Alguns mantras são repetidos pelos fãs de quadrinhos à exaustão. “Bruce Wayne não existe, é a máscara social do Batman”, “Aquaman só serve pra falar com peixes”, “o Justiceiro não funciona dentro do Universo Marvel regular”, “Marvel Mangá foi um erro”, entre muitos outros. Verdadeiros ou não, a repetição desses clichês acaba gerando uma ideia equivocada sobre personagens, suas histórias e as mídias em que são representados.

Aqui, não. Aqui tá tudo errado mesmo.

Vamos tomar por exemplo as inúmeras comparações entre os filmes “Capitão América: o Primeiro Vingador” e “Mulher Maravilha“. Eu comecei a notá-las, tanto em sites tradutores de notícias quanto em grupos do Facebook, antes mesmo do filme da amazona chegar aos cinemas. Provavelmente porque ambos se passam num período de guerra e não no presente, mas será que esse fator justifica as comparações? Será que a Mulher Maravilha realmente é apenas um “Capitão América de saias”?
No geral, os dois filmes mantêm um mesmo padrão de qualidade e desenvolvimento do protagonista – exceto, claro, pela batalha final em Mulher Maravilha (estarei caindo em um clichê?). Mas as guerras em que os filmes se passam são um bom ponto de partida para entendermos o contexto em que encaixaram o personagem e como isso serve a dois propósitos: o primeiro, óbvio, é justamente evitar as comparações. A Mulher Maravilha foi criada em outubro de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, que serviu de pano de fundo para muitas de suas histórias – ainda que esse não fosse seu objetivo. O Capitão da Marvel, criado em março do mesmo ano, sim. Ele é fruto de um experimento científico destinado a produzir um exército de super-soldados. Contudo, ele acabou sendo o único.

De certa forma.

Como o filme da Marvel chegou primeiro, foi muito fácil criar a ambientação e colocá-lo no mesmo cenário de suas histórias originais. Quando o filme da Mulher Maravilha foi feito, com o universo cinematográfico da Marvel já estabelecido, menções a Hitler e ao nazismo realmente levantariam muitas comparações e dedos em riste. Porém, contextualmente, essa acabou sendo uma vantagem para o filme da Warner.
A Primeira Grande Guerra, que durou de 1914 a 1918, foi um conflito sem precedentes – por isso o nome. A tecnologia da época já permitia matança em larga escala, de maneira cruel, e a falta de convenções específicas davam ênfase à palavra “cruel”. Minas terrestres, morteiros, gás, todo tipo de máquina de morte e destruição era usada – contra soldados e civis. Isso em um conflito que envolveu a Europa inteira e muitos outros países ao redor do mundo. Para Diana, que jamais imaginou algo nessa escala ou pessoas capazes de tamanha crueldade, sua missão se torna ainda mais importante. Sua mensagem de paz está sendo levada para uma cultura que está descobrindo o horror, se alimentando dele e o espalhando cada vez mais. A espécie humana é muito criativa quando se trata de infligir dor, um talento apenas superado pela capacidade de sacrificar o próximo de maneira puramente burocrática. “Invada a cidade e mate todos”, “faça os prisioneiros cavarem suas covas e, então, execute-os”, “dispare contra o hospital”.
Não, a Segunda Grande Guerra não mostrou que somos capazes de evoluir. Pelo contrário. O Holocausto e duas bombas atômicas comprovam isso. Mas o que torna a situação mais dramática é a crença de Diana de que uma guerra nessas proporções só ocorreria por causa da influência de Ares, o deus da guerra. Essa ingenuidade não teria funcionado no contexto do segundo conflito, onde alguém apenas lhe diria “que nada, já aconteceu antes”. A Mulher Maravilha luta acreditando que derrotar Ares trará fim não apenas a esse conflito, mas a todo belicismo humano na criação de armas de destruição cada vez mais letais. Sua luta é contra a própria acepção da guerra em si, um conceito que, ela ignora, é inato na nossa espécie. Não ficou claro pra mim, no entanto, de onde ela tirou tanta fé na humanidade uma vez que ela vive em uma civilização que faz o possível para se afastar dela.

Imagine o quanto poderiam faturar com turismo.

Já o Capitão América vem de um background completamente diferente. A própria essência do super-herói, que começou a ser delineada por Siegel e Shuster, encontra reflexo em Steve Rogers. Os mais fortes devem proteger os mais fracos – mas a verdadeira força não é física, e sim espiritual. Por isso ele enfrenta valentões e não foge, pois, do contrário, eles vão continuar sendo valentões. Ele cresce durante a Grande Depressão, um período sombrio de caos econômico e incerteza social nos Estados Unidos, para se tornar alguém que quer fazer o que é certo, mesmo que isso custe sua vida.
O Capitão de Chris Evans não é tão ingênuo em sua visão de mundo, ainda que seja tão idealista quanto a princesa de Gal Gadot. Ele já viu horrores demais, como a morte de sua mãe, doenças, miséria, a violência nas ruas, a luta para sobreviver, além de ter vindo de uma geração que conhecia os horrores da guerra por ter sobrevivido a ela. A Mulher Maravilha conhecia lendas e mitos, histórias que foram contadas por guerreiras virtualmente imortais, vivendo em uma sociedade utópica e distante.
Os personagens parecem ter uma jornada oposta, na verdade. Enquanto a divina Mulher Maravilha “desce” ao mundo dos homens para ver de perto do que eles são capazes (sem jamais descer ao nível deles de ignorância e desprezo pela vida), o fraco Steve Rogers “ascende” a um mundo de deuses, monstros e maravilhas tecnológicas – mas se impõe entre eles. Ambos tornam-se um farol, mas por motivos diferentes.

E se eles…

O filme da Mulher Maravilha tem uma pretensão maior, de discutir a natureza auto-destrutiva da humanidade, enquanto Capitão América trata da luta do bem contra o mal, de maneira mais simples, maniqueísta e até superficial. Essa característica é um dos clichês que diferenciam os filmes da Warner (com a pretensão de serem mais profundos e filosóficos) dos filmes da Marvel, blockbusters mais rasos em suas mensagens. O problema de ser pretensioso, só pra repetir uma frase bem lugar-comum, é que, quanto maior a ambição, maior a queda. Já na simplicidade, é mais difícil errar. Os filmes da Marvel querem ser entretenimento, e não um profundo tratado sobre seja lá o que for. Via de regra, acertam.
As similaridades entre os filmes existem, claro. Enquanto a Mulher Maravilha é auxiliada por um grupo de renegados desajustados, até com um certo carisma, o Capitão América tem o apoio do Comando Selvagem (menos Nick Fury que, como sabemos, não lutou na Segunda Guerra em sua versão cinematográfica). O Comando Selvagem, porém, acaba tendo muito menos atenção do que o grupo da Mulher Maravilha, tornando-se facilmente esquecido. (Mas o foco do filme, Steve Rogers e como ele se torna o lendário herói de guerra, tem todo o foco necessário para torcermos por ele e nos emocionarmos com sua jornada.)
Outro ponto levantado foi o sacrifício final dos Steves. Steve Trevor se lança em um voo suicida para impedir a detonação de uma bomba, o que o separa definitivamente de seu grande amor. Talvez seja o melhor momento do terceiro ato do filme, completamente destruído pela risível batalha entre Diana e Ares. Já Steve Rogers embarca disposto a enfrentar o Caveira Vermelho – e derrotá-lo – mesmo que isso custe sua vida, mas nada indica que seja uma missão suicida. Essa é uma decisão que ele toma posteriormente, para evitar mais mortes, o que o separa “definitivamente” de seu grande amor. Ainda que seja uma cena espetacular em um filme ótimo, a carga dramática se resume ao fim do romance entre o Capitão e Peggy, já que sabemos que ele não vai morrer na queda.

Talvez ele até preferisse.

Esses dois pontos me parecem pouco para dizer que “seguiram a mesma fórmula”. O sacrifício de um grande amor em nome de um bem maior é um tema recorrente da literatura, cinema, quadrinhos, música, seja lá o que for. Os heróis são apresentados dentro de contextos facilmente reconhecíveis para quem os acompanha nos quadrinhos e extremamente satisfatórios para o público em geral. De um lado, o Capitão América tem um coração de ferro, pronto para encarar os horrores da guerra de frente e fazer o que for necessário para garantir a liberdade – e nunca, jamais abandonar um amigo. Do outro, a Mulher Maravilha com um coração de ouro está disposta a mostrar pelo exemplo que existe uma maneira melhor de resolver os conflitos – mas não vai deixar que confundam isso com fraqueza, por mais que ela seja ingênua. Seu maior mérito foi fazer um personagem DC funcionar no cinema em sua essência – algo que não vimos em Homem de Aço, Esquadrão Suicida e, principalmente Batman vs Superman, sendo apenas mantido a muito custo em Liga da Justiça. Convenhamos, é muito pouco. Capitão América teve como mérito apresentar um herói que precisava se sobrepôr ao carisma do Homem de Ferro de Robert Downey, Jr pelo menos o suficiente para convencer como líder dos Vingadores. Pouco a pouco, conseguiu bem mais do que isso, estabelecendo o personagem como a pedra fundamental do Universo Marvel e um dos heróis mais aguardados no vindouro Guerra Infinita.

Pelo menos enquanto a Disney não compra a Warner

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