Na medida em que ia escrevendo este texto, fiquei empacado em uma pergunta fundamental: o que faz uma continuação cinematográfica ser boa? A resposta mais típica de Hollywood nós já conhecemos, colocar mais dinheiro. De fato, nos anos 80, temos vários exemplos de filmes que são meras repetições do anterior com mais efeitos especiais ou cenas de ação. Isso quando a sequência não desconsiderava totalmente o original, risco que parecia aumentar exponencialmente se fosse estrelada pelo Stallone.

Dona Zoraide, traga uma cópia do script de Caça-Fantasmas e um monte de dinheiro pra eu jogar nela, por favor!

Acabei chegando a conclusão de que há dois aspectos a serem considerados aí. Em primeiro lugar, será que, sozinha, a continuação é um bom filme? Em segundo, será que ela se encaixa bem na história geral que o conjunto de longas quer contar? Desse modo, ao responder essa pergunta, é possível que se tenha um filme bom que é uma sequência ruim e vice versa. E é por isso que hoje eu me encontro na ingrata tarefa de defender O Exterminador do Futuro: Gênese!

Na franquia O Exterminador do Futuro, temos de tudo. Do primeiro para o segundo, a pegada mudou um pouco, ainda que ambos sejam ficção científica, o primeiro usa muitos elementos do terror, enquanto o segundo se escora mais na ação, mas isso se deve mais a como os personagens evoluíram, contando que os protagonistas passaram de um casal em fuga para um adolescente que tem que humanizar a máquina de matar que o protege.

A partir daí, a série amargou episódios mais fracos. O Exterminador do Futuro 3 – A Revolução das Máquinas é praticamente um plágio do segundo. Em um caminho oposto, Exterminador do Futuro – A Salvação tenta ser mais original e sair da lógica dos personagens em fuga e focar na guerra entre humanos e robôs no pós Dia do Julgamento, mas não agradou provavelmente por se afastar demais da premissa inicial.

Nesse sentido, Gênese já começa de maneira muito mais promissora, respeitando a correria que fez a série famosa e ao mesmo tempo buscando dar algo novo ao espectador. Para isso, resolveram usar a mesma fórmula de Star Trek (2009) e fazer um reboot sem desprezar os filmes originais como cânone, como meio de apresentar o que acontece com Sarah (Emilia Clarke) e John Connor (Jason Clarke) no pré Dia do Julgamento.

A galera da pesada que a gente conhece há mais de 30 anos, mas com pequenas diferenças.

Partindo da necessidade de se reinventar a história, foi uma bela sacada que faz todo o sentido com o espírito da série, afinal, viagens no tempo estão no cerne o filme original. A partir do segundo, foi introduzida a ideia de mudar o passado para alterar o futuro, então era lógico que se pudesse mexer um pouco nos acontecimentos, criando assim múltiplas linhas do tempo nas quais o espectador ainda pode ser surpreendido. Mais do que isso, ele abraça uma premissa muito mais lógica do que o que vinha sendo apresentada até aqui: afinal, se as máquinas mandaram o T-800 (sempre o Arnold Schwarzenegger) para matar Sarah, mas Kyle Reese (Jai Courtney) o impediu, por que não mandar outra pra matar o sujeito? Por que desistir depois de uma tentativa e não mandar um monte de Exterminadores a vários períodos de tempo diferentes tentar matá-la novamente? Mas vamos por partes.

De maneira bem acertada, a trama começa explorando nossa familiaridade com a franquia, reconstruindo tanto fatos até aqui apenas narrados sobre o que acontece no futuro quanto, frame a a frame, aqueles que foram mostrados no primeiro filme. Os eventos, no entanto, vão se desenrolando com algumas diferenças curiosas, como o fato de que um T-800 de meia idade aparece para liquidar o T-800 jovem do primeiro filme, que há diferentes versões de Exterminadores atacando Kyle, e que Sarah Connor aparece para salvá-lo. A familiaridade é quebrada no que parecia ser um caminho excitante para ser tomado pela história.

A humanidade começou a ganhar a guerra quando passaram a suspeitar de todos os sujeitos altos, musculosos, com sotaque austríaco e com a cara do Schwarzenegger.

É explicado que a Skynet tentou assassinar Sarah ainda criança, mas acabaram apenas matando seus pais e ela é criada pelo T-800 que foi enviado para protegê-la. Nessa linha do tempo, ela já foi treinada desde então pelo Exterminador (a quem chama de Pops) e por este motivo chega para proteger Kyle, ele próprio transformado em um alvo das máquinas. A relação entre Sarah e Pops é consolidada como pai e filha, com diálogos pitorescos como quando ele ressalta a necessidade de que ela se “acasale” com Kyle e alguns momentos que só o carisma do Arnoldão podem trazer.

Já acasalaram?

Mas é aí que o diretor Alan Taylor e os roteiristas Laeta Kalogridis e Patrick Lussier se empolgam demais.

Em primeiro lugar, pela primeira vez, foi dado um rosto à Skynet (o Matt Smith, o 11º Doutor), quando desde o primeiro filme a impessoalidade das máquinas funcionava bem de várias maneiras dentro da trama. Em segundo lugar, depois da cena presenciada por Kyle em que o personagem de Matt ataca o John Connor do futuro, ele consegue alterá-lo em nível molecular, o que faz uma lavagem cerebral no líder da rebelião, e o faz trocar de lado. Transformar o maior herói da franquia em um Exterminador foi um passo ousado e uma bela invertida de expectativas, que lembra a mudança de lado do T-800 na segunda parte. Mas acho que pesou a mão.

Kyle, tem um sonho recorrente que na verdade são lembranças de uma linha do tempo diferente, que será importante para o futuro. Sim, porque eles constroem uma máquina do tempo em 1984 para ir para 2015, quando o novo plano da Skynet era entrar online por meio da internet com dispositivos móveis. Se você não está entendendo nada da trama, talvez esteja captando meu argumento aqui, que é a principal falha na minha opinião. Um filme que mexe com continuidade temporal deve ser levado com cuidado para não ficar confuso, mas muitos elementos desnecessários acabam entrando e construindo essa salada toda. A película termina com Kyle vivo junto a Sarah tentando lidar com o fato de que terão um filho que vai ser a esperança da humanidade, só para depois virar seu algoz.

A sensação que fica é de que o grande pecado do filme é se empolgar demais com uma ideia que inicialmente era muito boa. É bem provável que, se fosse bem-sucedido, tivesse originado continuações em que o casal conseguiria de algum modo salvar John, mas com uma bilheteria fraca e uma nota de 26% no Rotten Tomatoes, esse filme também não vai gerar continuações diretas e vai ficar tudo do jeito que está mesmo. Dentro da minha proposta de análise inicial, dá pra dizer que é uma boa sequência, embora não seja um bom filme.

De fato, assim como os impostos e a morte, uma das certezas da vida é que vem aí mais uma continuação de O Exterminador do Futuro. Desta vez, além do Schwarzenegger, o filme contará novamente com o envolvimento de James Cameron e Linda Hamilton, ausentes desde o terceiro filme, e deve ser uma continuação direta da segunda parte. Eles acreditam que voltando ao passado conseguirão anular o histórico de continuações ruins. O futuro fará seu julgamento final.