Ricardo tinha dado a missão de falar sobre o novo – vá lá – filme do cineverso DC, Esquadrão Suicida, para fazer parte da semana especial do site dedicada a este lançamento. Em tese, eu deveria falar sobre o papel de Will Smith no longa. Pra variar, o tópico ficou muito mais longo do que o esperado. Uma coisa sempre leva a outra.

 

O filme tem sido ostensivamente criticado na Internet. Embora eu concorde que exista uma certa má-vontade automática da crítica com filmes da Warner, – que parece estar fazendo força para virar uma espécie de Nicolas Cage do cinema – a verdade é que Esquadrão Suicida é um filme com poucos méritos e defeitos ululantes.

Um dos principais problemas é seu ritmo oscilante, com sequências que não casam ou sequer conversam entre si, atribuído principalmente – ainda que negado oficialmente – às discordâncias entre estúdio e diretor. Problema também ocorrido com Quarteto Fantástico de 2015.

Se em Quarteto Fantástico, Josh Trank colocou a boca no trombone e com um único tweet praticamente explodiu sua carreira, David Ayer, mais vacinado, abraçou o filho defeituoso de três braços e disse que o filme era “100% dele”, afinal, emprego anda difícil por aí.

Reparem na satisfeita expressão de David Ayer.

Reparem na satisfeita expressão de David Ayer.

Mas afinal, a quem pertence os filmes? No fim das contas, quem é o responsável pelo fracasso ou sucesso deles?

De maneira pragmática, seríamos forçados a dizer que pertencem ao produtor, afinal, é ele quem arrisca seu dinheiro, querendo, evidentemente, mais dinheiro em troca. Logo, ele faz o que achar melhor, se quiser colocar a Ana Maria Braga lendo a lista telefônica junto com Louro José por duas horas e meia, bem, ele pode fazer isso.

Já se você vai pagar ingresso pra ver, é outra história.

 

E de onde vem essa cizânia entre diretor x produtor?

Para isso, vamos voltar um pouco no tempo.

 

Desde suas origens até os anos 30, o cinema passou de curiosidade tecnológica a indústria, com filmes feitos em linhas de montagem. O diretor era um empregado como qualquer outro, podendo ser demitido a qualquer momento sem maiores explicações. Um exemplo disso é Victor Fleming, que em 1939, “dirigiu” dois dos maiores clássicos do cinema, … E o Vento Levou e O Mágico de Oz. Dirigiu entre aspas mesmo, porque o que houve foi que ambas as produções tiveram uma penca de diretores demitidos já que ninguém conseguia se entender com o produtor David O. Selznick, sobrando para o pobre Fleming, com uma paciência de Jó, abraçar o pepino, ficar de bico fechado e cabeça baixa e finalizar os filmes dentro do prazo.

Na prática, ele era apenas um feitor de obra, alguém para garantir que um filme estivesse pronto e montado dentro do orçamento até o dia da estreia e nada além disso.

 

...E o Vento Levou, uma das produções mais zoadas da história.

…E o Vento Levou, uma das produções mais zoadas da história.

 

Até mesmo diretores (posteriormente) consagrados, como John Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e Billy Wilder compartilhavam dessa mentalidade de operário. Eram peões da indústria, peças do quebra-cabeça, pessoas destinadas a fabricar filmes, como quem fabrica carros ou parafusos, nada de mais.

Na Europa, o cenário era um tanto diferente, ali filmes eram vistos como peças de arte e diretores como os responsáveis por essa visão artística. Esse conceito começou a se espalhar com mais força a partir dos anos 50, por meio da revista francesa Cahiers du Cinéma, com sua “teoria do autor”. Uma revista escrita por críticos apaixonados por cinema e futuros cineastas, como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e diversos outros. O que chamava a atenção na Cahiers era sua veneração pelo cinema americano, com entrevistas detalhadas com cineastas como Samuel Fuller, Nicholas Ray, Ford e Hitchcock. Embora não tenha mudado a mentalidade dessa geração (ou quase, afinal, é notória a influência deles em Hitchcok, que após estas entrevistas começou a se ver mais como autor e a experimentar mais, como em Os Pássaros, por exemplo), a Cahiers plantou sementes que iriam germinar na próxima geração.

 

Cahiers du Cinéma, uma revista que provava que cinema é sim coisa para assistir com monóculo e cachimbo.

Cahiers du Cinéma, uma revista que provava que cinema é sim coisa para assistir com monóculo e cachimbo.

 

Na década seguinte, durante a explosão do verão do amor e o auge da era hippie, os estúdios ainda eram geridos pelos mesmos executivos da década de 30, ou seja, enquanto nos drive-ins estavam casais mais interessados em transar e fumar maconha, os cinemas ainda exibiam comédias românticas água-com-açúcar com Rock Hudson e Doris Day ou caros épicos cafonas como A Queda do Império Romano. Impossível imaginar um descompasso maior entre público e produção. As vendas de ingresso despencavam ano a ano, o mundo estava mudando velozmente, conforme foi muito bem mostrado na série Mad Men, e os executivos não sabiam o que fazer. Estavam velhos e confortáveis demais para aprender as novas regras do jogo.

Em 1969, uma pequena e caótica produção, chamada Sem Destino, feita com um custo irrisório de 400 mil dólares, arrecadou mais de 41 milhões em todo o mundo.

Sem Destino tinha tudo que os executivos abominavam: uma história não definida, abuso de drogas, fotografia descuidada, nenhum nome conhecido no elenco… Mas seus resultados eram inegáveis. Tentando recuperar o tempo perdido, os estúdios assumiram que não entendiam mais o que estava acontecendo e davam um cheque em branco para literalmente qualquer um que fosse jovem, cabeludo e aparentasse (ou não) saber o que fazer.

O resultado, por mais surreal que pareça, foi a melhor fase do cinema americano.

 

Dennis Hooper em Sem Destino, mandando seu recado para a velha Hollywood.

Dennis Hopper em Sem Destino, mandando seu recado para a velha Hollywood.

A geração anos 70 foi a geração de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Peter Bogdanovich, de William Friedkin, Steven Spielberg e George Lucas, de Brian de Palma, Michael Cimino e Robert Altman, gente que despejou no mundo clássicos como O Poderoso Chefão, Taxi Driver, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Tubarão, Carrie – A Estranha, O Exorcista, Guerra nas Estrelas entre muitos, muitos outros.

Se houve algum período onde finalmente o diretor era quem mandava no filme, foi esse. Ainda que tenha durado pouco.

 

Contudo, essa época de liberdade criativa tinha três Cavalos de Tróia vivendo nela, que mesmo sem a intenção, iriam acabar por destruí-la: Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas.

Coppola, Lucas, Spielberg e Scorsese, a geração que mudou (duas vezes) Hollywood.

Coppola, Lucas, Spielberg e Scorsese, a geração que mudou (duas vezes) Hollywood.

 

É importante lembrar que naquela época a distribuição de filmes ocorria de uma maneira completamente diferente da que ocorre hoje: os filmes às vezes tinham até três, quatro anos para recuperar seu investimento. Eles estreavam em poucas salas em Nova York e em algumas cidades dos Estados Unidos, quando sua bilheteria nessas salas começava a minguar, as cópias iam para outros bairros, cinemas e cidades, onde iam ficar em cartaz até a bilheteria começar a novamente a diminuir e irem de novo para outros lugares, pouco a pouco, fechando um ciclo de lucro gradual que frequentemente durava anos.

 

Tudo começou a mudar com um filme feito para o fracasso: Tubarão, de Steven Spielberg.

É difícil imaginar uma produção onde mais coisas tenham dado errado (ou nem tão difícil assim, uma vez que um ano após Tubarão, Coppola iria se enfiar no pesadelo de três anos na selva que foi fazer Apocalipse Now), no entanto, de alguma maneira, Spielberg conseguiu extrair um tremendo clássico de todos esses problemas, que em poucas semanas, de uma maneira que ninguém entendeu muito bem, conseguiu dar um lucro exorbitante, se tornando a maior bilheteria de todos os tempos.

Nunca um filme havia dado tanto dinheiro em tão pouco tempo, e isso fez um clique na cabeça dos produtores: e se em vez de soltar um filme em pleno circuito tradicional, deixando que ele achasse naturalmente seu caminho pouco a pouco, eles fechassem as opções e monopolizassem as escolhas, em vez de 25 filmes diferentes em 25 cinemas, o mesmo filme em 20 cinemas?

 

Tubarão: de fracasso encomendado a filme que revolucionou o cinema.

Tubarão: de fracasso encomendado a filme que revolucionou o cinema.

Esse modelo veio se acertar em definitivo com os lucros astronômicos (trocadilho não intencional) de Guerra nas Estrelas, lançado dois anos depois (após outra filmagem que só pode ser definida como infernal e novamente, um filme talhado para dar errado, infernal o suficiente para Lucas abandonar a carreira e só voltar à direção em 1999). O sucesso avassalador de Star Wars veio a solidificar o conceito de Blockbuster, o lançamento arrasa-quarteirão disponível em todos os cinemas, com ampla campanha de publicidade. E com isso, após um belo xeque-mate na teoria do autor, os produtores voltariam a reivindicar para si o domínio dos filmes que lançavam. Agora, ao contrário dos anos 60, eles sabiam o que o público queria ver. E isso era o que o público teria, para o bem ou para o mal.

 

E por fim, enquanto tudo isso acontecia, o grande porta-voz da independência, Francis Ford Coppola, o homem que detinha o sucesso absoluto de crítica e bilheteria O Poderoso Chefão, passou três anos incinerando dinheiro no Vietnã gravando Apocalipse Now, o tipo de risco com um diretor que não prestava contas a ninguém que os estúdios estavam cada vez menos dispostos correr.

Coppola fundou a Zoetrope, o estúdio onde os diretores teriam total liberdade, onde o que importava eram os filmes e não o dinheiro das bilheterias…

… e que faliu completamente três filmes depois.

 

O Fundo do Coração, a produção que jogou a Zoetrope no fundo do poço.

O Fundo do Coração, a produção que jogou a Zoetrope no fundo do poço.

Definitivamente a era dos diretores havia passado. Era o fim dos filmes amargos, difíceis ou maduros. O cinema passaria por uma síndrome de Peter Pan que dura até hoje, com o público de eternos 16 anos.

 

É uma questão delicada.

 

O produtor novamente é quem detém o poder. Para recuperar (e quintuplicar) seus investimentos, se pauta em amplas pesquisas, testes, tudo é esquadrinhado na prancheta para gerar o bebê de proveta perfeito, aquele que vai custar 120 milhões e gerar 2 bilhões.

O diretor é novamente o peão de obra, está ali para garantir que nada saia dos trilhos, pronto para ser afastado por “diferenças criativas” ao menor sinal de problemas. Ou para levar a culpa caso o filme dê errado.

Assim os filmes caminham nesse cabo de guerra, produtor, diretor e astros, como no caso de Will Smith que certamente opinou como se não houvesse amanhã em seu arco dramático de Esquadrão Suicida, um arco igual ao de qualquer filme que ele tenha protagonizado nos últimos 15 anos.

O que aliás, me lembra da descrição de Stephen King sobre os processos hollywoodianos em Dança Macabra: um sistema feito para dar errado. Com um grau tão grande de interferência e direcionamento, com 20 pessoas brigando e opinando em cada etapa, que é quase inacreditável que acabe gerando obras-primas incontestáveis de vez em quando, como um Alien – o Oitavo Passageiro ou um Bebê de Rosemary.

Will Smith com seu visual James West, arco de redenção completamente desnecessário inserido no filme.

Will Smith com seu visual James West, arco de redenção completamente desnecessário inserido no filme.

O curioso é que ouvir o público, dar o que o público supostamente “quer ver”, é a maneira mais fácil de matar qualquer meio. Duvida? As melhores coisas, as coisas mais arrebatadoras, vêm de onde você menos espera. Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Taxi Driver, Breaking Bad… não são o tipo de coisa que nasça de alguma planilha de pesquisa, e ninguém vai dizer que o que quer ver é “uma série longa e deprimente, uma tragédia grega sobre um professor com câncer que acaba virando um fabricante de metanfetamina, revelando seu monstro interior e arrastando a todos para o inferno no processo”. O público não sabe o que quer ver. Até ter isso em mãos.

 

Afinal, quem manda nos filmes? Hoje, é você. E acredite, isso não é uma coisa boa.

Taí Esquadrão Suicida e Batman V Superman para provar.

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