Batman v Superman

Parece que hoje em dia, ou você tem que gostar muito ou odiar muito uma coisa para mostrar que tem opinião. Talvez a grande marca de nosso tempo seja o radicalismo. Ou você é o herói ou é o vilão. Noite ou dia. Preto ou azul. Mas e o que sobra no meio? Este é o tema central de um filme que, não por acaso, levanta as mesmas emoções extremas: Batman v Superman – A Origem da Justiça.

Quando o filme começa, nós temos três heróis com motivações muito distintas, mas vivendo um dilema muito parecido: por que continuar lutando? Bruce Wayne, marcado pelo assassinato dos pais, assumiu a identidade de Batman e decidiu levar a justiça àqueles que não a têm. Sua luta já dura vinte anos e ele está cansado e desgastado. Outro assassinato o marcou, dessa vez o de seu braço direito nessa jornada, o Robin, e o ceticismo sobre o que ele está realmente alcançando foi crescendo ao longo dos anos.

“Criminosos são como ervas-daninha, Alfred; você arranca uma, outra cresce no lugar”.

É nessa parte de sua vida que conhece o Superman. Com suas ações heroicas, não há meio-termo sobre o alienígena: muitos o amam e alguns, que o enxergam como uma ameaça tão grande quanto aquelas que combate, o odeiam. Batman compartilha desta preocupação, afinal a destruição de Metrópolis e os milhares de mortos (dezenas deles no prédio da Wayne Financeira) no primeiro filme jamais teriam acontecido se o azulão não existisse. E não vamos esquecer que ele podia ter sido mais cuidadoso, derrubar um prédio com a cabeça do seu adversário não é lá agir com muita prudência. Sem poder fazer nada, o Cavaleiro das Trevas vai ficando cada vez mais extremo em seus métodos, até mesmo marcando criminosos com seu logo para que sejam mortos na prisão.

“É assim que começa: a febre, a raiva, o sentimento de impotência que torna homens bons cruéis”.

Obviamente, o próprio Superman não está alheio a esta discussão. Em sua visão no Polo Norte, que parece ser algo misturado com uma lembrança, Jonathan Kent conta como salvar sua fazenda de uma enchente inundou a propriedade dos Lang, e como ele se viu indo de herói a vilão em algumas horas. Agir traz consequências. Clark faz o que pode para ajudar o mundo: salva vítimas de enchente, de prédios incendiados, de um foguete que explode na decolagem, mas as coisas nem sempre saem do jeito que ele quer. Quando ele salva Lois de terroristas na África, Luthor cuida que as repercussões desse ato sejam as piores possíveis para aqueles que ficaram e tiveram que conviver com elas. Por que continuar ajudando, então, se, apesar de sua luta, e muitas vezes por causa dela, tanta gente continua sendo prejudicada?

“Se Deus é onipotente, Ele não pode ser totalmente bom. Se ele é totalmente bom, não pode ser onipotente”.

Do mesmo modo, a Mulher Maravilha já chegou à conclusão que seu trabalho era infrutífero há cem anos. A razão provavelmente será explicada em seu filme solo, mas sua desilusão está bem clara.

“Cem anos atrás eu me afastei da humanidade, de um século de horrores… Os homens criaram um mundo onde ficar juntos é impossível”.

Então a mensagem desse filme sombrio, lúgubre, triste, obscuro, quase em preto e branco, é que não vale a pena ser um herói, não é? Que não há diferença entre heróis e vilões. Não, pelo contrário. Então o que faz ser um herói valer a pena? E o que os diferencia daqueles que só querem fazer o mal? A resposta está em uma palavrinha mágica, capaz de juntar até os brigões mais cheios de testosterona: Martha.

@#*&$! Só porque as mães dos personagens têm os mesmos nomes, eles de repente viraram amigos? Bom, é uma questão de interpretação, mas, da maneira que eu vejo, foi aí que o Bruce finalmente deu um passo atrás e se questionou, depois de anos, o que ele realmente estava fazendo ali. Seu objetivo não era salvar inocentes de sofrerem o mesmo destino que tiveram seus pais?

“Espere! Eu vou te fazer uma promessa: Martha não vai morrer esta noite”.

Sim, heróis são falhos, mas eles não são vilões. Estes só pensam em si e não se importam o que pode acontecer com os outros. O foco de Lex Luthor era poder, porque toda a sua inteligência não o salvou de um pai violento. Tudo o que ele quer é se certificar que ninguém no mundo seja capaz de vencê-lo. Ao contrário dos heróis, ele jamais se questiona, já que, na visão dele, não há jeito certo ou errado de conseguir seu objetivo.

“A dor agridoce entre os homens é ter conhecimento sem poder porque isso… isso é paradoxal…”

No fim, Batman percebe que a luta de um herói é, muitas vezes, enxugar gelo mesmo. Talvez seja impossível acertar sempre, porque mesmo os heróis erram, e, portanto, o autoquestionamento é parte essencial da jornada, mas o mais importante é sempre manter o foco e nunca desistir. São eles que trazem a esperança aos indefesos. E eles se sacrificam, abrem mão de tudo, até mesmo da vida, em prol dos outros. Como fez o Robin. E como fez o Superman.

Acho que nesse ponto do texto, eu deveria dizer se este é o melhor ou o pior filme de todos os tempos, afinal, esta é a internet e pra que se importar em escrever alguma coisa se eu não vou dizer o que as pessoas devem pensar? Mas, no momento em que eu ergui a minha lança de kryptonita, pude ver o Snyder falando pra mim “você está deixando ele matar a Martha”.

Vamos colocar em perspectiva aqui, pouco me importa se você gostou do filme ou não; eu não trabalho no marketing da Warner Bros. Então por que você deve ligar para o que eu acho? É , eu sei que eu disse que ia dar um veredito definitivo no título. Agora que eu já consegui o seu pageview, não há razão para não decepciona-lo com a conclusão mais óbvia: a internet já está intolerante demais pra se criar polêmica com um filme. De que serve todo esse questionamento sem foco e foco sem questionamento? Eu sei, é um filme importante. Afinal, é  o Batman! Saindo na porrada com o Superman! Mas dê um passo atrás e se questione o que você realmente está fazendo no cinema. O importante é se você se divertiu ou não, o resto é mimimi. Será que você não está deixando o Lex matar a Martha?