Você que gosta de HQs deve estar organizando seu calendário para conseguir pegar todas as estreias de filmes baseados em quadrinhos que serão lançados este ano. Mais do que isso, se você for fã de cultura nerd, vai ter que encaixar aí adaptações de livros, TV, e uma infinidade de outras coisas legais. Mas nem tudo é notícia boa em Hollywood. Mais ou menos na mesma época que a tendência das adaptações começou a surgir nas telonas, a indústria cinematográfica iniciou uma decadência atribuída à pirataria muito similar à da indústria fonográfica.

Tenho certeza que vi alguém fazer essa relação entre pirataria e o maior número de adaptações, mas não consegui achar em lugar nenhum. Talvez eu tenha sonhado. O fato é que faz sentido: os personagens já estão testados em outras mídias, e existe uma base de fãs estabelecida que ajuda a divulgar os filmes. Ao mesmo tempo, as obras originais ganham impulso nas vendas e se tornam mais visíveis para o grande público. É o tipo da relação ganha-ganha. Em um mercado em crise, torna-se confortável recorrer a essas histórias. Então será que há uma conexão direta entre o aumento da pirataria e o crescimento das adaptações?

Adaptações não são nenhuma novidade no cinema. Há uma gama tão ampla de gêneros e tipos que estaríamos falando aqui de títulos que vão desde A Rosa Púrpura do Cairo até Senhor dos Anéis, passando por Shrek e Dança com Lobos. Mas será que hoje realmente se fazem mais filmes baseados em personagens e histórias preexistentes que no passado? Fiz aqui uma pequena estatística caseira separando as dez maiores bilheterias dos EUA desde o ano 1980 até hoje usando dados do site Box Office Mojo. Os resultados estão gráfico a seguir:

adaptacoes_graficoAs barras azuis representam o número total de remakes, adaptações de histórias e personagens de livros, quadrinhos, teatro, TV e tudo mais que não é original entre os dez filmes que mais arrecadaram anualmente. As barras laranjas representam sequências de filmes anteriores. Lembrando que uma continuação pode ser de uma história original ou não, por isso um título pode estar ao mesmo tempo nas barras laranja e azul.

Vemos que existiu uma tendência anterior de scripts não originais entre as maiores arrecadações com ápice no início dos anos 90, mas o sucesso deles se torna mais consistente desde o começo dos anos 2000 até hoje. O que aconteceu nesse período? Em 2000, X-Men foi o primeiro filme de super-heróis da atual fase já no top 10. Pode-se destacar com ainda mais importância que Harry Potter e O Senhor dos Anéis foram os filmes mais vistos em 2001. Todo o estúdio queria sua franquia milionária que poderia se arrastar por anos com continuações igualmente lucrativas.

Mas e a crise? Tem gente que diz que, contando os ingressos mais caros em salas 3D, a venda de home video e outras variáveis, a coisa não está tão feia assim. Fato é que a indústria do cinema realmente vem vendendo menos tickets a cada ano. Dá pra ver no gráfico abaixo que entre 1986 e 2002 o público vinha tendo um aumento razoavelmente consistente, e então passou a cair.

ingressos_graficoE a crise foi causada pela pirataria? O timing parece estar certo. O Napster, primeiro software de compartilhamento P2P realmente popular, foi lançado em 1999, levando a um quase imediato declínio na venda de CDs. Em 2000, enquanto a internet de banda larga se tornava mais difundida, foram lançados outros programas que permitiam o compartilhamento de outras mídias além de música – vídeos inclusive – como o Scour Exchange e o eDonkey 2000.

Se realmente há uma crise e os estúdios estão apostando em histórias não originais, então pode-se concluir que a pirataria tem feito as produtoras deixarem de investir em filmes originais ou autorais, certo? “Meu Deus, isso quer dizer que nunca mais eu vou ver um Caça-Fantasmas, ou um Robocop, ou um De Volta Para o Futuro?” Não necessariamente.

Na real, para se ter certeza disso, seria necessário analisar um escopo muito maior de filmes para saber se os roteiros originais têm realmente ficado de fora, o que daria até uma tese de mestrado. Como eu não tenho tempo pra isso, pensei como poderia fazer para usar os dados que tenho aqui à mão.

Raciocinei assim: se os estúdios estão dependendo das adaptações para sobreviver, além de elas estarem aparecendo mais no top 10 (como de fato foi comprovado), a receita anual estaria cada vez mais concentrada nos filmes mais vistos, já que os menos vistos estariam tendo menos espaço. Voltei ao Box Office Mojo e calculei a porcentagem da participação das dez maiores bilheterias na arrecadação total ano a ano. O resultado está no gráfico abaixo:

participacao_graficoVemos aí que, considerando os dados limitados que estamos analisando, os filmes de maior sucesso no ano são responsáveis por 25% a 30% da receita da indústria cinematográfica em média, com oscilações pontuais fora disso.

Pra mim, isso é indicativo que a adaptação de histórias e personagens de outras mídias para o cinema é só a tendência atual, nada mais do que isso. De fato, faz muito sentido que os produtores queiram investir naquilo que dá mais dinheiro no momento, e outros gêneros acabam ficando com um espaço menor. A questão é que nada parece indicar que os blockbusters de hoje recebam mais atenção dos estúdios do que os do passado.

Há aqueles que criticam. Alejandro González Iñarritu foi muito claro em sua reprovação ao mercado atual em Birdman. Lana Watchowski chegou a dizer que o público hoje gostava de ouvir histórias que já sabem o final, como uma canção de ninar, porque se sente inseguro depois do 11 de setembro. Steven Spielberg, depois de comentar junto com George Lucas como mesmo diretores aclamados como eles tinham dificuldades em emplacar seus filmes autorais junto aos estúdios, cravou:

[No Futuro] você vai ter que pagar US$25,00 para ver o próximo Homem-de-Ferro, e provavelmente vai ter que pagar US$7,00 para ver o próximo Lincoln. (…) Vai haver uma implosão, onde três ou quatro, ou talvez meia dúzia de filmes de megaorçamento se espatifarão no chão e isso vai mudar o paradigma.

Cá entre nós, certamente alguém reclamava lá nos anos 80 que “só o que se vê hoje são esses filmes de ação e duplas de policiais e não se fazem mais musicais como os de antigamente”. Antes disso deviam dizer “hoje só se fazem esses musicais, que saudades do cinema mudo”. Bom, você entendeu a ideia.

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Se o público procura mais histórias adaptadas hoje por causa do 11 de setembro, como avalia Lana Watchowski, é difícil de saber. O que eu sei é que a maioria das pessoas que conheço já gostava desses personagens enquanto crescia, só que agora são formadores de opinião (que é como marqueteiros chamam adultos com dinheiro em quem empresários como os de cinema costumam focar suas ações).

Em outra declaração, desta vez mais calmo, Spielberg esclareceu o que quis dizer:

No momento, os filmes de super-heróis estão vivos e prosperando. Só estou dizendo que esses ciclos têm um tempo finito na cultura popular. Haverá um dia em que as histórias mitológicas serão suplantadas por outro gênero que possivelmente algum jovem cineasta está pensando neste momento em descobrir para todos nós.

Isso faz bastante sentido. Meu conselho para você colega apreciador dos filmes nerds é relaxar e aproveitar, porque um dia essa moda vai cansar o grande público e vamos ter que voltar a nos contentar com filmes pontuais de qualidade instável. Aí você vai falar “que saudade dos filmes de super-heróis, esses jovens de hoje só sabem ver filmes com personagens que eu não conheço…”