Vidro, que estreia esta semana, não foi fácil de sair do papel, pelo contrário. Seu diretor, M. Night Shyamalan, concebeu a história há quase vinte anos, mas só agora conseguiu apresentá-la da maneira que queria. Para entender o contexto de como tudo isso começou, e mais tarde se arrastou, vamos voltar um pouco antes dessa jornada começar.

Shyamalan era um jovem indiano que tinha feito dois filmes que ninguém assistiu (Praying with Anger, de 1992 e Wide Awake, de 1998) quando resolveu mandar um roteiro para ninguém menos que Bruce Willis. Você aí deve estar imaginando que o envelope foi cuidadosamente guardado em uma gaveta própria para isso no escritório do agente do ator, que, na verdade, é uma trituradora de papel. Mas não foi isso o que aconteceu. O eterno John McClane leu o script e gostou. Em seguida, viu os filmes anteriores do diretor e pensou consigo “esse moleque consegue”. O resultado disso foi o surpreendente filme (uma outra maneira de dizer com plot twists) O Sexto Sentido, que fez quase US$ 380 milhões de bilheteria e o alçou à fama aos trinta anos.

Havia muita expectativa sobre qual seria se projeto depois disso. Fã de quadrinhos, ele sabia que super-heróis de collant eram um fruto cultural anos trinta, quando homens fortes no circo deixavam seus músculos em evidência com essas roupas coloridas, e que delineavam as articulações, notoriamente com a cueca por cima das calças. Ele se perguntava como seriam esses heróis se eles tivessem sido pensados nos dias de hoje. Decidiu que essa seria sua próxima empreitada.

Shyamalan diz como conseguiu terminar de contar a história de seus super-heróis na CCXP 2018

Mas não foi tão fácil quanto ele pensava. No fim dos anos 90, heróis estavam em baixa. Produtores acharam a escolha do tema estranha, lembrado a ele que quem gostava de gibi eram nerds esquisitos que se encontravam em convenções de quadrinhos. Como era parte dessa turma, ele não gostou de ouvir isso, e insistiu na ideia, aproveitando o seu momento de alta para fazer o filme acontecer.

Ele então escreveu a história de David Dunn (Bruce Willis), um segurança que pode ou não ter superpoderes (spoiler: tem, sim), e seu nêmesis superinteligente Elijah Price (Samuel L. Jackson). Mas havia algo no enredo que estava sobrando, ele tinha muitas subtramas. Esse algo tinha o nome de Kevin, um jovem com 23 personalidades cuja instabilidade era uma ameaça que David teria que encarar. Shyamalan decidiu separar as duas histórias, e lançou Corpo Fechado em 2000 com mais foco na apresentação do personagem de Willis.

O filme teve receptividade morna por parte de crítica, com nota 69% no Rotten Tomatoes, e público, fazendo pouco menos de US$ 95 milhões nos EUA. A história de Kevin foi para a geladeira.

Não é como se os envolvidos não estivessem empolgados para levar as continuações adiante. Durante os anos em que não saíram do papel, Shyamalan cruzou com Jackson por duas vezes. Em ambas, o eterno Jules Winfield de Pulp Fiction estava de carro, parou, baixou o vidro e cobrou:
– Are we doing the sequel, motherfucker?*
*Vamos fazer a sequência, filha-da-puta?, em tradução escolástica.

Tem como dizer não pra essa carinha?

Shyamalan acreditava que o tom esquisito de Corpo Fechado, com um humor estranho meio misturado com a tensão, aliado ao tema de quadrinhos, havia pego um público pouco receptivo. Com o tempo, ele começou a ver que tanto o tipo de narrativa quanto a temática havia crescido no gosto popular e era o momento de lançar a sequência.

A espera durou 17 anos. Contando com belas atuações de James McAvoy e Anya Taylor Joy, e focado na apresentação de Kevin, Fragmentado foi melhor que seu antecessor, fazendo US$ 138 milhões nos EUA e recebendo nota da crítica de 76% no Rotten Tomatoes. Foi o suficiente para fazer a conclusão da história ganhar o sinal verde.

Uma curiosidade é que, antes de lançar o filme comercialmente, Shyamalan chamou Jackson para uma sessão privada. Ao ver a ponta de Willis no finalzinho, Jackson perguntou:
– Vamos fazer?
– Vamos fazer, motherfucker!

Esta semana é a estreia de Vidro, que finalmente vai concluir o arco da história iniciada em 2000 e que Jackson, Shyamalan, e muitos de nós ansiávamos, confrontando Dunn contra Kevin. Valeu a pena esperar quase vinte anos? Parece que agora vamos saber.