Vamos abrir com uma pergunta: conhece o Doutor Anton Mordrid, o místico supremo? Não? Parabéns, isso é um sinal que você teve uma vida.

Para quem não sabe, Anton Mordrid é um mago mandado pra Terra por uma entidade chamada O Monitor, para vigiar um tal de Kabal que quer a pedra filosofal (rimou, inclusive) para abrir o portão do inferno. Porque exatamente, não sabemos, mas tudo bem. É vilão e desde quando vilões precisam de motivação, já diria Zack Snyder. Doutor Mordrid é também uma produção evidentemente B dirigida por Charles Band em 1992. E não menos importante, Doutor Mordrid é na verdade o Doutor Estranho da Marvel.

Mas que cara estranha, Stephen…

O filme foi outro lançamento direto pra vídeo da produtora Full Moon de Band, que já havia virado craque nos filmes curtos, rápidos e baratos. A Full Moon lançou franquias como a série Puppet Master e Subespecies, compensavam os orçamentos eternamente mirrados com uma criatividade um senso de diversão ímpar. Para ter uma ideia, basta pensar em Robot Jox, produzido por Band em seu estúdio anterior, a Empire. O que dizer de um filme onde no futuro russos e americanos decidem acabar de uma vez por todas com suas diferenças de maneira sensata e adulta: chamando um homem de cada país para eles pilotarem robôs gigantes e se estapearem até o outro cair no chão. Melhor que qualquer episódio da cinessérie Transformers, por essa história você já tem uma ideia da vibe geral dos filmes da Full Moon.

Entre suas fileiras, nomes como David S. Goyer, Viggo Mortensen, Helen Hunt, e Julia Dreyfus tiveram suas primeiras chances no cinema. Eles devem se cagar de vergonha disso, uma vez que Band faz questão de ressaltar esses dados em seu site. Ele também introduziu o conceito de making-of em seus VHS, ou tentou, uma vez que a distribuidora Paramount não gostou nada disso e exigiu que ele pagasse o excesso de fita consumida. Ossos do ofício.

Band sempre declarou que queria que seus filmes tivessem um “comic book feel”(e isso muito antes de quadrinhos serem legais), não era incomum suas franquias cinematográficas se cruzarem uma com as outras, dando a entender que todas compartilham o mesmo universo, como a série Puppet Master, que consta com uma imensa cronologia que remonta até a Segunda Guerra, seu derivado, Demonic Toys e até o policial alienígena de tamanho reduzido, Dollman.

Bonecos assassinos + policial alienígena minúsculo? Ora, porque não?

Bom, voltando a Doutor Mordrid.

Charles Band conseguiu os direitos do bom doutor da Marvel, época que a editora ávida por dinheiro a) rifafa os direitos dos personagens por qualquer merreca, b) filmes de heróis não eram levados a sério, logo, nenhum estúdio “de verdade” queria ter nada com eles. O cineasta começou a produção, se enrolou, atrasou e no fim de todo esse processo, os direitos expiraram. Band não viu nenhum problema, óbvio que ele não iria pagar dinheiro para renovar os direitos. Simplesmente mudou o nome do personagem e lançou assim mesmo. Para acrescentar um toque extra de ironia à coisa, Jack Kirby fez alguns dos concept arts da produção.

Concepts de Kirby para o projeto, quando ainda era chamado Doctor Mortalis.

Para o papel de Doutor Estranho, digo, Mordrid, foi escalado Jeffrey Combs, veterano da Empire, a produtora anterior de Band onde estrelou a franquia Re-Animator e adaptações lovecrafrianas como Do Além. Quanto ao resto do filme, bom, nem tentaram disfarçar, apenas mudaram o nome na cara-dura mesmo. Assim, quando você escutar Anton Mordrid basta trocar para “Stephen Strange”, “Kabal” trocar por “Mordo” e “O Monitor” por “Ancião” e seguir reto.

Mordo soltando um Purple Haze no pobre (ênfase nessa palavra) Doutor Estranho.

Apesar dos pesares, e de um “polpudo” orçamento de 2 milhões, o filme tem dignidade. Diverte se você manter sua expectativa lá no chão (até porque elevar expectativa em um caso desses é quase um ato de fé), desfilando, claro, todos os chavões da época, incluindo os inevitáveis peitos de fora gratuitos, durma com essa, Marvel Studios. E vamos ser honestos, como não gostar de um filme cujo clímax é o esqueleto de um mamute e um t-rex duelando em stop-motion?

Para quem quiser ver, tem o filme inteirinho no Youtube, é pouco mais de uma hora, vê lá.

Pelo olho de Agamotto, Internet, sua linda…

 

 

 

 

 

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