“Não há ateus nas trincheiras”. Apesar de polêmico, confesso que encontro alguma verdade nesse ditado apócrifo (talvez inventado na Grande Guerra, talvez na seguinte). É claro, muitas pessoas religiosas oram rotineiramente para sua divindade pessoal em busca de soluções para seus dilemas pessoais. Outros procuram seus guias espirituais em mecanismos mais esotéricos, tentando avistar respostas desde nas mais distantes constelações do firmamento até nas linhas das palmas de sua mão.

Mas tenho a suspeita que mesmo a mais cética das pessoas em algum ponto da vida já procurou socorro em alguma entidade metafísica superior. Não acho que isso seja de forma alguma um demérito, ou mesmo a confirmação da existência de Deus. As crises pessoais são episódios em que os valores e princípios de um indivíduo são testados ao limite, mudando o indivíduo ou revalidando sua crenças. Todo mundo passa por elas.  Você sabe, aqueles momentos focais, aquelas encruzilhadas existenciais em sua vida em que você simplesmente não sabe para onde ir, e pergunta em desespero: “Senhor, o que fazer?!”

O problema é quando Ele responde.

Não falo metaforicamente, por meio de um momento de inspiração, um lampejo genial que surge espontaneamente ou após uma longa reflexão. Mas sim quando uma voz, clara e nítida, que apenas você escuta dentro de sua cabeça, manda você fazer algo. Nesse caso, há duas opções: Deus realmente existe e ele realmente falou com você; ou você está louco.

Quer dizer, a não ser que você seja um dos Robôs de Westworld. Nesse caso, as duas alternativas podem estar certas.

O Deus da Máquina

The Stray, terceiro episódio da série, gira em torno de Bernard Lowe, chefe dos programadores de Westworld, e Dolores Abernathy, sua mais antiga Anfitriã, ambos tentando compreender a sua própria maneira as assustadoras mudanças por qual passam os autômatos do parque: não só vários deles continuam a ter lampejos involuntários de suas memórias sobrescritas, como também tem ouvido vozes de alguém chamado “Arnold”, que os orienta em seus episódios de “comportamento dissonante”. Confrontado com as descobertas de Lowe, Dr.Ford revela que seu finado sócio e um dos fundadores do parque, Arnold, havia programado os Anfitriões originais com uma “mente bicameral”, no intuito de despertar sua consciência. Agora tomem fôlego para um mergulho em águas profundas.

"Senta que lá vem uma aula..."

“Senta que lá vem uma aula…”

O “Bicameralismo” é uma tese apresentada em 1976 pelo psiquiatra Julian Jaynes, que advoga que até a Idade Clássica a mente humana funcionava de forma curiosa: os comandos enviados pelo lado direito do cérebro (centro decisor) eram recebidos pelo lado esquerdo (centro executor) por meio de “alucinações auditivas”. Ou seja, as pessoas realmente escutavam cotidianamente em suas mentes vozes lhe dizendo o que fazer. O sussurros das Musas para Heródoto, Os comandos de Javé seguidos por Abraão, os conselhos dos olimpianos para Ulisses não eram só metáforas. O “nascimento” de Deus seria produto de um estágio primitivo de consciência humana, uma forma da mente lidar com sua compreensão do mundo. A partir do desenvolvimento da linguagem e da capacidade de abstração, a humanidade teria passado por uma espécie de “atualização de software” que a permitiu otimizar seu cérebro, refletindo sobre sua própria existência sem o uso desses artifícios. Essa forma rudimentar de pensamento ainda persistiria em certos casos de loucura, como a esquizofrenia.

Essa teoria é largamente ignorada pelos meios acadêmicos, mas despertou o interesse de Arnold. Originalmente, os Anfitriões são pouco mais do que animais. Suas reações, ainda que aparentemente sofisticadas, são previsíveis, imediatistas e limitadas aos seus ciclo narrativos. São incapazes de introspecção, de conjecturar sobre sua natureza ou refletir sobre o futuro. Pode-se perceber isso nas conversas de Dolores com seu namorado, o pistoleiro Teddy, refratário aos questionamentos existenciais da jovem. O plano de Arnold era programar os Anfitriões para que recebessem comandos novos a partir de suas memórias passadas, como uma segunda personalidade protetiva, até o momento em que os autômatos “aprendessem” a usar seu hardware, deixassem para trás sua programação original e adquirissem consciência. Arnold morreu prematuramente, mas algumas de suas linhas de comando parecem ter resistido às atualizações.

E agora temos uma legião de robôs esquizofrênicos, que efetivamente ouvem a voz de seu “Deus” (seu criador, Arnold), propelindo-os a uma crise existencial que inevitavelmente os levará a compreender sua verdadeira condição: de joguetes dos desejos dos frequentadores do parque. E obviamente, a se defender de seus captores.

"Bem-vinda à Toca do Coelho, Alic... digo, Dolores"

“Bem-vinda à Toca do Coelho, Alic… digo, Dolores”

Dolores é a primeira a romper essa barreira. Assim como a linguagem teria “libertado” o homem, as lições secretas de Lowe permitem à jovem começar a entender primeiro as nuances das palavras. Compreender que “um dia” às vezes quer dizer “nunca”. Desenvolver pensamentos que vão além da sua rotina programada, por meio da recordação de suas “vidas passadas”. Num parto doloroso, Dolores é sucessivas vezes vítima dos abusos previstos em seu ciclo narrativo, até que sua “voz interior” a ajuda a renegar os imperativos de sua programação original e defender sua própria existência.

Problemas no Olimpo

Na resenha do primeiro episódio, comparei os Administradores do parque com os Deuses do Olimpo, o que parece ser cada vez mais acurado. Os Olimpianos eram deidades poderosas, mas movidas por paixões e ódios, afeitas a disputas intestinas de ego. Em The Stray, vemos que a iminente crise em Westworld só é possível pelas desavenças internas entre os administradores, que vão desde as picuinhas entre funcionários de departamento, até as intrigas corporativas entre Lowe, sua amante Theresa, e Dr.Ford. Em diversos momentos, cada um deles mente para o outro, perseguindo suas agendas pessoais enquanto parecem não perceber que estão perdendo o controle dos Anfitriões.

Olimpianos: deuses cruéis, vingativos e muito, muito falhos

Olimpianos: deuses cruéis, vingativos e muito, muito falhos

Dr. Ford é um caso em à parte. Se nos episódios anteriores ele assumiu a figura do patriarca sábio e misterioso, nesse começamos a ver sua faceta de um deus mais maquiavélico e cruel (e que deve crescer nos próximos capítulos). Não tenho dúvidas que o velho programador não contou toda a verdade sobre seu antigo colega, e não me surpreenderia se os papéis da tragédia estiverem trocados: Arnold descobriu os verdadeiros planos de Ford (talvez de evoluir os Anfitriões, talvez algo mais sinistro) e foi morto antes que pudesse desmascara-lo para a Diretoria. Não é revelador que o novo vilão fabricado por Ford, Wyatt, seja um fanático religioso que afirma ouvir “A Voz de Deus” em sua cabeça?

Talvez a ameaça velada de Dr.Ford a Lowe (“Arnold morreu por se importar demais com os Anfitriões, não faça o mesmo”) tenha propelido o pupilo a mentir para seu tutor, ou talvez tenha sido a lembrança do filho morto prematuramente. O fato é que Lowe assume nesse episódio o papel do Prometeus mítico, alimentando delicadamente as primeiras centelhas de humanidade em Dolores, e ao final apiedando-se dela e tomando a difícil decisão de deixa-la partir com o fardo da consciência. Também é assim consciente sua decisão de trair os demais deuses desse olimpo tecnológico.

"E o que faremos hoje à noite, Pistoleiro?" "É domingo, dia de Westworld, princesa!"

“E o que faremos hoje à noite, Pistoleiro?”
“É domingo, dia de Westworld, princesa!”

O Desafio da Regularidade

Westworld teve um início espetacular, e deve ser difícil manter a qualidade dos episódios diante de tanto hype gerado em torno dela. Uma alternativa confortável para os roteiristas teria sido aplicar uma fórmula semelhante a Lost e expandir o universo da série explorando outros personagens secundários (como os demais Anfitriões) ou apresentado novas “iscas” para teorias menores sobre o parque e seus habitantes. Ao invés disse, o terceiro episódio decide ir fundo no “buraco do coelho” e se aprofundar na trama principal da história e na construção de seus personagens principais. É uma aposta arriscada, na medida em que o episódio pode ser até denso demais para o espectador casual.

Em contrapartida, The Stray continua a contar com outras qualidades já mostradas pela série, como ótimas atuações – em especial de Anthony Hopkins e Evan Rachel Wood – diálogos inteligentes e bem elaborados e bons efeitos especiais, com destaque para o jovem Dr.Ford. É também um episódio particularmente tenso, e o roteiro é bom o suficiente para criar suspense mesmo em situações que sabemos terem sido programadas para “divertir” os visitantes do parque. Talvez a mistura de um divertimento garantido para alguns com um roteiro instigante para outros possa ter garantindo um aumento progressivo na já alta audiência do programa.

PS: Angela, a recepcionista do segundo episódio, é de fato uma Anfitriã! Ela aparece no recordatório do Dr.Ford.

Nota: 9/10 citações espertinhas de “Alice no País das Maravilhas”

 

Autor: