No cambaleante Universo Cinematográfico DC (UCDC), uma questão que aparece de maneira recorrente é a necessidade de se conter o Superman caso ele se volte contra a humanidade. Está como pano de fundo em Homem de Aço, é o principal motivo da formação do Esquadrão Suicida, a razão pela qual o Homem-Morcego o enfrenta em Batman v Superman – A Origem da Justiça, e está novamente em primeiro plano no retorno do herói em Liga da Justiça.

Além de ser o primeiro, Superman sempre foi um dos heróis mais poderosos do Universo DC, ainda que alguns vilões tenham os mesmos superpoderes que ele, como o Ultraman (seu equivalente da Terra Três) ou o Bizarro. O Homem do Amanhã parece ter uma proficiência com eles que falta a seus adversários, além de estar sempre se aprimorando e inventando novas e criativas maneiras de vencer no final. Isso explica por que ele ainda mantém o cinturão de campeão inconteste (embora não dê pra dizer que ele é invicto, contando que até já morreu mais de uma vez) do multiverso. De fato, é difícil encontrar alguém que seja capaz de enfrentá-lo no mano a mano, sozinho ou em grupo.

Nem sempre ele precisa usar seus superpoderes, frequentemente ele consegue ser mais esperto que os mais inteligentes seres da galáxia.

Enquanto muitos se dariam por vencidos, ele está lá se aprimorando para voltar mais forte.

Podemos também observar que um de seus maiores superpoderes é a capacidade dos autores de tirar soluções do… digamos… nada.

Você deve estar aí pensando que o Batman sempre tem um plano e daria uma coça nele (como frequentemente faz) mas ele costuma contar com o fato de que o Escoteiro Azul se contém, já que sabe que usar cem porcento de seus poderes seria fatal contra quase qualquer um. Até hoje, as principais forças de contenção do Superman são sua moral e seus valores, e a maneira mais usada de enfrentá-lo quando está sob controle mental é investir nessas forças para fazê-lo recuperar a consciência.

Como um personagem ficcional, é muito provável que cada leitor tenha sua resposta sobre o que aconteceria caso ele passasse para o lado errado. É por isso que nós do HQ Café separamos três sugestões de leitura sobre o tema, todas visões aterrorizantes do pesadelo que os poderes do Homem de Aço podem causar à humanidade se estiverem fora de controle.

Superman – Entre a Foice e o Martelo (Red Son, de Mark Millar)

Um homem que usa seus superpoderes para manter uma ditadura global – foi assim que Millar imaginou o herói em “Superman – Entre a Foice e o Martelo” (2003). O autor descreve o que aconteceria se a nave com o pequeno Kal El tivesse caído não em Smallville, EUA, mas na área rural da Ucrânia, ex-URSS. Depois que é descoberto pelos olhos do mundo, ele é atraído por Stalin e ascende ao poder no Kremlin até o dia em que herda o comando do país.

Os problemas sempre começam em boas intenções

Sendo Superman, ele acredita que sua ideologia é o melhor para a humanidade, e consegue criar ordem, só que por meio do medo. Seu poder desequilibra a balança da Guerra Fria e, sob seu governo, poucos países deixam de aderir à próspera União Soviética (à qual se juntam mesmo alguns estados dos EUA).

Ah, pobre idiota…

Poucos homens se atrevem a ficar contra ele, entre eles o terrorista Batman e o cientista Lex Luthor, ambos humanos. De fato, essa ótima história mostra como a inventividade humana é capaz de derrotar a tirania mais poderosa. Aliás, é interessante de observar como, em todas essas versões que estamos mostrando aqui, os dois sempre entram como os primeiros na linha em desafio ao Homem de Aço malvado e são antagonistas importantes.

Imperdoável (Irredeemable, de Mark Waid)

Os poderes do Homem de Aço chegaram a variar de intensidade ao longo de sua quase octogenária carreira. Há histórias em que ele é quase onipotente, conseguindo escutar qualquer conversa que ele queira em qualquer parte do globo terrestre. Foi essa aterrorizante versão que Mark Waid imaginou para o homem que mantinha o mundo inteiro como refém em sua minissérie “Imperdoável” (2009).

Sujeito simpático. Lembra o Superman.

OK, essa minissérie não trata exatamente do Superman. Seria muito difícil conseguir que a DC mexesse dessa maneira com seu mais famoso super-herói. Em nenhuma versão má do Homem de Aço ele foi tão cruel e sádico, e para conseguir caracterizá-lo assim, Waid inventou seu próprio universo pela editora Boom! com arte de Peter Krause, Diego Barreto e Eduardo Barreto. A história trata de maneira muito empolgante a derrocada moral do herói Plutoniano (que tem os mesmos poderes que o kryptoniano) em direção à loucura, e o esforço de seus antigos aliados para detê-lo.

O Superman não faria isso…

Além de super-poderoso, esse herói transformado em vilão é capaz das piores crueldades, passando por tortura, mortes sanguinolentas e genocídio. A série, publicada originalmente em 37 edições, oferece uma leitura tensa daquelas difíceis de largar, e um belo final que é uma homenagem não só ao Superman como a seus criadores Jerry Siegel e Joe Shuster.

Injustice: Gods Among Us

Injustice é um game desenvolvido pela Nether Realm Studios lançado em 2013, que foi um sucesso instantâneo de crítica e vendas e gerou, além de uma sequência em 2017, uma série de revistas pela DC Comics.

Na história, o Superman de uma dimensão paralela é induzido a matar sua família quando o Coringa o faz acreditar que estava na verdade enfrentando o Apocalypse. Enquanto Batman interroga o vilão, o Homem de Aço junta-se aos dois compreensivelmente alterado. Diante das provocações, acaba perdendo o controle e assassinando o palhaço do crime.

Quando o Batman acha que você foi longe demais, é o momento de você repensar.

Nesse momento, algo se parte dentro do super-herói. Ele cruzou uma linha que tinha prometido nunca ultrapassar. A partir de então, Superman estabelece uma ditadura global na qual se torna juiz, juri e carrasco de qualquer crime que acredita requerer sua atenção.

Muitos heróis se juntam a ele por ideologia, outros por medo. Nesse ponto o jogo acerta ao demonstrar sem palavras que o poder Homem de Aço não está apenas em seus dons alienígenas, mas também em ser fonte de inspiração para os outros combatentes do crime. E ela faz muita falta quando é corrompida.

Quem resiste a essa nova ordem é executado pelo Superman e, mesmo assim, uma resistência é formada. Liderados pelo Batman (quem mais?), trazem alguns heróis e vilões do universo principal da DC para ajudá-los a derrotar o Homem do Amanhã.

Se você não tem tempo ou não gosta de jogar, pode assistir um compilado da história disponível no Youtube:

Certamente o Superman gostaria que nós aprendêssemos uma lição com este texto. A lição é que, se decidisse ser mau, três histórias já clássicas demonstram que ele conseguiria dominar o mundo sem muita dificuldade, colocando a humanidade sob um regime totalitário em que ele saberia todos os podres de todo mundo. Até mesmo o que você tem aberto na outra aba do navegador aí. Você sabe do que estou falando.

Manter esse regime já seria mais difícil, porque ele abriria mão de seu maior poder: sua moral inabalável. Isso vai ao encontro da grande máxima dos quadrinhos de herói: o mal nunca vence (não por muito tempo pelo menos) e ninguém representa melhor o bem do que o Homem de Aço.