O Dia das Crianças é sempre um bom momento para lembrar o quão difícil é criar uma. Como um pai recente, posso confirmar em primeira mão. Há os aspectos mais óbvios: ciclos intermináveis de papinhas, trocas de fralda, banhos, vacinas e doenças infantis, roupas que ficam perdidas à velocidade da luz, dificuldades para dormir… enfim, prover alimentação, higiene e saúde para uma criatura bastante frágil e dependente. Porém, a maioria da pessoas ignora um lado muito mais sutil e insidioso dessa hercúlea tarefa: estabelecer os limites para um ser humano em formação.

Recém-nascidos levam um bom tempo para perceber que a realidade não é uma mera extensão de si mesmos, e outro tanto para entender que precisam respeitar certas regras de conduta social. Começamos com os mandos mais simples, que precisam ser repetidos à exaustão: não cutuque o nariz; não jogue as coisas no chão; respeite os mais velhos; não machuque os outros. Como argumenta Comte-Sponville, condicionamos os pequenos à força com as normas básicas de “etiqueta” (a pequena ética), como um primeiro passo para transmitir valores considerados por nós essenciais, sejam o respeito à propriedade, honra, vida ou a tolerância às diferenças. Não é uma missão fácil, deixa traumas e outras sequelas negativas e muitas vezes é fracassada, mas é uma etapa essencial para a sobrevivência de seu filho em sociedade. Numa perspectiva cínica, pode-se dizer que a história da civilização humana pode ser contada a partir do esforço de “domesticar” esses pequenos selvagens.

Mas o que isso tem a ver com Westworld? Em seu segundo episódio, conhecemos melhor nosso cenário, agora pela perspectiva dos seus visitantes. E descobrimos que, para além de um mero Parque de Diversões, Westworld é uma bem azeitada máquina de destruir a moralidade dos Recém-Chegados (ou talvez libertá-los dela).

"Bem-Vindos à Westworld, onde todos seus desejos serão realidade!"

“Bem-Vindos à Westworld, onde todos seus desejos serão realidade!”

“Esses Prazeres Violentos têm Fins Violentos”

Conheça William. Ele será nosso principal guia durante esse episódio. O acanhado William parece ser um homem passivo e desiludido, em sua primeira viagem para Westworld, na companhia de seu colega de trabalho, o veterano Logan. É por meio dele que descobrimos que o parque é uma verdadeira sandbox, uma gigantesca caixa de areia para adultos, em que tudo – literalmente tudo – é permitido para seus clientes. Ao contrário dos parques convencionais, aqui não há instruções especiais ou guias de regras. Do momento em que pisam no complexo, os recém-chegados são não só convidados, mas instigados a deixarem para trás suas opressivas normas de conduta social em favor da satisfação dos seus instintos mais íntimos (e mais perversos). Sentiu-se atraído pela bela atendente que o recebeu? Ela está a sua disposição (e muito interessada!) Um velho está te incomodando durante seu jantar? Crave uma faca na mão do desgraçado e veja-o sangrar!

O próprio tema do parque é um convite a esse desprendimento: a despeito da realidade histórica, temos a imagem do Velho Oeste como uma terra sem lei, sem regras, onde o homem vale pelo quão rápido é com a arma em seu coldre. Muitos dos que cresceram com a cultura americana tem entre suas primeiras brincadeiras de faz-de-conta os jogos de “mocinhos e bandidos” ou “cowboys e índios”. É um imaginário violento, mas estranhamente libertador. O próprio discurso programado de Maeve Millay, a cafetina local, é voltado para conquistar os Recém-Chegados mais reticentes, lembrando-os que entraram em um Novo Mundo, onde “você pode ser a merda que você quiser”. Essa uma terra em que seus visitantes são instados a voltar sem culpa para seus instintos mais primitivos, um lugar em que o único problema com os sete pecados capitais é que eles são poucos demais.

Maeve Millay, libertária por programação

Maeve Millay, libertária por programação

No entanto, uma das lições que aprendemos ainda na infância é que toda ação tem uma consequência. Para viabilizar essa terra de prazeres sem limites há um preço, que é pago pelos Anfitriões: os Administradores precisam garantir que as unidades artificiais sejam cada vez mais realistas, sintam dor e prazer de acordo com a vontade dos visitantes, até o ponto que não seja mais possível distingui-los de um ser humano normal, e é inevitável que algum tipo de afeição surja entre criador e criatura. O próprio programador Bernard Lowe confessa ao seu mentor, Dr.Ford, que tem dificuldades em desligar suas criações, o que pode explicar as estranhas conversas secretas que anda tendo com Dolores.

Como pais negligentes, Lowe e os demais Administradores se ocupam de intrigas corporativas e romances secretos de escritório, alheios ao fato de que seu “filhos” postiços estão rapidamente alcançando sua adolescência. Seja por uma sabotagem externa, seja pela natural evolução das inteligências artificiais, o “vírus” da consciência está se espalhando de Anfitrião para Anfitrião, transmitido por algum comando embutido em uma frase da peça “Romeu e Julieta” (curiosamente, sobre dois adolescentes que se rebelam contra seus pais). Os episódios de “comportamentos dissonantes” começam se repetir com maior frequência, e parece inevitável um acerto de contas entre os autômatos e seus criadores.

"Pistoleiro, desliga já esse jogo e vai comer alguma coisa!"

“Pistoleiro, desliga já esse jogo e vai comer alguma coisa!”

O Pistoleiro, o Mágico e o Herói

Talvez O Pistoleiro, o homem vestido de preto, seja o exemplo mais extremo do que pode acontecer com o recém-chegado que se deixa levar demais pela filosofia de Westworld. Sabemos pouco de sua história, mas ele parece ser o visitante mais antigo do Parque, tendo explorado praticamente todas as narrativas existentes um sem numero de vezes, ao ponto em que é capaz de discernir entre homem e máquina. Como um jogador viciado, sua obsessão pelo parque o faz se sentir mais em casa no ambiente simulado do que na vida real. Ele parece ser movido por apenas dois propósitos: satisfazer seus instintos ao cometer os mais hediondos atos contra os Anfitriões, e descobrir uma certa “fase secreta” do Parque, um labirinto que certamente deve conter mais pistas sobre o verdadeiro propósito do complexo.

Com clientes como o Pistoleiro, o mesmo o simplório Logan, não é de se estranhar que Theresa Cullen, uma das administradoras do parque, afirme que basta oferecer aos recém-chegados uma alegre rotina de “estuprar e pilhar”, proposta semelhante à apresentada para uma nova narrativa cheia de truques baratos e surpresas insossas. Mas é o Dr.Ford que explica o que há além dessa visão superficial.

Parte mágico, parte marqueteiro, Dr.Ford não é somente o criador dos Anfitriões, mas também a figura paterna de toda a equipe do parque. Mesmo aqueles que o tratam pelas costas com condescendência abaixam a cabeça para o patriarca enquanto ele explica o erro de tentar “vender” apenas a satisfação de vícios e prazeres. Isso é fácil. Previsível. Para Ford, os visitantes querem de fato serem levados de volta para um estágio de infância, mas não apenas para poder extravasar obsessões reprimidas sem pudor ou julgamento social. Ele sabe bem disso, afinal criou um robô à sua imagem de criança apenas para entender melhor a natureza humana. O que essa “ilha da fantasia” oferece na verdade é a oportunidade de revisitar aqueles primeiros anos de vida, em que eramos capazes de fantasiar os mais absurdos futuros, em que nosso potencial parecia apenas limitado por nossa vontade. Ter um lampejo do que (nunca) poderíamos ter sido. Brincar novamente de mocinho e bandido.

O que você quer ser quando você crescer?

O que você quer ser quando você crescer?

Voltemos para William. São pequenos sinais que nos mostram o papel que Westworld lhe reserva: ele rejeita as investidas sexuais mais óbvias do parque, afinal ele é fiel a um amor que deixou no mundo real. Ele nutre certa empatia, e talvez até afeto, pelos Anfitriões. Ele recolhe a lata para a donzela da cidade. Ele escolhe o chapéu branco. Ele é em tudo a antítese do Pistoleiro. Como em um passe de mágica, o parque “percebe” o desejo íntimo do pacato William desesperadamente anseia, e o prepara para alça-lo para o papel do Herói na tragédia que se desenrolará nos próximos episódios.

E algo me diz que os frequentadores de Westworld logo precisarão desesperadamente de heróis, enquanto o Dr.Ford prepara uma nova e misteriosa narrativa que poderá ser a lição final de uma velho e cansado pai para seus filhos, humanos e máquinas.

Nota: 9/10 Navalhas de Occam

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