Quem diria que mais um prequel pudesse ser interessante?

O universo do Batman tem Gotham e o universo do Superman já teve Smallville. Mas, convenhamos, a mitologia desses personagens é tão rica que é fácil pensar em diversos caminhos para explorar todos seus elementos (ou arrancar mais algum dinheiro em cima dos ícones conhecidos). Claro que, quando anunciaram uma série do avô do Superman, pareceu piada. A Warner errou desastrosamente no cinema com Batman v Superman (ainda que Homem de Aço seja um bom filme, ele tem erros básicos na própria concepção do personagem, coisa que Liga da Justiça tentou consertar – tarde demais) então não dava pra esperar grande coisa. Ser transmitida pelo canal SyFy não ajuda nem um pouco também…

“Entrando numa fria maior ainda”

Eis que o episódio piloto de Krypton nos apresenta um mundo que é uma mistura dos elementos levados ao cinema tanto por Richard Donner quanto Zack Snyder – e funciona. Faltando ainda dois séculos para o nascimento de Kal-El, os produtores e roteiristas souberam exatamente quais elementos do personagem “puxar” para a série, para que ela fosse o mais familiar possível – o símbolo, Fortaleza da Solidão, o tema de John Williams. Ao mesmo tempo, estudaram os gibis com afinco para dar aos fãs de quadrinhos aqueles detalhes que tornam a ambientação rica e estimulante: Rao, Kandor, os caracteres kryptonianos…

E a cena do tribunal. Superman tem que ter cena no tribunal.

A série começa quando o tataravô do Superman, Val-El, tenta se opôr ao regime do sinistro Voz de Rao, com sua máscara de muitas faces. Val acredita que Krypton não é o único planeta habitado no universo, uma quebra de dogma que ameaça a Guilda da Ciência. Preso e condenado, a Casa de El é privada de sua honra – o que torna seu neto, Seg-El, um pária na rígida escala social do planeta. Quando um alegado viajante do tempo de outro planeta, Adam Strange, surge com um aviso, Seg perde o pouco que tem – e vai precisar lutar muito para evitar que Krypton pereça nas mãos de… Brainiac.

Olar, tenho interesse.

O elenco passa muita segurança no desenvolvimento da série e o orçamento é o suficiente para que o visual alienígena não seja constrangedor – algo que Inhumans falhou miseravelmente em conseguir. A capa do Superman sendo usada como uma ampulheta, as naves, os ancestrais do General Zod sendo o bem na trama, o visual de Kandor – tudo remete a algum ponto da mitologia do personagem com o qual os fãs vão se sentir à vontade. E o visual de Brainiac consegue ser melhor que o de vilões de super-produções da Warner, como Esquadrão Suicida e o já citado Liga da Justiça.

Essa capa era do Christopher Reeve ou do Dean Cain?

O nome de David S. Goyer como produtor e roteirista não inspira confiança, pelo contrário. Seus vícios estúpidos, miopia e falta de criatividade dão as caras (ele só é capaz de mostrar um personagem sendo durão em uma briga de bar). Porém, está contido e, inegavelmente, não é o responsável pelos poucos erros do episódio. O grande acerto, contudo, é ter o coração no lugar certo. A exemplo de Flash, Arrow e, claro, Supergirl, Krypton aposta na memória afetiva, no respeito e na coragem de ser gibi. Ora, alienígenas e viajantes do tempo? O futuro do maior herói do mundo nas mãos de um ancestral desacreditado? Estou esperando ansiosamente pelos próximos episódios, porque o primeiro é nota dez.

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