A seguinte resenha apresenta uma série de spoilers que, com certeza, vão estragar a surpresa para quem ainda não assistiu.

Como lidar com a perda?

O impacto do primeiro episódio da temporada não foi totalmente digerido quando começou o “O Detetive Mentiroso”. John Watson, em terapia, divide sua atenção entre a analista e Mary. “Eu estou morta, você sabe disso”, ela diz. Ele nega a verdade, nega que ela esteja presente, nega que não esteja e continua usando sua aliança.

Hobbits e sua obsessão por aneis.

O episódio ameaça dar um alento, um alívio cômico que possa tranquilizar os fãs do Dr John Watson, mas o clima ainda é fúnebre. Estamos todos de luto, não por Mary – Amanda Abbington está presente o tempo todo ao lado de Watson – mas pelo próprio John, em uma atuação marcante de Martin Freeman. Tentando reconstruir sua vida, mas sem admitir, nem por um segundo, que a única maneira de seguir em frente é deixando o passado para trás. O único passado que ele admite deixar para trás é, justamente, seu melhor amigo.

Cada um lida com a perda a sua maneira.

Banderbik Cleverbitch está, realmente, mais humanizado, um Sherlock Holmes com a consciência pesada, ponderando as consequências de seus atos e como isso afeta as pessoas ao seu redor. Mais do que isso: ele fez uma promessa e não cumpriu, decepcionando as (únicas) pessoas que foi capaz de amar (e ser amado).

Sem contar as Cumberbitches, claro.

Tudo aqui consegue ser ainda mais pesado que o episódio anterior, o desenrolar da trama é claustrofóbico, o vilão é uma ameaça terrível, a resolução é, como sempre, digna de Sir Arthur Conan Doyle, mas a reviravolta final é muito mais surpreendente do que qualquer coisa que já tenhamos visto na série – ou mesmo na televisão.

Era lúpus?

Enquanto Watson tenta se recuperar pela terapia, Broadband Cumulusnimbus encontra conforto com uma velha companheira – a heroína. Mesmo fora de seu melhor juízo, o detetive continua tentando resolver os casos que aparecem, até que uma garota com uma história estranha aparece.

Mais loka que o Sherlock de luto

A edição das imagens tenta refletir a confusão mental de Sherlock, usando todos os truques estilísticos que os fãs da série já conhecem. Os efeitos visuais, narrações, explicações e mensagens não têm a mesma “consistência” de episódios anteriores, em que Bromatiazina Cumlestore estava “limpo”. O roteiro flui lentamente, intercalando o drama dos protagonistas com a introdução de um novo e desagradável vilão: Culverton Smith, brilhantemente interpretado por Toby Jones.

Mentira, eu editei errado mesmo.

Tão desagradável que cortamos metade da imagem.

A garota que procura Sherlock é a filha de Smith, um empresário filantropo que, segundo ela, teria confessado a algumas pessoas sua intenção de assassinar uma pessoa três anos antes. Utilizando drogas, Smith apagou as lembranças das pessoas que ouviram sua confissão – inclusive sua filha – mas ela conseguiu juntar detalhes o bastante do ocorrido para procurar o famoso detetive e tentar impedir que ele mate alguém. Mas quem seria a vítima?

Sherlock conclui que não se trata de uma simples pessoa, mas qualquer pessoa. Smith é um serial killer que escolhe suas presas aleatoriamente e seu poder e reputação o colocam na posição privilegiada de poder iniciar um jogo de gato e rato sem sofrer as consequências. Holmes torna sua suspeita pública, forçando Smith a procurá-lo para tentar “esclarecer” tudo. O que se segue é um jogo de insinuações e meias-verdades, onde nenhum dos jogadores se arrisca a ceder muito espaço para o adversário.

Diferente do que temos aqui.

O grande problema é que as drogas fizeram um tremendo estrago em Boryanov Cracklebohr, e ele não está em condições de enfrentar seu rival. Numa das sequências mais hilárias da série, ele é preso no porta-malas do carro da Sra Hudson, um Aston Martin, e é levado para o consultório da psiquiatra de Watson. A única esperança da bondosa mulher é que Watson aceite cuidar de seu melhor amigo – ainda que o culpe pela morte da esposa.

Mulher de verdade.

Claro que é difícil para todos aceitar as suspeitas de Sherlock. Visivelmente alterado, metade do seu discurso parece um delírio paranoico. Mas o espectador vê a construção do monstro Culverton Smith, um sujeito perturbador, que usa sua posição para pisar em qualquer um que se coloque no seu caminho. Curiosamente, ele é baseado em um monstro do mundo real: Jimmy Saville, apresentador de TV que abusou de mais de 200 pessoas, a maioria crianças e adolescentes, dentro de hospitais que ele mesmo ajudou a construir.

Suas definições de “perturbador” foram atualizadas.

Ainda assim, é fantástico ver que Sherlock, mesmo fora de seu juízo perfeito, foi capaz de detê-lo com um plano que começou a colocar em prática semanas antes, prevendo as ações de diversas pessoas ao seu redor (incluindo Watson, a Sra Hudson e Molly Hooper). Mas não é inesperado. Inesperado foi ver como se deu a intervenção de Watson no último minuto: após assistir o vídeo que Mary gravou para Sherlock, ele finalmente decide salvar a vida do seu velho amigo. Essa era a mensagem de Mary. Watson jamais aceitaria ajuda, mas não a negaria. Sherlock tinha que descer até o inferno para que John o resgatasse – e, mesmo nas profundezas, o notório residente do 221B da Baker Street tinha a situação em suas mãos.

Não estávamos preparados é para o que vem a seguir. Numa cena tocante e magistralmente conduzida, John Watson confessa para Sherlock, e para o “fantasma” de Mary, que nunca foi o bom homem que todos acreditavam. Ele admite a traição, que foi conduzida por mensagens de texto, mas que o corroeram de culpa e remorso após a morte da esposa. O abraço de Sherlock é um momento fraterno e de muita sensibilidade, pois ali John não consegue mais usar a raiva como armadura. Ele está perdido, fragilizado. Sherlock finalmente o salva.

Com um abraço.

As Cumberbitches piram.

É assim que devemos lidar com a perda. Não está tudo bem, talvez nunca fique tudo bem novamente, mas não é uma injustiça, não é uma conspiração cósmica pra fazer você sofrer. É apenas como as coisas são.

E quando você achava que o episódio já tinha te destruído por dentro suficientemente, descobrimos a verdade sobre o terceiro irmão Holmes. Que é uma irmã. Que se passou por uma mulher no ônibus para flertar com John Watson, que se passou pela filha de Culverton Smith para colocar Sherlock na trilha do assassino e que está se passando pela psiquiatra de Watson.

E tem uma arma.

E dispara.

Conclui no próximo episódio.

Estamos próximos do que pode ser o final da temporada, ou da série, o que tornou um alento ver a amizade de John Watson e Berebekan Katabanta restaurada. Eurus Holmes se mostrou uma mestre em disfarces e uma adversária à altura tanto de Sherlock quanto de Mycroft. Só resta saber se um episódio é o suficiente para finalizar todos os plots em aberto – como a ameaça da volta de Moriarty. Até o momento, o saldo é extremamente positivo.

Nota: 9,926

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