Algumas vezes aqui, no HQ Café, nos deixamos levar pela emoção e memória afetiva, mas não podemos deixar de lado nosso senso crítico e olhar criterioso para filmes, séries e quadrinhos que acabaram se tornando polêmicos por sua qualidade – ou a falta dela. Para essa coluna, convidei meu amigo do Quadrimcast Carlos Vinícius Marins para falar uma ou duas palavrinhas sobre um filme que ele achou que precisava desse tratamento. E não é que ele se saiu muito bem? Com vocês, Defendendo o Indefensável: Superman III.

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Quando se fala sobre filmes de super-heróis, atores que parecem ter nascido para desempenhar determinados papeis, versões da DC para a tela grande que valem e ícones inesquecíveis dos anos 70, quase sempre uma imagem vem à mente: o Superman interpretado por Christopher Reeve. Também é lugar comum levar em consideração nesta recordação apenas os dois primeiros dos quatro filmes da franquia que ele estrelou.

Eu entendo isso. O primeiro longa-metragem estabeleceu um paradigma tão incrível para versões cinematográficas de super-heróis, que o subtítulo que ganhou no Brasil na ocasião de seu lançamento não soa pedante (Superman – O Filme). O segundo marcou tanto que teve sua premissa repetida no início do Universo Cinematográfico da DC Comics nesta década e tem um dos melhores vilões de filmes baseados em quadrinhos (“Ajoelhe-se perante ZOD!!”).

Alcoolismo também pode ser considerado um vilão.

Mas eu acho injusto que a atuação de Reeve no terceiro filme da franquia seja solenemente ignorada pela grande maioria. Uma das sequências mais marcantes de Reeve interpretando o personagem está ali, quando um Homem de Aço egoísta e mesquinho – agindo como um deus greco-romano que brinca com os seres humanos para quebrar o tédio – se confronta com Clark Kent, o caipira de bom coração e cheio de ideais. Uma batalha entre o Dr. Jeckyl e o Mr. Hyde. É curioso e revelador como esse Superman que vai se deixando corromper pelo poder nos remete (tanto em vestes como em fisionomia) à versão do personagem interpretada pelo Henry Cavil, que o diretor Zack Snyder nos apresenta em “Homem de Aço”, e a assustadora versão dele que vemos na genial HQ “Imperdoável”, de Mark Waid e Peter Krause.

Mas Superman III sempre será relegado a listagens de piores filmes de super-heróis de todos os tempos devido a visão mais que equivocada de seus produtores (Alexandre e Ilya Salkind) e de seu diretor (Richard Lester), que acharam que seria uma boa ideia trazer um comediante para ser um dos protagonistas do filme.

“Puxa meu dedo”

Antes de prosseguir, acho melhor deixar uma coisa clara: eu adoro Richard Pryor, um dos maiores comediantes de todos os tempos. “Só porque você quer!”, dirão alguns. Mas os fatos falam por mim. Jerry Seinfeld o chama de “Pablo Picasso dos comediantes”. Fez mais de cinquenta filmes e era um dos artistas mais bem-sucedidos nos anos 70.  O Comedy Central e a revista Rolling Stone o coloca no topo da lista dos maiores representantes do Stand-up Comedy que já existiram. Ainda assim acho que sua escolha para participar de Superman foi um erro.

Os dois primeiros filmes da franquia foram sucessos absolutos devido ao trabalho e as ideias do diretor Richard Donner, que brigava todo o tempo para que o filme apresentasse a sua visão do herói. Muito do humor que havia no roteiro original de David e Leslie Newman foi jogado no lixo por Donner, que não queria que os filmes apresentassem uma versão camp do personagem, como na série de TV do Batman. Há várias versões para o que fez Donner pular do barco (ou ser jogado dele). Mas era óbvio que o clima entre as partes não era fácil. Donner só é creditado como diretor do primeiro filme, mas o segundo estava quase todo filmado quando ele saiu da jogada. Mas Richard Lester, escolhido para completar a tarefa, decidiu acrescentar cenas não previstas e refilmar boa parte da produção para poder aparecer como diretor do filme.

“Eu só queria um Joss Whedon…”

Sem Donner por perto, os produtores e os roteiristas poderiam fazer o filme que queriam e assim provar que os filmes anteriores teriam sido sucesso ainda maiores se fosse do jeito deles. E de onde surgiu a ideia de colocar Richard Pryor nessa receita? Como eu disse, o cara era um sucesso e havia elogiado Superman II quando entrevistado no Tonight Show, o popular programa de Johnny Carson. Os Salkinds ficaram tão entusiasmados com a entrevista que decidiram chama-lo para o terceiro filme. Achavam que a simples presença de Pryor atrairia um público ainda maior para o longa-metragem. “Tudo bem…”, dirão alguns. “Mas… precisava dar TODO o destaque que ele teve no filme??”. Bom, Pryor podia ser um excelente comediante, mas de humildade ele não entendia nada – ainda mais quando estava por cima da carne seca. Duvido que ele fizesse por menos.

Agora, o filme não é o lixo tóxico que tantos apregoam. Na verdade, há dois graves problemas ali: o maior deles está no fato que de que não era o que os fãs da franquia esperavam e estavam acostumados a ver. O destaque dado a um comediante num filme que deveria ter o foco num super-herói sério e tradicional nos faz lembrar de outro fracasso semelhante dos cinemas: “Batman Eternamente’, com Jim Carey no papel do Charada. Mas Carey não chegou perto do extremo alcançado por Pryor que tinha um destaque absurdo no cartaz de Superman III. Ser carregado no colo por aquele que deveria ser o protagonista do filme? No mínimo, uma verdadeira falta de noção. E tem gente que achou que o destaque do Homem de Ferro no filme do Homem Aranha foi demais…

MIM BIZARRO CAVILL

O outro problema é que Superman III na verdade são duas histórias, dois filmes mal amarrados. Em um deles (o melhor) vemos o Superman que conhecemos, em uma busca quase obsessiva para resgatar seu passado na pequena Smallville, em que tudo era mais simples, mais puro. Quando ele era apenas o jovem Clark Kent, apaixonado pela Rainha do Baile da escola. Quando o Superman não existia. Muito acharão que esse saudosismo ultrapassado representa uma fuga da realidade e da responsabilidade. Não é caso. Cada vez que requisitavam a presença do Superman para evitar catástrofes e ajudar os que dele necessitavam, ele estava lá. Mas seus deveres não o afastavam de sua busca.

O segundo filme é estrelado por Gus Gorman (Richard Pryor), um desempregado que descobre por acaso ter um talento nato para o processamento de dados e aplica um golpe para se tornar milionário. Mas sua falcatrua é descoberta e ele se vê obrigado a participar de um golpe maior – BEM maior. É um filme que tem boas gags, um bom uso do talento para improviso de Pryor, mas tem apelações de roteiro intragáveis e nada tem a ver com o que o público queria ver.

“Você sangra?”

E, bom, tem a sequência do confronto final, onde os dois filmes finalmente se encontram. É realmente patético. Ainda mais quando se sabe que, antes da presença de Pryor, na proposta original do roteiro de David e Leslie Newman, teríamos Brainac e Mr. Mxyzptlk: dois vilões que continuam inéditos no cinema.

Resta os suspiros do que o filme poderia ter sido e a atuação de Christopher Reeve, que dá veracidade ao lado negro de um personagem que sempre foi a encarnação do bem. E deixe de lado este preconceito com o Richard Pryor. Veja “O Expresso de Chicago”, “Loucos de Dar Nó”, “Nos Palcos da Vida” e o clássico “Banzé no Oeste”, que ele escreveu com Mel Brooks. Não guarde rancor!

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