Caixa Preta é a seção onde a equipe do HqCafé posta suas conversas no grupo do site, frequentemente servindo de complemento às próprias matérias. Na Caixa de hoje, conversamos sobre Joss Whedon e o futuro filme da Batgirl, o fetiche da Warner por filmes do Homem-Morcego, e o choque (nem sempre positivo) entre o realismo e os quadrinhos de Super-Heróis. Foto de destaque de Rafael Albuquerque.

Raul:

Hobbit: Olha aí seu José Whedon. Notícia animadora, se a Warner Bros não ficar metendo a colher no trabalho do cara.

Ochôa: ó, ó. Ainda mais que ele tá com raivinha no cu represada pela Marvel

Raul: Mas olha só: Batman v Superman, Esquadrão Suicida, Liga da Justiça, Sereias de Gotham e agora a Batselfie… (apelido carinhoso dado por Raul à versão teen Batgirl dos Novos 52. Raul é um verdadeiro ) 

Tudo gira em torno do morcego

Juliano: Esqueceu do Asa Noturna

Raul: Peço perdão pelo vacilo

Juliano: é uma maldição para o Dick ter sido o primeiro Robin. Ninguém lembra dele

Raul: eu tento esquecer… mas deviam rebatizar o FUDC pra Batverse logo.

Nota do Editor: após essa conversa, surgiu um rumor que a WB estaria planejando SEIS filmes do universo do Cavaleiro das Trevas em 2019, em comemoração aos 80 anos do Homem-Morcego. Além dos quatro mencionados, haveria ainda duas animações, incluindo uma adaptação da graphic novel “O Longo Dia das Bruxas”.

Outro boato recente é que o longa do Capitão Marvel, previsto para 2019, deve ser cancelado. Adão Negro, interpretado por Dwayne Johnson, seria transferido para ser o vilão de uma sequência do Homem de Aço.

Juliano: (em um aparente surto psicótico) O mundo deveria ser rebatizado assim!

O Universo!

A Vida!

Hobbit: mas convenhamos, isso é uma  

Raul: Sim. Pra um universo com Superman, Lanterna e Flash, é um absurdo.

Hobbit: Pois é, é meio que um atestado de incompetência da WB/DC

Juliano: É um atestado que eles sabem o que é bom e o que o mundo, Batmundo, quer.

Raul: bom, de certa forma…

Hobbit: “não sabemos fazer bons filmes, então vamos meter o logo do Batman em tudo e tentar vender o máximo de hominhos possível”

Ochôa: com certeza. 80 anos de história de DC. Um acervo fodido de possibilidades e histórias, e tudo se resume a:

“toca o Bátima aí”

Juliano: O mundo, Batmumdo, é lindo!

Hobbit: (ignorando o surto do amiguinho) cada vez mais aquela frase: “a maioria dos espectadores nem fala inglês mesmo” parece verídica

Ochôa: É o supra-sumo do não saber fazer

Hobbit: Olha só, a Marvel/Disney pega e diz: “que tal fazermos um filme daquele homem de lata? Iron Man né?”

“Nossa Iron Man deu certo? E se a gente fizesse um filme com esse GUAXINIM de trabuco?”

As improváveis estrelas do MCU

Ochôa: filme do Homem-Formiga. Fucking HOMEM-FORMIGA… tinha colega meu de serviço perguntando o que ele deveria ler do Doutor Estranho, já que “vinha filme aí e ele queria conhecer alguma coisa antes”

(foi difícil recomendar) “Olha, tem um filme de 1978…”

(Nota do Editor: mas se você realmente quer algumas dicas, amiguinho, pode dar uma olhada nesse outro post nosso)

Hobbit: hahaha… aí vem a Fox (meio sem querer, diga-se de passagem) e faz um filme do DEADPOOL

Obra-prima de Rob Liefield

Se você não me quis quando era desse jeito, não procure agora que estou assim!

Ochôa: pois é… eu nunca achei que ia dizer que acho um filme do Deadpool fantástico

fora o Deadpool do Raul, acho o personagem uma excrescência

como boa parte da vida e obra liefieldiana

(Nem todos sabem, mas nosso colaborador Raul é um conhecido autor de fanfics de super-heróis, incluindo Deadpool. Infelizmente, um crash no servidor do Quadrim resultou na perda de todo esse premiado material. Assim como a Biblioteca de Alexandria, é uma grande perda para a humanidade.)

Raul: 

Ochôa: depois desse sticker, nem o Deadpool do Raul…

Juliano: também estou assustado

Raul: Deadpool tem DUAS revistas mensais mais o especial que acho que é trimestral

Acho que só o Batman conseguiu isso no Brasil

Ochôa: e o Aquaman

Primeiro personagem da DC a ganhar revista solo no Brasil

Depois de Batman e Superman

Durmam com essa, decenautas

Juliano: Se não me engano teve no Brasil antes de ter nos EUA

Ochôa: eu acho que sim…

Nota do Editor: errado, Juliano e Ochôa! Aquaman #1 foi lançado nos EUA em fevereiro de 1962. Já Aquaman nº1 só saiu no Brasil em abril de 1969, pela editora Ebal. Para saber mais sobre as origens do personagem, leia nosso post.

Gonzalez: [Atualização] Segundo a EW, o longa será sobre a Barbara Gordon, com a versão da personagem dos Novos 52. [Fim da atualização]

Raul: Bom… Não é nenhuma surpresa. Batselfie está antenada com a galerinha do Instagram e Snapchat. E Whedon tem muitos fãs adolescentes de 40 anos por causa da Buffy. Melhor escolha possível pra um filme da Batselfie

Hobbit: Ah, essa tem sido a tônica da Warner no cinema, seguir mais ou menos os Novos 52. Até por identidade visual e temática das marcas em todas as diferentes mídias.

Raul: Sim. É o Ultimate da DC

Hobbit: Só que o Ultimate na fase do Loeb

O divertido Universo Ultimate segundo a visão de Jeph Loeb

Ochôa: e mais notícias sobre Batgirl:

uma, que confirmaram o envolvimento do Josuédon, oficialmente agora

outra que vai considerar A Piada Mortal

ou seja, a história aconteceu no SNYDERVERSO

o desenhista Caio Oliveira nos lembrando da dura realidade da Warner Bros…

Ochôa: e o filme se passa muito depois disso, com ela já recuperada do trauma

Hobbit: Vai ter que ser atriz mais velha então?

Ochôa: não sei, só o que tem de informação é isso. Já foge um pouco do tom que eu achei que o filme ia ter, achei que ia ser aquela Batgirl para jovens menininhas selfie

Dias depois, surgiram rumores em blogs de cinema que a atriz Lindsey Morgan (da série The 100) seria uma das cotadas para viver Barbara Gordon nas telonas. Lindsey tem 27 anos.

Raul: Vai ser. O gibi do N52 tb considera A Piada Mortal. E é geração Snapchat

Ochôa: mas encaixar um background desses é meio destoante

Raul: Totalmente. Mesmo no ELOGIADISSIMO gibi, só levaram esse assunto a sério no começo.

Mas o Whedon não vai entrar nessa pra ser pau mandado. Ele já teve essa experiência.

O Josueldon

Se bem que ateeeee começarem as filmagens, ateeee aparecerem informações mais concretas, tem muito chão ainda.

E muita gente vai publicar especulação como se fosse notícia vazada

Fanfic como se fosse spoiler

Ochôa: sim

Até porque embora pouco divulgado, a saída dele da Marvel foi amarga, e foi o mesmo problema

ele querendo fazer A

estúdio metia o dedo verticalmente e dizia B

daí ele entrar nessa canoa de novo…

mas ele está há tempos querendo fazer o grande filme de super-heroína

Ochôa: ficou anos batendo na tecla de um filme da Viúva Negra

tentou levantar o da Mulher-Maravilha (Whedon chegou a escrever um roteiro em 2006 para o filme da amazona, você pode conferir ele aqui)

Raul: Como eu quero acreditar que até um relógio parado está certo duas vezes por dia, tenho fé que esse chamar o Whedon foi o primeiro acerto da Warner

Ochôa: Sim. Nisso concordo plenamente

Raul: E o segundo acerto será o tratamento irmãos Russo: dar a ele um projeto maior em seguida

Ochôa: agora é deixar o homem trabalhar

Raul: Depois de um Batgirl ele pega um Liga 2 ou Novos Deuses… sonhar não custa nada.

E quando alguém que NAO GOSTA do Josueldon diz isso, é porque o desespero é grande

Juliano: Não gosta da Buffy?

Foto de reunião do elenco de “Buffy”, juntamente com Joss Whedon, no aniversário de 20 anos da série.

Nota do Editor: Buffy The Vampire Slayer, série lançada em 1997 pela Warner Bros e produzida por Joss Whedon, teve sete temporadas, sendo cancelada em 2003. A série teve um spin-off, Angel (que durou cinco temporadas), e uma “oitava temporada” em quadrinhos com 40 edições, publicada pela Dark Horse. A franquia pode ser considerada uma “ancestral” das recentes séries de super-heróis na TV, tanto na temática, quanto na dinâmica entre personagens e duração das temporadas (Smallville foi criada justamente para cobrir a saída de Buffy da grade da Warner).

Ochôa: nunca vi. Tem amigo meu que ama de paixão

Gonzalez: Eu gosto dele, principalmente por causa de Buffy

Raul: Não. Acho o humor muito ruim, o elenco péssimo (exceto a protagonista e o Angel) e as ideias OUZADAS dele (morte, ressurreição, lesbianismo) não impressionam nem um pouco.

Não gosto dos filmes dos Vingadores

mas APENAS ACEITO que ele pode salvar o FUDC, por ser a antítese do Snyder. Só de ele não colocar o ego à frente dos personagens, já merece a chance

Gonzalez: Eu concordo com -(tudo) (acho que ele quis dizer nada, mas quem sabe?)

Juliano: o batepapo do MdM sobre o Josueldon em Batgirl está bem interessante

Eles abordam isso. Ele sabe trabalhar com personagens femininas

Ochôa: eu gosto pacas do primeiro Vingadores, mas não é um filme à prova de tempo. a sensatez manda eu não rever muito

Juliano: olha, hoje, sem o aspecto da novidade, já parece bem menor… mas vi esse fim de semana com a Carol, ela gostou. E eu continuo gostando bastante.

Hobbit: uma coisa do Whedon é que ele é um roteirista e diretor com uma assinatura bem marcante. Ou seja, se vc curte as gags, clichês, trejeitos, soluções de roteiro e plot twists que ele costuma usar, vc vai adorar oq ele produz

Pq eles tão sempre lá

Se não te agrada, esquece

Pq, novamente, vai tá sempre lá

Buffy, Angel, Serenity/Firefly, Avengers 1 e 2

Mesmo Marvel´s Agents of Shield no começo tem a mão dele

Gonzalez: Sim, tudo tem bem a cara dele. Eu gosto do humor e dos diálogos rápidos. As ideias eram bem ousadas na época que foram feitas.

Na época, acompanhava só 2 séries: Buffy e Aquivo-X. Até pq tinha que estar lá no horário que elas estavam passando

Raul: Serenity/Firefly não vi

Hobbit: Se vc viu as outras, vc viu indiretamente. É por isso que ele tem uma legião bem aguerrida de fãs. E uma galera que torce bastante o nariz (tipo o Raul)

Ochôa: eu só sou tretado com uma coisa muito pontual dele: a questão do Xavier com a Sala de Perigo…

Michael Cane. Foto: Joe Pugliese (Hollywood Reporter)Michael Caine Explica
Joss Whedon foi o roteirista de "Astonishing X-Men" vol.3 #1 a #24 (2005-8), desenhada por John Cassaday. A série, que buscou retomar o espírito do run de Chris Claremont & Byrne, recebeu o Prêmio Eisner de Melhor Série Regular em 2006. Em seu segundo arco, "Dangerous", Whedon revela que a Sala de Perigo adquiriu consciência no início das aventuras do grupo, mas foi "lobotomizada" por anos pelo Professor X para servir de treinamento para seus alunos.

Nada bonito para o líder da Causa Mutante.

Eu acho uma quebra foda de personagem, para encaixar em roteirismo

Hobbit: Ah, sim… Eu acho que é uma ideia ousada

Ochôa: nível “na verdade Bruce Wayne pagou para matar os pais dele, RÁÁÁ PLOT TWIST NA SUA CARA”

Mas é idiota. É que nem a ideia acima. quebra completamente o personagem

Hobbit: Não acho idiota. Só acho que é daquelas que não tem volta

Ou não deveria ter

Ochôa: cara, dado o que é o personagem, as coisas que ele defende,

o que temos como cânone dele

não dá pro cara manter uma forma de vida cativa por 20 anos

porque “os fins justificam os meios”

É idiota, o cara não faria isso

ou ao menos não daquela maneira

“mimimi vou fingir que não estou te ouvindo”

Raul: Kitty Pryde was right

Hobbit: Eu acho que teria ficado melhor se fosse uma displicência dele. Algo como “eu deveria ter percebido!”

ou

“Será que eu não percebi de propósito?”

Seria mais sutil e teria o mesmo efeito

Ochôa: é algo parecido com a sugestão do Dick, aquele viadinho, no Crise de Identidade: Superman sabia das lavagens cerebrais o tempo todo

e FICOU QUIETO

entendo o ponto de querer ressaltar a moralidade ambígua. Mas de novo, quebra o personagem

Histórias que desafiam o conceito original de seus protagonistas.

Hobbit: Cara, eu acho as duas história ótimas. O problema é elas transitarem dentro da cronologia

Assim como A Piada Mortal

Que não é uma “quebra” do personagem, é de se imaginar que o Coringa poderia chegar até aquele ponto em algum momento

Mas como explicar que o Batman continua brincando de gato e rato com ele depois do que aconteceu?

Ochôa: e logo depois tem Melhores do Mundo (não o blog, mas a minissérie em quadrinhos desenhada e escrita por Dave Gibbons, que foi publicada em 1992, quatro anos após “A Piada Mortal”)

onde está o Coringa dando tapa na careca do Luthor

tudo de boa

“ah, passou”

Hobbit: Cara

Ochôa: DUDE

Hobbit: Tem uma cena do MdM em que o Coringa fica meio que dançando na frente do Batman

ou do Super, sei lá

Com uma justificativa do tipo: “ah, eu tenho essa escritura da casa que to armando meu plano, então vc não pode por a mão em mim, hahaha”

E o Batman fica lá olhando…

“É, vc tem razão”

Torta na cara do Super, e o Super fica olhando

Depois mostra a Bárbara de cadeira de rodas numa festinha, e o Gordon comentando entre uma dose de uísque e outra

“puxa, esse Coringa dá trabalho, não é mesmo? Haha”

Novamente, as duas histórias (Piada Mortal e Melhores do Mundo) são fantásticas, mas é impossível um mundo em que as duas coexistissem.

O Coringa em “A Piada Mortal” e “Melhores do Mundo”

Pelo menos eu acho que o Josuel pode ser um bom diretor pra filmar um filme da Batgirl que seja leve, e ao mesmo tempo aproveite uma versão “light” da Piada Mortal

Raul: Exatamente o que penso

E outra

Não precisa ficar punhetando A Piada Mortal até esporrar sangue e lava

Fala que pegou de raspão o tiro e nem rolou foto

Ochôa: ou até sugere. Não precisa entrar em detalhes. Só deixa no ar que algo muito ruim aconteceu com ela. A história é famosa mesmo

Raul: Pronto. Resolve na hora.

Hobbit: Cara, nem isso eu faria. Na verdade eu faria o tiro pegando em cheio mesmo, mas sem a violência sexual das fotos nuas

A não ser se fosse pra botar uma versão Rated pesadona. Que definitivamente não combina com o Josue

A Capa cancelada de Rafael Albuquerque: as dificuldades de conciliar a Batselfie com A Piada Mortal.

Ochôa: sabe que hoje em dia o próprio Moore renega isso? Ele disse uma vez que…

Hobbit: Mas muitas das marcas do trabalho dele estão lá né?

A violência crua, a insinuação sexual, personalidades desviantes

Até a narrativa e o método de divisão de quadros, bem parecido com Watchmen

Ochôa: ele está mimizando. É um exemplo excepcional de escrita. A única coisa que eu questionaria é se é o veículo adequado para isso

Hobbit: HQs?

Ochôa: by God, no! Quadrinhos de hominhos fantasiados de colante

Hobbit: Ah, sim… mas essa era meio que a proposta dele né? Quando ele se aposentou ele disse isso. Ele queria pegar uma área de cultura underground pouco desenvolvida e revolucionar lá

Ochôa: Ele declarou várias vezes ter sido atraído pelos quadrinhos, porque lá ele poderia ser o Herman Mellville. Era uma mídia que não tinha o seu Moby Dick

tem um pouco de falácia aí

(ou um muito)

Eisner, Kurtzman, Kirby, Pratt etc…

o que ele fez foi achar um nicho de mercado: gibi de hominho de colante musculoso

e de fato, fazer algo que nunca fizaram antes: contrastar aquele mundo de fantasia com a realidade.

gerou grandes histórias, mas também se revelou um tumor mortal pro gênero

não graças ao Moore, ele foi só o isótopo

mas graças à horda de imitadores

Hobbit: mas isso me parece que é aquela síndrome de reclamar de uma obra por suas cópias mais baratas

Oq o próprio Moore critica, que depois dele todo mundo anda fazendo cópias baratas do material dele. Oq eu acho que é um baita exagero, mas entendo o argumento central

Ochôa: o Moore deixa as picuinhas pessoais dele interferirem nisso aí

mas de novo

Love & Rockets, Calvin e Haroldo, Concreto, American Flagg, etc

vir dizer que é um gênero sem Moby Dick é altamente tendencioso ou arrogante

não que ele não seja foda, but…

de qualquer maneira, no mundo dos colantes, a gente meio que cai naquilo que estávamos comentando antes. Sempre quando tu aproxima demais as coisas da realidade, tu neutraliza o gênero, por um motivo que até uma criança de 5 anos sabe: heróis não teriam espaço no mundo real

ou ao menos, não da maneira que eles usualmente funcionam

gente como Kurt Busiek e Mark Waid, que pessoalmente considero os autores supremos de super-heróis, eles entendem que eles tem que ser EMOCIONALMENTE reais

mas ainda estar inseridos naquele mundinho de faz de conta, consideravelmente mais simples que o nosso

Bruce Timm e Dini também lidaram com isso que é uma beleza nas animações deles

Hobbit: Sim, entendo. É uma realidade com regras próprias. Não me jogue pedra, Ochôa

Ochôa: não estou jogando. Só estou fazendo mansplanning

Hobbit: Não, pelo que vou falar agora.

Deixando de lado todo o hermetismo do Morrison. É o que ele defende: as histórias de Super-Heróis se passam em uma realidade diferente, com regras próprias. Onde heróis vivem centenas de anos tendo as mesmas aventuras. Onde ninguém reconhece o Super-Homem quando ele usa óculos.

Ochôa: ISSO. Eu concordo com ele nesse ponto. Inclusive quando falei da criança de 5 anos, a frase é dele.

Gonzalez: Um dia ouvi uma expressão sobre isso que achei bastante eloquente: o que as pessoas querem ver são pessoas reais inseridos em uma realidade fantástica

Ochôa: cara, um exemplo disso é na própria série cagada do Punho de Ferro. Um momento que eu acho muito legal é quando o Ward ressuscita e sai completamente bobo apenas pelo fato de estar vivo e finalmente andando em uma rua.

É isso que o Gonza falou. É real, é compreensível

mas num contexto fantástico

uma vez que – óbvio – com exceção do Keith Richards, ninguém ressuscita

Hobbit: mas isso cai mais no Realismo Fantástico. Que até acho que é um caminho válido tb.

Mas tem histórias em quadrinhos que vão além disso. Os próprios heróis no são “reais” em alguns casos. O Superman do All-Star, o Batman da Liga

São seres míticos, não são humanos inseridos num universo fantástico

Gonzalez: Mas têm que agir como uma pessoa normal agiria naquelas circunstâncias…

É difícil explicar

Hobbit: então, nem sempre. O Morrison faz isso bem no Multiversity

Uma das edições se passa no Universo do Capitão Marvel (The Multiversity: Thunderworld #1 – 2014)

E não tem como aquele moleque agir como uma pessoa normal

Pq é um universo colorido, onde o Bem sempre vence o Mal, o herói sempre faz a escolha certa, etc

Em outra, eles visitam um universo em que os heróis são celebridades de reality show

E aí sim, agem como os mais perfeitos babacas

O universo impossivelmente colorido de Thunderworld em “Multiversity”

Ochôa: o Morrison é um cara que entende muito bem essa mecânica

bom, Moore também, quando quer

vide Tom Strong, Superman, Supreme etc

Hobbit: Mas acho que há espaço para esses diferentes tipos de história não?

Ochôa: cara, o que importa é o que funcione

ponto

não existem regras absolutas em criação. Cada uma que for citada, você sempre consegue catar um exemplo que quebra ela

BUT

existem caminhos mais fáceis

é mais fácil eu fazer uma boa história do Batman contra uma gangue infantil por exemplo, do que, sei lá, Batman contra o estupro infantil, que é um tema que afastaria 92% dos leitores

não que não possa ser uma boa história, mas é um caminho MUITO mais difícil para trilhar

entende?

Hobbit: mas de vez qdo saem jóias, não?

Ochôa: sim, exatamente. O que vale é o que funciona no fim das contas. É o próprio caso da Piada Mortal. Ou aquela história do Quarteto, que eu adoro, do Tocha Humana e do menino queimado.

Nota do Editor: Ochôa refere-se à história “Hero”, publicada em Fantastic Four vol.1 #285 (1985), escrita e desenhada pelo mestre John Byrne. Nela, o jovem (e ingênuo) Thomas Hanson decide colocar fogo em si mesmo para imitar seu maior ídolo, o Tocha Humana. O trágico evento quase leva Johnny Storm a abandonar sua carreira heroica.

Uma fase muito boa do Aranha. Que ninguém deu a menor bola, foi a do Paul Jenkins

tem umas pérolas ótimas ali

uma, particularmente (“Heroe´s don´t Cry”, publicada em “Peter Parker: Spider-Man” vol.2 #35 – 1999, escrita por Paul Jenkins e desenhada por Mark Buckingham)

é a história de um menino negro, vizinhança fodida, mãe viciada em crack

tudo desgraçado

e ele só se evadia com o Homem-Aranha, que de vez em quando conversava com ele na escola.

No fim a mãe dele tem uma overdose, e ele vai morar com os tios

e o Homem-Aranha vai se despedir dele em casa e diz:

“Olha, agora você vai ter que cuidar dela. Sabe que eu não vou poder aparecer tanto assim”

e dá um abraço de despedida nele, enquanto tira a máscara

e se revela que ele também é negro

Hobbit: What?

Ochôa: óbvio, tudo fruto da imaginação dele

Hobbit: O Spider?

Ochôa: Sim. No momento final você descobre que o Aranha é o amigo imaginário dele

Hobbit: Pô, Ochôa! Spoiler! Estragou a história!

Ochôa: cara, assim pra não derramar lágrima, só sendo o Juliano

trata de temas, digamos, mais maduros

mas sem estragar a inocência daquele universo

Raul: EITA, PORRA!

AMANHÃ É PRIMEIRO DE ABRIL!!!

QUEM ESCREVEU O TEXTO PEGADINHA DO AMÁLGAMA?!

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