É isso aí, eu finalmente assisti Stranger Things e deixei, assim, de ser um pária. Era tanta gente falando bem que eu tive que conferir. Mas a série justifica esse hype todo?

Para você que não acessou seu Facebook, apagou seu Twitter e jogou seu smartphone no rio nas últimas semanas, a série se propõe a ser uma viagem aos filmes de fantasia dos anos 80, aqueles que estão sempre voltando. E todo o filme dos anos 80 tem uma grande corporação por trás de uma conspiração. Nesse caso, a corporação é o Netflix. A primeira grande emissora online tem o costume de montar as suas séries baseada no gosto do freguês, já que a internet tem a vantagem (e a desvantagem) de estar o tempo todo se alimentando do que cada pessoa gosta tendo como base as ações do usuário. Se esses dados forem simplesmente jogados na tela em forma de citações, a coisa toda pode virar uma grande bagunça, como foi o caso de Hemlock Grove. Se forem usados com cuidado, podem ter ótimos resultados, como nas séries da Marvel ou em House of Cards.

Logo de início, as citações são tantas que o espectador chega a ficar meio zonzo. Ué, “esse não é o gordinho dos Goonies?” “Essa não é a Drew Barrymore no E.T.?” São roupas, cabelos, enquadramentos, objetos de cena, cenários, música, a estética, tudo ou é imediatamente identificável com um filme particular ou é ao menos estranhamente familiar. O enredo também remete muito aos clássicos oitentistas: a já citada corporação conspirando com o governo durante a Guerra Fria, o núcleo das crianças que são amigos inseparáveis, os bullys, o núcleo dos jovens descobrindo o amor e vendo que a popularidade na escola não é tudo, os pais divorciados tentando segurar a barra. Além disso, também há os atores familiares “Wynona, eu gostava dela, por onde ela andou?”, “Olha aí o Mathew Modine, acho que o Peter Coyote estava velho demais pra chamarem!” Tudo isso para você se sentir em casa.

Óun, que fof... Ei! Eeeeei!!

Óun, que fof… Ei! Eeeeei!!

Eles me pegaram logo na cena de abertura, em que as crianças estão jogando Dungeons & Dragons. Eu não joguei D&D nos anos 80, já peguei a era do AD&D quando era adolescente, mas ver eles tentando adivinhar qual monstro era e todos gritando “fireball!!!”, “não, vai ter que tirar 14 no dado!!!” fez meu cérebro involuntariamente se sentir nostálgico.

Depois que minha memória afetiva foi acionada com sucesso, tentei me focar mais na trama. Pensei “Ok, Netflix, você tem a minha atenção, pode falar agora”. Como eu disse no começo, nada disso funciona se não houver uma alma por trás. É só pensar em como a maioria das continuações eram feitas nos anos 80, pegando-se o roteiro original e adicionando muito, muito dinheiro, mas sem nada de novo. Não dava certo.

A trama é bem escrita, totalmente algo que poderia ter sido feita nos anos 80 e passado ad infinitum na Sessão da Tarde (mas também não assista esperando muito mais do que isso). As atuações são boas o suficiente e os personagens bastante relacionáveis. Para isso, conta o que foi trazido na trama, mas também é muito difícil de separa-los os seus sósias dos filmes homenageados (Este parêntesis contém um spoiler: foi uma boa sacada matar a menina fisicamente idêntica à Stef dos Goonies: você nem a conhece bem de verdade, mas sente que sim e fica comovido). Para o que se propõe, a história funciona muito bem; as citações são muitas, mas é fácil parar de prestar atenção nelas depois de um tempo e ter interesse no que está acontecendo.

Sim, o Netflix foi malandro e conseguiu me trazer para dentro de sua conspiração para que eu goste de sua série.  Desista! Junte-se a nós! Nós não vamos machuca-lo! Muahahahahaha!!!

Bom, vamos ver se a nostalgia será o suficiente para manter o interesse pela série nas próximas temporadas. Só espero que, se ela ganhar uma versão remasterizada daqui a 30 anos,  não substituam as armas dos homens do governo por walkie-talkies de CGI.

Nota: 8/10 aberturas do Atari em HD