Parece meio bobo escrever resenhas de uma série de TV poucos dias depois do que pode ser um dos eventos históricos mais importantes dessa década – e eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Afinal, é um pouco difícil se concentrar em qualquer assunto sem que os pensamentos sorrateiramente naveguem em direção às mais variadas inquietações: qual o impacto disso para o mundo, e o que essa escolha revela sobre a sociedade contemporânea? Como é possível dedicar tempo e energia então falando baboseiras sobre a melhor-série-do-momento-da-última-semana?

Em minha defesa, acho que há duas boas justificativas: produções culturais pop, sejam livros, quadrinhos, séries, filmes ou música podem ser uma saudável fonte de escapismo que nos ajuda a manter alguma sanidade nesse mundo cada vez mais complexo e frenético, uma forma de “desligar” um cérebro sobrecarregado pelo peso da realidade (não estranhamente elas prosperam em tempos de crise, como os quadrinhos na recessão americana de 29). Talvez você até se preocupe com a questão do desarmamento ou da violência nas grandes cidades, mas quão divertido é assistir uma cena bem elaborada de tiroteio no Velho Oeste, não é mesmo?

Por outro lado, aquelas obras realmente boas podem ser lidas para além dessa superfície lúdica, e oferecem a oportunidade de refletir um pouco sobre questões atuais, ou mesmo nos fazer questionar nossa identidade e nossos valores. Ao apresentar esses problemas em uma roupagem fantástica, essas histórias permitem-nos um olhar mais sereno e distanciado sobre discussões às vezes polêmicas, às vezes dolorosas.

Acho que Westworld tem essas duas qualidades, especialmente em seus três últimos episódios (The AdversaryTrompe L´oeil e Trace Decay), que compõe o verdadeiro “Segundo Ato” da temporada. O momento mais empolgante da história em que, apresentado o cenário, os personagens e seus objetivos, todos os conflitos explodem em uma catarse de confrontos verbais e físicos, segredos revelados e uma dúzia de plot twists. Ao invés de analisar cada um desses episódios separadamente, resolvi reunir o que me pareceram as principais questões nas tramas distintas dos três núcleos de personagens ao longo dessa trinca de capítulos.

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Os Administradores e a Queda do Olimpo

Voltando ao Presidente Trump, vale lembrar que países, empresas e organizações em geral são apenas o reflexo, uma máscara, das pessoas que as representam. Algumas vezes essas pessoas são eficientes e justas. Em outras, uma “dança das cadeiras” coloca paspalhos e canalhas em seu lugar. Pior, é corriqueiro que indivíduos das mais diferentes matizes, gênios, barnabés, heróis e pilantras disputem o o poder sobre uma determinada entidade. A máscara não é só uma máscara: é um campo de batalha.

Se nas histórias clássicas o inimigo é o cavaleiro negro e seus bárbaros que ameaçam derrubar os muros do castelo, talvez na vida real o mais comum é que o Adversário já esteja sentado confortavelmente do outro lado, aguardando apenas o melhor momento para apunhalar o herói pelas costas e levar o Império às ruínas.

Nesse sentido, a Corporação Delos deveria ser um estudo de caso de como as lutas fratricidas de seus colaboradores pode destruir a mais poderosa das empresas. Os administradores são praticamente deuses. Sério, literalmente. Eles são capazes de criar vida e controla-la, na forma dos Anfitriões. Sua tecnologia lhes permite vigiar e controlar todo o parque, cuja enorme extensão é desconhecida. Mas é uma organização corrompida desde seus escalões mais baixos, com técnicos abusando ilegalmente dos anfitriões, passando por redatores bêbados urinando na central de operações do parque, chegando no topo da pirâmide, onde os chefões estão envolvidos em casos amorosos e toda sorte de golpes e sabotagens que fariam Shakespeare ficar ruborizado.

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“Yul Brynner? É você?!”

E graças a uma ótima referência ao filme original de 1973 em The Stranger, descobrimos que essa desorganização já causou ao menos uma revolta dos anfitriões nos primórdios do parque, levando Delos a abandonar diversos andares de sua central, usada agora apenas como depósito dos robôs aposentados. Ela talvez até tenha dado origem ao mito do Pistoleiro imortal que se refugiou no centro do lendário labirinto.

Agora, descobrimos que o Ovo da Serpente de toda essa situação caótica é uma antiga e sangrenta disputa entre Dr.Ford e seus misteriosos financiadores – personificados na jovem ambiciosa Charlotte – pelas décadas de memórias dos autômatos do parque, onde os demais colaboradores são meros joguetes descartáveis. A obsessão de Ford pelo controle completo de suas criações vem deixando um rastro de morte, cuja mais recente vítima é Theresa, assassinada pelas mãos de seu pobre amante, Bernard, na cena mais tensa que eu já vi na TV em muito tempo!

Por enquanto, Ford conseguiu retomar o controle de Westworld, mas acho que o veneno de sua luta com o Conselho já se espalhou demais por Delos, que já passou do ponto de salvação. Parece ser apenas uma questão de tempo para que os autômatos, desenvolvendo-se sem a supervisão de seus senhores, ocupados em suas lutas fratricidas, rebelem-se contra seus pais.

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Os Anfitriões e a Ilusão da Humanidade

O que nos leva aos Anfitriões, certamente o melhor núcleo da série. Desde o início da temporada, acompanhamos as trajetórias da virginal Dolores e da lasciva Maeve, enquanto as duas começam a questionar a natureza da realidade que as cerca. O desenvolvimento de suas consciências, orientado pelo fantasma de Arnold (possivelmente um subproduto de suas mentes bicamerais), passa por contestar seus papéis na anárquica Sweetwater – coincidentemente ambas sujeitas a serem o objeto sexual dos recém-chegados – e revisitar as memórias de suas muitas vidas passadas. Descobrimos que esse pode ser um processo bastante doloroso para os autômatos, na medida em que, ao contrário dos humanos, sua lembranças são tão vívidas que eles efetivamente revivem seus triunfos e tragédias.

Para Dolores, a busca incessante por sua verdadeira identidade a leva a se perder no labirinto de sua própria mente, seguindo desesperadamente as pistas deixadas por “Arnold” e colocando sua própria sanidade em risco no processo. Já Maeve adota uma solução bem mais pragmática: após uma confusão inicial, ela rapidamente rejeita suas memória originais, preferindo ela mesma fabricar seu próprio futuro, literalmente definindo sua própria personalidade e características ao alterar suas configurações de software, uma verdadeira self-made woman. A despeito disso, as recordações de sua filha continuam a assombra-la.

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“Agora eu que conto a história!”

Mas são essas lembranças que nos definem como humanos? A capacidade de refletir sobre nosso passado, projetar nossos desejos e anseios para o futuro? E se essa memórias são fabricadas, enxertadas como linhas de programação? Isso torna a “humanidade” menos verdadeira ou legítima? Surpreendentemente, Dr.Ford argumenta que não há qualquer diferença entre os anfitriões e seus criadores: ambos vivem angustiados pela ilusão de uma autoconsciência, questionando inutilmente sua própria existência. A liberdade verdadeira estaria justamente em seres como os anfitriões “não-despertos”, que ainda se limitam a repetir seus ciclos narrativos, sem carregar o fardo do questionamento ou a dor do passado.

Essa confusão entre o que é real e imaginário é realmente sentida na trágica figura de Bernard Lowe, que a série propositalmente nos apresenta inicialmente como um humano, um profissional fascinado pelo comportamento humano, um homem com desejos, amizades e afetos, um pai de família que perdeu seu filho e esposa. A revelação de sua verdadeira natureza talvez seja a mais chocante da temporada, até por ser seguida da confirmação de sua condição de um robô, de um escravo consciente do Dr.Ford, que o obriga a assassinar sua colega e amante.

Infelizmente, temo que no centro do labirinto existencial no qual estão presos os anfitriões só haverá uma coisa: a certeza de que, assim como nós humanos, eles nunca terão as perguntas para sua trágica condição respondidas.

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Os Recém-Chegados e a Jornada do Autoconhecimento

Lembra que falei de escapismo? Para muitos, o refúgio na fantasia não é uma válvula de escape suficiente para lidar com uma sociedade cada vez mais neurótica. A fuga da civilização, por vezes temporária, é um fenômeno bastante conhecido, como as tradicionais peregrinações religiosas ou os recessos sabáticos.

E Westworld oferece a fuga perfeita para seus clientes, os Recém-Chegados. Uma terra sem lei, onde podem se livrar de suas amarras sociais e morais, explorar novos horizontes em um cenário crível, mas controlado. Claro, a maioria dos recém-chegados limita-se a aproveitar os aspectos mais superficiais do parque, se deleitar com a violência e sexo sem limites que ele proporciona. Alguns poucos, no entanto, veem em Westworld uma oportunidade para uma jornada de autoconhecimento, perde-se nas aventuras que ele oferece, para talvez ao final encontrar algum fragmento de sua própria identidade.

São os casos de William e o Pistoleiro. A jornada de ambos é bem similar, ainda que seguindo por caminhos opostos: William, coagido a ir para o parque, é descrito por ele mesmo como um autômato, um drone que passou toda a sua vida de cabeça baixa, manso e inofensivo, fazendo o que a sociedade espera dele. Ao escolher o chapéu branco (e, portanto, o papel de mocinho) e partir em sua missão com Dolores,  William aos poucos criou o tutano necessário para sair do influência de seu cunhado Logan e se entregar à paixão súbita por sua nova parceira.

Já o Pistoleiro é um visitante experiente do parque, quase uma lenda. Ele não é nem um pouco relutante, e se entrega completamente ao papel do vilão, o chapéu preto, matando e mutilando os anfitriões em sua missão. Paradoxalmente, descobrimos que no “mundo real”, ele é uma boa figura pública, um magnata filantropo, bom pai de família, que volta ao parque para testar sua verdadeira natureza negra.

Curiosamente, a trajetória dos dois parece convergir em algum meio-termo: William aos poucos descobre um lado mais sombrio de sua personalidade, capaz de raiva e violência. O Pistoleiro, por sua vez, aos poucos se revela uma figura mais heroica, empática, talvez disposta a ajudar os anfitriões ao tentar resolver o enigma do labirinto. É simbólico que ao final do oitavo episódio os dois tenham deixado de lado seus chapéus: essa não é uma história de mocinhos e bandidos, mas de pessoas em crise existencial, tentando descobrir quem realmente são.

Seguindo esse caminho, é inevitável que o fim da peregrinação dos dois estará no confronto entre William e Logan, e o Pistoleiro e Wyatt. E a resposta que conseguirão a partir daí certamente será algo traumático: afinal, encarar de frente quem você é de verdade nunca é algo muito bonito.

A similaridade das histórias de William e do Homem de Preto são portanto marcantes, indicando uma possível relação entre os dois aventureiros, mas talvez isso deva ser reservado para outro episódio…

Nota:

The Adversary: 8.5/10 sucessos do Radiohead (acho que a Marvel é uma fã)

Trompe L´oeil: 9.5/10 revelações chocantes (eu sabia que você tava aí, Hannibal Lecter!)

Trace of Decay: 9/10 Assassinos Mascarados Superhumanos (o que você anda dando pra esses caras, Wyatt?)

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