A seguinte resenha apresenta uma série de spoilers que, com certeza, vão estragar a surpresa para quem ainda não assistiu o Season Finale.

Ou seria Series Finale?

Não sabemos explicar isso melhor.

O episódio anterior, de longe, um dos mais surpreendentes da série, terminou com um gancho que deixou os telespectadores de queixo caído: a irmã de Sherlock Holmes, Eurus, é revelada como a terapeuta de John Watson. Não só isso: ela era a mulher que flerta com John no ônibus e se passou pela filha do serial killer Culverton Smith, dando pistas a Sherlock para a solução do mistério. A última cena é a arma de Eurus disparando contra Watson.

Chegamos num daqueles momentos que nos fazem questionar a) como ele vai sair dessa e b) se a solução encontrada pelos roteiristas será satisfatória. No final da segunda temporada, tivemos a “morte” de Sherlock, que só foi resolvida na temporada seguinte. Ainda que divertida, a “solução” não explicou nada. Mas, dessa vez, as coisas pareciam ter sido escalonadas a um patamar completamente diferente, mais aterrorizante, com os personagens sendo lentamente destruídos. O casamento de John Watson, as mentiras que foram reveladas, sua amizade com Sherlock e, finalmente, o detetive numa jornada de auto-destruição para que pudesse salvar o bom doutor. Invariavelmente, quando a história chega a esse nível, corremos o sério risco de nos decepcionarmos.

Mas não tanto quanto ela.

O episódio começa com uma menina sozinha em um avião, com toda a tripulação e passageiros inconscientes, num vôo mortal em direção a Londres. Ela tem um telefone celular e tenta pedir ajuda. Paralelamente (ou assim pensamos), Mycroft está sendo aterrorizado dentro de sua própria casa por… Eurus? Não. Sherlock e John. Um truque para forçar Mycroft a confessar que escondia informações de seu irmão mais novo. Como se a situação já não fosse grave o suficiente… Ah, o tiro disparado contra John Watson? “Era uma arma tranquilizante”. Ah, então tudo bem. Não era nada demais. Temos também um drone com explosivo sensível a movimento, o que nos permite, numa cena curta mas bastante divertida, conhecer o gosto musical da Sra Hudson.

A melhor coisa da temporada.

Em seguida, os três viajam para a prisão secreta de segurança máxima que continha Eurus. Mesmo com todos os protocolos de segurança, eles conseguem invadir o local (mesmo com todos os privilégios de Mycroft, eles resolvem invadir). É quando temos a melhor reviravolta do episódio: Sherlock vai até a cela de Eurus confrontá-la, mas, ao chegar lá, descobre que ela está no controle da prisão há muito tempo.

A tensão vai lá em cima, mas causa um problema: então ela sempre entrou e saiu de lá quando quis?

Como parte da explicação, Moriarty aparece vivo… Num flashback de cinco anos antes. Lembram no episódio anterior, quando Mary aparece e, por alguns instantes, nos perguntamos se ela estava viva? Novamente essa brincadeira é feita, mas com resultado muito mais pobre. Nunca gostei do Moriarty excessivamente afetado, mas sua entrada ao som de Queen (que só ele ouve pelos fones de ouvido) conseguiu ser constrangedora. Descobrimos, então, que Mycroft usou a ajuda de Eurus em diversos casos de difícil solução e, em troca, concedeu a ela cinco minutos sem supervisão com Moriarty. Foi a partir daí que o nêmese de Sherlock Holmes desenvolveu todos os seus planos. A sucessão de erros de Mycroft nos faz perguntar se ele não seria o vilão da história.

Honestamente, não.

Eurus começa, então a brincar com a psiquê dos três protagonistas, numa sucessão de enigmas ao melhor estilo Jogos Mortais. Por mais que tentem fazer a escolha moralmente correta, Eurus dá as cartas e mata quem quer, forçando os três a escolherem quem morre. Enquanto isso, eles ainda precisam ajudar a garotinha no avião, que está cada vez mais próximo de cair. A sequência de enigmas tem bons e maus momentos, mas cumpre seu propósito. A situação é cada vez mais desesperadora para Sherlock, John e Mycroft, com Eurus manipulando tudo até o ponto de ruptura deles.

NÃO BRINCO MAIS!

O que se descobre no final é que a ameaça era tão grande que nenhuma solução estaria à altura. Sim, Gattis e Moffat falham. Não havia garota no avião, era Eurus gritando por ajuda. A sacada genial fica por conta do que está por trás disso: ao longo de quatro temporadas, vimos Sherlock ser humanizado, adquirir contornos de herói trágico, nada parecido com a máquina sem sentimentos da primeira temporada. Ele genuinamente gosta de Watson e não tem problemas em demonstrar isso. Ele se importa com os sentimentos de Molly ao ponto de se odiar por ter que mentir pra ela – mesmo sabendo que isso salvaria sua vida. Somente nos minutos finais entendemos o papel de Eurus nessa mudança: quando crianças, ela matou o melhor amigo de Sherlock, que se fechou para lidar com o trauma.

A princípio, essa amizade ajuda John a superar seu trauma na guerra, mas é Sherlock o maior beneficiado no final. Porque John não deixa de ser um militar (“hoje, nós somos soldados”), Mycroft não deixa de ser o burocrata (tentando provocar Sherlock para ser morto no lugar de Watson, pois ele sabe que a opção deixaria seu irmão devastado) mas é Holmes quem sobressai. Ele finalmente entende o enigma e consegue dar a Eurus a solução para o “problema final”. Ela precisava de ajuda. Ela fora tratada como um monstro desde a infância e, finalmente, alguém ouviria seus apelos.

Podiam ter sentado para um chá.

A solução, o próprio “problema” em si, era algo muito menor do que o prometido desde o episódio anterior. Esse é um dos grandes problemas com o final de séries: raramente elas satisfazem a expectativa do público (vide Lost) porque é quase impossível criar uma ameaça tão grande e solucioná-la de forma satisfatória. O que temos em seguida, na voz de Mary Watson, é uma declaração de amor ao mito de Sherlock Holmes, um dos personagens de ficção mais bem-sucedidos de todos os tempos, tão reconhecido quanto Robin Hood, Mickey Mouse, Tarzan ou o Superman.

Duro golpe.

Como um todo, Sherlock, a série, é de longe a mais bem-sucedida adaptação do detetive. Se o episódio final deixou a desejar, certamente foi por causa da expectativa dos fãs que, como eu, se sentiram cada vez mais ansiosos não só pelo episódio anterior a esse, mas pela perspectiva do fim da série. O que temos, no final, é um trabalho magistral de Steven Moffat e Mark Gattiss, que foram capazes de rejuvenescer as histórias clássicas em um século e o iminente estrelato de Benedict Cumberbatch e, em menor grau, Martin Freeman, atores extremamente competentes e que levaram a sério a missão de angariar novos fãs para seus personagens.

Dane-se. Somos Marvel agora.

Eu, particularmente, sentirei muita falta do Dr Watson, talvez o mais humano sidekick já criado. Se, em três ou quatro anos, eles voltarem para mais uma temporada ou episódio especial, certamente estarei acompanhando. Caso contrário, sempre me lembrarei que não é justo nem injusto.

Apenas é.

Hobbits e suas amizades questionáveis.

Nota: 8,974

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