfilm ao lado de George Lucas.

Depois que Lucas anunciou sua aposentadoria e a Lucasfilm foi vendida para a Disney, assumiu a presidência sozinha. Kennedy ganhou do Mickey a complicada missão de pôr a casa em ordem, devolvendo a credibilidade às franquias Star Wars e Indiana Jones depois da recepção ruim dos longas com essas marcas desde o fim dos anos 1990.

Já em sua estreia, ela chegou com os dois pés na porta. Star Wars – o Despertar da Força, de 2015, rompeu a barreira dos dois bilhões de dólares de bilheteria (feito conquistado apenas por outros dois filmes) e foi elogiado tanto por fãs quanto espectadores eventuais.

Falando assim, parece que ela não teve que enfrentar desafios. Há boatos na Internet que o segundo longa desde que assumiu, Rogue One – Uma História Star Wars, teve nada menos do que 30 cenas refilmadas, e várias partes vistas nos trailers nem chegaram a aparecer no filme. Isso tudo pode ter sido a causa da arrecadação um pouco mais fraquinha, de apenas um bilhão de dólares. Se você é daqueles que tem dificuldade em entender ironia, é bom explicar que foi a maior bilheteria do ano de 2016 e 22ª de todos os tempos.

Pode-se argumentar que o filme deve ter arrecadado bem devido à divulgação e ao nome Star Wars, mas todo remendado como estava, é provável que a história não tenha agradado tanto. Pois, segundo o Rotten Tomatoes, 87% dos espectadores e 85% dos críticos gostaram. Nada mau.

Com a expectativa de se arrecadar US$ 200 milhões somente na estreia nos EUA, o sucesso de Os Últimos Jedi é praticamente certo. Mas isso não significa que as coisas estão andando sem percalços nos bastidores da Lucasfilm. Mantendo a meta de lançar um filme da franquia por ano, Solo (o filme solo de Han Solo que estreará em solo nacional em 24 de maio de 2018) vem também de uma produção conturbada. Os diretores Phil Lord e Christopher Miller foram substituídos por Ron Howard no meio do caminho porque a empresa não aprovou o ritmo lento e o excesso de improviso durante as filmagens.

Será que a Lucasfilm sob o comando de Kennedy conseguirá fazer esse filme ficar coerente? E será que eles conseguirão fazer um longa decente do Indiana Jones em 2020? Vejam que até agora eles conseguiram reverter um cenário de ceticismo e todos os obstáculos encontrados nos filmes de maior sucesso de bilheteria nos anos em que foram lançados. E isso em apenas dois anos. O prognóstico é bom.

Kevin Feige (Marvel Studios)

Feige começou sua carreira como assistente da produtora Lauren Shuler Donner. Quando esta trabalhou em X-Men (2000), chamou-o para ser produtor associado principalmente por seu impressionante conhecimento dos quadrinhos Marvel, e a partir daí ele ascendeu muito rapidamente. Chamou a atenção de Avi Arad, que o trouxe para ser seu braço direito nos Marvel Studios no mesmo ano.

A partir de então, participou da produção de quase todos os filmes com o selo Marvel dentro dos acordos com a Fox, a Sony e a Universal. Em 2007, assumiu a presidência de produção dos Marvel Studios, onde colocou em prática seu plano de criar o UCM, ao mesmo tempo em que o estúdio começava a lançar filmes próprios.

Dez anos e dezessete filmes depois, a construção de um universo compartilhado como a que ele criou é o Santo Graal do momento em termos de modelo de negócio em Hollywood, e sua credibilidade segue intocada. Para se ter uma ideia, a Vanity Fair perguntou ao co-diretor de Vingadores – Guerra Infinita, Joe Russo, por que tantos falham em alcançar o mesmo sucesso do UCM no cinema. A resposta dele foi “Simples, eles não têm um Kevin”.

Claro que isso não aconteceu sem conflitos. O diretor Edgar Wright deixou o Homem-Formiga praticamente na véspera do começo das filmagens depois de estar envolvido na produção por quase oito anos, e ainda assim o filme foi um sucesso. Atribui-se também à interferências do estúdio o fim da parceria com o diretor Joss Whedon depois de Vingadores 1 e 2, mas esses problemas nunca ficaram no caminho dos êxitos consistentes do UCM. Alguns até questionam o que seria uma fórmula repetitiva desse universo, mas o que não se põe em dúvida é que o próximo filme sempre vai ter uma bilheteria forte e que a grande maioria do público vai gostar e se divertir.

Céus, mas é tão fácil, por que a DC não faz a mesma coisa?

Pelo que tenho visto por aí, Kevin Tsujihara parece ter side eleito o grande culpado pela falha da Liga nos cinemas. A ele se tem atribuído interferências na produção, como a exigência de que o longa tivesse menos de duas horas de duração. De fato, não é a primeira vez que o excesso de interferência nas películas é apontado como a causa principal do fracasso da maior parte dos filmes do UCDC nos últimos anos.

O que as pessoas não costumam levar em consideração é que, como vimos, esse tipo de interferência é comum no meio cinematográfico e mesmo a Marvel não está livre delas. Esses filmes são muito caros e os estúdios esperam ter retorno financeiro de seu investimento, então é temerário confiar completamente em diferentes pontos de vista de diferentes diretores. É preciso ter alguém para gerir isso e deixar tudo coerente.

Os gestores da Disney têm pulso forte e um impressionante conhecimento do patrimônio dessas marcas e seu público. Eles têm poder absoluto, mandam filmar e refilmar, contratar e demitir diretores sempre que julgam necessário, e têm o apoio que precisam para fazer isso acontecer. Dessa maneira, ter alguém competente que conhece o caminho a ser tomado é essencial e, ainda que a Disney faça isso parecer fácil, não é tarefa para qualquer um.

Com o estrondoso sucesso da trilogia do Cavaleiro das Trevas e o fracasso de Superman – O Retorno, a conclusão na Warner foi que o público atual demandava filmes sombrios e seriões. É por isso que O Homem de Aço ficou a cargo de Zack Snyder, que mostrou muita habilidade com fotografia escura e estética que lembra videogame em 300 e Watchmen.

Com a boa (ainda que não excelente) recepção do filme, ele teria assumido um certo poder criativo dentro do UCDC, mas esse poder nunca pareceu absoluto. Depois que Batman v Superman – A Origem da Justiça (BvS) e Esquadrão Suicida não arrecadaram o esperado, suas escolhas passaram a ser questionadas internamente e, após uma tragédia familiar tê-lo afastado de Liga da Justiça, seu futuro com os heróis da Warner parece incerto.

Atualmente quem responde pelo UCDC é Geoff Johns. Prata da casa da DC Comics, teve uma excelente passagem pelas produções televisivas dos heróis na CW. Apenas dois filmes foram lançados depois que assumiu, e ambos já estavam em andamento, mas parece ter conseguido deixar seu toque de alguma forma. Desses, Mulher Maravilha foi o único sucesso retumbante da Warner desde a criação do universo, e a Liga não agradou, por mais que seja possível ver por aí fãs que vêm elogiando a mudança de rumos em relação a BvS.

Os próximos filmes da DC terão tido sua participação mais desde o início e só o tempo dirá se ele terá liberdade para trabalhar e, se tiver, se terá competência para segurar esse rojão. Para os fãs, fica a torcida de que a Warner tenha arrumado um Kevin.