Há duas semanas, fizemos aqui uma comparação entre Marvel e DC no cinema nos últimos anos, e mencionamos a 20th Century Fox apenas tangencialmente. Depois de milhares de cartinhas recebidas no nosso endereço Rua Saturnino de Brito, 64, Jardim Botânico, finalmente falaremos sobre os filmes da Marvel na Fox.

Como contamos anteriormente, nos anos 1990, a Marvel estava na pindaíba e acabou fazendo alguns contratos cinematográficos em posição de desvantagem. Esses acordos, no entanto, foram fundamentais para a Casa das Ideias se levantar e se tornar a fábrica de blockbusters que é hoje. O site The Geek Twins fez um infográfico bastante republicado no mundo internético para as pessoas entenderem como está a situação de cada personagem no cinema.

* Nota: este gráfico é de 2014 e está com pequenas desatualizações. Os direitos de Namor foram revertidos para a Marvel; Homem-Aranha pode ser usado em filmes da Casa das Ideias, ainda que os direitos para filmes solo e de personagens relacionados ao Teioso permaneçam com a Sony.

Os contratos – tanto da Sony (que ficou com o Homem-Aranha) quanto da Fox – diziam que os estúdios ficariam com o direito de adaptações cinematográficas dos personagens desde que produzissem um filme dentro de um determinado período (já li por aí algo entre 5 e 7 anos, mas os termos são sigilosos e podem variar; como parâmetro, os direitos de Demolidor teriam voltado para a Marvel em 2012, sendo que o último filme da franquia, Elektra, é de 2005).

Vamos fazer aquela tabelinha então com a evolução do lucro dos mutantes para a Fox? Como anteriormente, foram considerados 30% de verba de marketing, que os estúdios ganham 45% sobre as bilheterias estadunidenses e 30% sobre as estrangeiras, e as cifras estão em milhões de dólares. Os números são, de fato, surpreendentes:

Filme Bilheteria EUA Bilheteria Mundo Orçamento Retorno Estimado
X-Men 157 139 75 15,23%
Demolidor 103 77 78 -31,51%
X2 215 193 110 8,15%
Elektra 24 32 43 -63,51%
O Quarteto Fantástico 155 176 100 -5,73%
X-Men 3: O Confronto Final 234 225 210 -36,70%
Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado 134 157 130 -36,45%
X-Men Origens: Wolverine 179 193 150 -29,00%
X-Men: Primeira Classe 146 207 160 -38,56%
Wolverine Imortal 133 282 120 -7,40%
X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido 234 514 200 -0,19%
Quarteto Fantástico (reboot) 56 112 120 -62,31%
X-Men: Apocalypse 155 388 178 -19,55%
Deadpool 363 420 58 283,75%

São surpreendentes porque os filmes aparentemente não dão lucro. Isso dá um novo significado à expressão “louco como uma raposa” (hã, sacaram?).

Uma explicação para eles ainda insistirem na franquia pode estar no fato de que a Fox, ao contrário da Sony, detém os direitos de merchandising sobre os seus filmes. Isso quer dizer que, quando a Sony fez um filme do Espetacular Homem-Aranha, um caminhãozinho cheio de dinheiro (feito com mochilas, cadernos, brinquedos, supositórios e outras coisas com a cara do Andrew Garfield) foi pra ela e um foi pra Marvel – é por isso que elas são miguxas e conseguiram chegar num acordo para ter o Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel. Mas com a Fox a história é outra.

O amigão da Marvel.

O Kevin Feige (que aliás trabalhou na produção dos primeiros X-Men) observa de sua janela enquanto os comboios de caminhões de dinheiro de merchandising da Fox passam na rua sem parar na sua porta. É por isso que um filme que fez uns 5% de prejuízo como o Quarteto Fantástico pode não ser considerado um fracasso por eles. Já um desfalque ao redor dos 35% seria um alerta para um reboot, como aconteceu com o Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, e X-Men 3. Mais de 60% significou enterrar a franquia do Demolidor (com Elektra) e talvez signifique a mesma coisa para o Quarteto.

Reparem que o Primeira Classe já era um reboot em termos, e fazer um outro a partir dele seria temerário, mesmo os investidores tendo que colocar 40 centavos do próprio bolso para cada dólar investido. Mas a marca é tão valiosa para a Fox que ela não foi colocada na geladeira. Ao contrário, o fracasso foi usado como um trampolim para ver se o próximo se sairia melhor (ainda mais com um elenco com Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e James McAvoy), além de garantir que os direitos não voltariam para as garras que eram de osso mas hoje são de adamantium da Marvel.

Muita gente boa pra desperdiçar.

Aliás, esta, por sua vez, não está nada contente com esse contrato da maneira como as coisas estão hoje. Isso levou a Casa das Ideias a boicotar os X-Men nos seus gibis, diminuindo a importância dos mutantes e investindo mais nos Inumanos, da mesma maneira que fez com o Quarteto Fantástico. Um dia considerada responsável por ajudar a Marvel a sair do buraco que se encontrava, hoje Fox é uma palavra que causa arrepios no lar do Capitão América.

Esse dia foi loko…

No ano passado, houve uma virada interessante. Depois de uma aparição horrorosa em X-Men Origens: Wolverine, Deadpool iria ganhar seu próprio filme repaginado. Em 2011, contrataram os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick, o diretor novato Tim Miller, e o astro em ascensão Ryan Reynolds para colocar tudo em prática. Só que aí o astro em ascensão fez Lanterna Verde no mesmo ano e os engravatados acharam que o roteiro era ousado demais. Tinha palavrões, gore, nudez e piadinhas infames, tudo o que faz as pessoas gostarem do gibi, mas que não tinha precedente nenhum em cinema baseado em quadrinhos. Até pediram para gravar uma filmagem teste. O resultado foi gaveta.

Até que, em 2014, a filmagem teste “vazou”.

A Internet pirou e não teve como a Fox ficar alheia. Prevendo um público muito limitado, já que a censura seria de 18 anos, liberaram um orçamento em modestíssimos US$ 58 milhões com lançamento em fevereiro, mês mais parado para blockbusters. O resultado foi um filme bem simples e focado em um personagem central que mantém todas as características da fonte original – e que garantiu a segunda maior bilheteria de um filme de super-herói nos EUA no ano passado. Um retorno de quase três dólares para cada um investido. Nada mau.

Deus, eu não sei o que fazer com tanto dinheiro!

Logan parece que está seguindo a mesma linha: um roteiro menos espetacular e mais centrado, um orçamento mais baixo, elogios da crítica e muito hype. Se o êxito de bilheteria for comparável, será que isso terá influência nos próximos filmes dos mutantes, incluindo aí a Saga da Fênix, que será a inspiração para o próximo filme da franquia principal?

O que pode ser visto é que, na contramão da concorrência, o orçamento de Apocalypse já é menor do que seu antecessor, o que também garantiu um prejuízo menor, e isso antes de Deadpool causar nas bilheterias. O sucesso do Mercenário Tagarela afasta a esperança daqueles que estavam na torcida para ver um filme dos mutantes pela Marvel; mas quem sabe, afinal as duas produtoras sentaram-se como gente grande para resolver as pendências dos direitos para televisão, e o primeiro resultado disso, Legion, já está no ar e arrancando elogios.

Torçamos, amigos!