Como sabemos, a saga do Homem-Aranha na atual leva de filmes de super-heróis começou em 2002 com os filmes de Sam Raimi, estrelando Tobey Maguire no papel do herói. Até chegar aos cinemas, no entanto, a Marvel havia passado anos tentando emplacar uma película do Amigão da Vizinhança.

Depois que o seriado do Aranha dos anos 70 terminou, a proposta do filme passou por várias produtoras. Na primeira versão do roteiro da Cannon Films, ele era um monstro de oito pernas que pouco lembrava o herói que conhecemos.

Stan Lee, homem forte da Marvel na época, conseguiu emplacar um novo tratamento que refletisse mais a criação do modo como ele e Steve Ditko haviam concebido. Essa versão figurava o Doutor Octopus como vilão. O novato Tom Cruise chegou a ser cotado para viver o herói nessa época, mas o papel ficou com o dublê Scott Leva e o próprio Lee daria vida a J. J. Jameson.

Tom Cruise moleque, de raiz.

A película chegou até a ganhar um teaser trailer, mas o desenvolvimento estava enrolado. O problema é que a produção sofria sucessivos cortes de orçamento porque os outros filmes da Cannon – os esquecíveis Superman IV e He-Man e os Mestres do Universo – estavam drenando muito de seus caixas. Nesse ponto, o roteiro estava totalmente desfigurado. Assim a coisa seguiu até o fim dos anos 80, quando a produtora acabou desmembrada e o projeto foi passado para a 21st Century Film Corporation, que chegou a anunciar data para o começo das filmagens em 1989, mas nada aconteceu.

Em 1990, a Carolco Pictures comprou os direitos para fazer o filme e ninguém menos que James Cameron escreveu uma história em que os vilões seriam versões adaptadas do Electro e Homem Areia, e continha elementos dos scripts anteriores, como o lançador de teia orgânico. Também tinha muito palavrão e uma cena de sexo entre o Homem-Aranha e Mary Jane na Ponte do Brooklin, o que o tornava mais adulto.

James: With great powers comes fucking responsabilities!

Nota: se você quiser saber mais sobre as várias versões do script ao longo das décadas de 1980 e 1990, recomendo este texto do blog “Filmes para Doidos” que está bem completo.

Em 1992, a Carolco interrompeu a produção por conta de seus muitos problemas financeiros. Os direitos caíram, então, em disputas legais quando a MGM comprou o acervo da 21st Century e contestou o acordo Marvel/Carolco. Em 1999, a Marvel negociou os direitos do filme com a Columbia Pictures (subsidiária da Sony Pictures Entertainment), e lá estava a MGM com um processinho na mão. Como as duas empresas também disputavam a titularidade da franquia de James Bond, entraram em um acordo e cada uma ficou com uma série, sem ressentimentos.

Depois de todo esse imbróglio jurídico, a produção finalmente estava nas mãos da Sony e bem na época em que X-Men estava sendo lançado com grande sucesso. Aí ela começou a andar de verdade e foi confiado a Raimi. Em 2001, o seguinte trailer foi lançado, levando a internet à loucura:

Infelizmente, por causa dos atentados terroristas de 11 de setembro, a cena acabou cortada do filme, o que não impediu que ele fosse um grande sucesso no ano seguinte. Como já mencionamos aqui na seção Passando Café, junto com os X-Men, o filme de Sam Raimi foi um dos grandes responsáveis por trazer o hype de super-heróis à tona trazendo uma onda de sucesso que dura até hoje, além de reerguer a então falida Marvel das cinzas.

Óun!

Não se pode dizer que não foi um passo arriscado. Em uma árida era pós-Batman e Robin, os quadrinhos andavam bem por baixo no cinema, e mesmo os sucessos procuravam disfarçar suas origens na nona arte. Blade havia chamado muito público, mas pouca gente ao menos sabia que era uma adaptação de quadrinhos. Os X-Men andavam por aí enrustidos de roupa de couro. Já o Aranha se balançava entre os prédios de roupa colorida, sem vergonha de ser HQ.

A franquia foi um grande gerador de renda para a Columbia/Sony durante anos. Mas como nada que é bom dura para sempre, o terceiro filme da série não foi tão bem nas críticas e na bilheteria. Muitos relacionaram a isso a interferências do estúdio para incluir vilões que vendessem brinquedos. Isso acabou desgastando a relação entre eles e Raimi, que decidiu não voltar para um quarto filme.

Como é especulado que havia uma cláusula no contrato Sony/Marvel que impunha um limite de 5 anos para a produção de novos filmes sob pena de os direitos voltarem para a Marvel, a produtora não quis esperar muito para lançar um reboot. Não podemos esquecer também que em 2008, apenas um ano depois do lançamento de Homem-Aranha 3, foi o debut do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) com Homem de Ferro, o que quer dizer que a Marvel Studios já estava ficando de olho comprido para ter o Teioso de volta.

O Espetacular Homem-Aranha foi lançado em 2012 e trazia novamente a explicação para a origem do Amigão da Vizinhança, dessa vez sob a batuta de Mark Webb (sacou, web!), e com Andrew Garfield no papel principal.

Por que eles têm que matar meu tio uma vez a cada dez anos???!!!

A recepção a esse filme foi morna, embora tenha gerado uma continuação, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, que naufragou. Podemos ver na tabelinha abaixo (seguindo a tradição de nossos textos, apenas tentando especular, já que não se tem como saber exatamente os números oficiais).

Orçamento Bilheteria EUA Bilheteria Mundo Retorno
Homem-Aranha 139 404 418 121,0%
Homem Aranha 2 200 374 410 45,7%
Homem-Aranha 3 258 337 554 23,2%
O Espetacular Homem-Aranha 230 262 496 16,0%
O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro 293 203 506 -17,0%

A Sony começou a se ver, então, em uma sinuca-de-bico. Os filmes não vinham mais indo bem, mas eles ainda estavam tentando pegar carona no hype dos super-heróis que tinham ajudado a colocar em movimento. E foi aí que as coisas ficaram piores.

Em 2014, milhares de e-mails internos trocados por executivos da Sony foram revelados para o público pelo site Wikileaks. Especula-se que o hackeamento tenha sido levado a cabo pela Coreia do Norte, que não gostou da sátira ao seu regime feita no filme A Entrevista.

Temos o Teioso no MCU ao custo de mais um filme do Seth Rogen no mundo. Valeu a pena?

Os documentos revelavam que Kevin Feige tinha dado uma série de dicas e críticas para a Sony em O Espetacular Homem-Aranha 2 (solenemente ignoradas) e que o acordo então vigente entre as produtoras incluía que o Homem-Aranha tinha que ser espada e branco. Além de tudo isso, revelava que havia rolado uma conversa sobre um tal crossover entre os estúdios, mas que não tinha dado em nada.

Pressionada pelos fãs que gostariam de ver no que o toque de Midas da Marvel transformaria o Homem-Aranha, a Sony acabou cedendo à parceria. Incluído agora no UCM, o novo Teioso teve sua estreia em Capitão América: Guerra Civil e é interpretado por Tom Holland.

Nesta semana, tivemos a estreia da nova abordagem ao personagem, a terceira em quinze anos, em Homem-Aranha: De Volta Ao Lar. Como o próprio subtítulo sugere, o filme se escora pesadamente no fato de que ele está de volta à Marvel, e isso por si só tem causado muita empolgação. As primeiras reações demonstram que as expectativas – já bastante elevadas, diga-se de passagem – foram alcançadas e espera-se que o filme vá muito bem na bilheteria.

Entendeu? Tem o Homem de Ferro no filme! Eu já falei que o Homem-Aranha está no UCM? Só pra ter certeza.

Como quando o dinheiro está sobrando é muito mais fácil ser feliz, a lua-de-mel entre Sony e Marvel parece não ter fim. De fato, a produtora Amy Pascal ficou tão empolgada com a ideia que até gerou uma confusão quando espalhou que os demais filmes produzidos por ela no Aranhaverso pertenceriam ao UCM, apesar de Kevin Feige constantemente desmenti-la. Mesmo com a Sony parecendo muito pegajosa, a Marvel já fez juras de cinco filmes. É tão bonito quando uma relação começa bem assim, vamos torcer para que o dinheiro não fique entre eles!

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