Se você viveu durante os anos 80 e 90, deve ter na memória a voz de Ricardo Marianno. Talvez você não o conheça assim de nome, mas foi ele que repetiu inúmeras vezes a frase “versão brasileira: Herbert Richers“. Lembrou agora, né? Como a televisão brasileira se utilizava, e ainda utiliza, de dublagem para seus programas importados chegarem a um público maior, fica na memória afetiva a reinterpretação em português do Brasil por este e outros estúdios como BKS, Maga, Dublasom, AIC, etc.

De fato, como muitas pessoas as têm na recordação, várias dessas dublagens são usadas ainda hoje mesmo com o avanço na tecnologia de som que permitiria uma qualidade melhor em uma nova interpretação. Pode-se comprar um DVD atualmente para escutar Ricardo Schnetzer como o Hank de Caverna do Dragão, ou o saudoso Newton da Mata como o Lion-O de ThunderCats, ou mesmo acessar a Netflix para ouvir o Garcia Júnior como He-Man. Até mesmo o Multishow colocou Chaves com a dublagem original em sua programação na medida em que foi possível. Há até uma campanha de Facebook querendo trazer a dublagem original de Comandos em Ação, que não se ouve há mais de 20 anos (eu estou participando).

Essa demanda me levantou a curiosidade: depois que saem da programação, o que acontece com as dublagens clássicas? Será que elas se perdem?

Herbert Richers

Escolhi o caso do estúdio Herbert Richers para servir de guia para esse artigo porque sem dúvida foi o exemplo mais emblemático. Depois de décadas de reinado absoluto na televisão brasileira, sua ruína foi tão impressionante quanto sua ascensão. Será que, depois do fim, o que foi produzido ali simplesmente não existe mais?

Herbert, o dono da empresa que levaria seu nome, teve uma vida muito interessante, contada no livro Versão Brasileira Herbert Richers, da Editora Criativo. Começou como cinegrafista em um documentário que ninguém menos que Walt Disney gravava no Rio de Janeiro e ficou amigo do empresário americano. A partir daí, estabeleceu contatos em Hollywood e começou a distribuir filmes. Depois, fundou um estúdio que produzia suas próprias películas, importante na época da chanchada e cinejornais. Antes da inauguração do Projac, a Rede Globo também usou seus estúdios como locação para muitas gravações.

Mas a sua empreitada mais famosa veio por sugestão de seu amigo Disney, que enxergou uma lacuna no serviço de dublagem no mercado brasileiro. Durante mais de quarenta anos, a Herbert Richers foi inconteste nesse nicho de mercado, do qual chegou a abocanhar impressionantes 80%. No vídeo abaixo, guiado por Newton da Mata para estudantes, dá para se ter uma ideia de como foi o estúdio em seu auge.

Segundo a Veja Rio, esse reinado absoluto entrou em declínio em 2003, quando um acordo com o sindicato de seus empregados determinou que o prazo para que os atores que saíam da empresa trabalhassem sem vínculos empregatícios para outro estúdio caísse de dois meses para sete dias. Isso gerou uma debandada de funcionários que passaram a trabalhar para estúdios menores, inaugurando uma nova fase mais pulverizada do mercado. Já à Herbert Richers sobraram muitos custos fixos e a receita em declínio.

Em 2009, Richers faleceu. Sua família tentou seguir em frente, mas, com dívidas trabalhistas e impostos atrasados se acumulando, o estúdio parou de funcionar. O prédio da Rua Conde de Bonfim, 1331, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, foi abandonado. Em 2012, no mesmo ano em que um grande incêndio teria atingido o imóvel, ele foi leiloado para o pagamento de parte dos débitos. Um grupo de empresários foi o responsável pela sua compra. Mas o que aconteceu com tudo o que foi produzido ali?

Só pela imagem do Google Maps já é possível se ter uma ideia do estado em que estava o imóvel.

Em 2015, segundo o jornal O Dia, o prédio então já era propriedade de um grupo religioso japonês. Quando foi abandonado, havia patrimônio do estúdio ainda no local. Falando ao HQ Café, o coordenador de pesquisa e documentação da Cinemateca do MAM, Fabio Vellozo, explica que, como a intenção era demolir o imóvel, o grupo entrou em contato com a Universidade Federal Fluminense (UFF) para verificar se havia interesse na preservação do que foi encontrado. Como não tinha espaço para receber tudo, o professor de preservação audiovisual da UFF, Fabián Nuñez, entrou em contato com o conservador-chefe da Cinemateca, Hernani Heffnero, que concordou em receber o material.

O relato de Vellozo sobre o estado do material encontrado é pouco animador. Segundo ele, ainda que haja documentos queimados, não é possível afirmar que o fogo foi responsável pela destruição de parte do que estava ali. “Os maiores danos, pelo que observamos, foram em decorrência de vandalismo. Todas as estantes estavam derrubadas, portas foram derrubadas, magnéticos destruídos, CDs e DVDs quebrados, etc. O cenário era de destruição.”

Bancada de dublagem destruída (foto de Daniel Castelo Branco / Agência O Dia)

É preciso lembrar que o prédio ficou muitos anos abandonado sem água, luz nem nenhum controle de quem entrava ou saía. Além da ação de vândalos, havia moradores de rua que usavam o local como abrigo que também podem ter causado danos com a utilização diária. Ainda que o material resgatado seja extenso e que a recuperação seja um processo que demanda tempo, Vellozo dá uma ideia do que está sendo trabalhado.

  • Entre os filmes de produção própria, “havia apenas algumas [fitas] Betas dos filmes produzidos pela Herbert (não de todos os filmes), bem como cartazes dos longas (Rua descalça, Os cosmonautas, Confissões do Frei Abóbora, etc). Não encontramos nada em película”.
  • “Quanto às dublagens, a quase totalidade do material encontrado era da fase final do estúdio – dublagens para canais como Nickelodeon, por exemplo – em CD, bem como alguns roteiros/listas de diálogos com anotações”.
  • A maioria do que está sendo resgatado, no entanto, é de documentação administrativa, que é importante por traçar a história de todas as fases do estúdio. Segundo ele, o termo resgatado é o mais apropriado, tendo em vista que “os papéis estavam espalhados pelo chão, sujos e molhados, rasgados”.

Nesta fase de catalogação, o material não está disponível para consulta. Dadas as questões legais envolvendo direitos autorais, a sua utilização dependerá daqueles que detêm esses direitos.

Os direitos autorais e a preservação

Em resposta ao HQ Café, o perfil oficial da Delart no Facebook  informa que, “em geral, os estúdios guardam as gravações por um período relativamente curto: dois ou três anos. A responsabilidade de arquivar o áudio dublado é de quem encomendou a dublagem”. Por isso, se as dublagens não estavam no imóvel da Herbert Richers, não quer dizer que estão perdidas.

Isso porque o trabalho de criar uma versão brasileira é feito sob encomenda de distribuidoras, produtoras, emissoras de televisão, e outras empresas que adquirem a licença da obra original e querem difundi-la nos cinemas, TV, internet, home video, etc. Segundo informou ao HQ Café Daniella Piquet, diretora de dublagem da BKS (e voz da Sailor Moon), os direitos autorais de utilização da dublagem é de quem a encomendou, dependendo das normas do contrato.

Para simplificar, vamos pensar em um exemplo (que não sei se aconteceu assim exatamente, mas vale para ilustrar). A Lucasfilm filmou Indiana Jones. A Rede Globo, interessada em passá-lo na Tela Quente, adquiriu a licença para transmiti-lo, e encomendou a dublagem à Herbert Richers. O filme continua pertencendo à Lucasfilm, e a licença de transmissão pode retornar a ela quando a Globo decidir não renovar (talvez por já ter passado na Sessão da Tarde um número suficiente de vezes). A dublagem, no entanto, continua pertencendo à Globo. A Herbert Richers não tinha os direitos sobre nada.

Considerando que dublagem é um trabalho artístico e que os dubladores são intérpretes, os direitos desses profissionais foram reconhecidos a partir da Lei de Audiovisual como direitos conexos, o que não interfere nos direitos autorais do dono da obra, mas ao mesmo tempo protege esses artistas e seu trabalho no momento da difusão. Em poucas palavras, eles contribuíram para a obra, então merecem um “faz-me rir” sempre que ela for executada, ou podem até vetar essa veiculação.

Isso seria o mais comum, mas há casos diferentes dependendo do que é combinado via contrato. Na situação do Chaves, segundo o jornal O Globo, o SBT tinha que submeter as dublagens à aprovação da Televisa, que faz questão de possuir as vozes no mundo todo. Por isso a Globosat pôde comprar os direitos da junto com vozes diretamente do grupo mexicano.

Zás, e aí vai ter Chaves no Multishow, zás, com a voz do Marcelo Gastaldi, zás!

Dessa maneira, a preservação da dublagem depende da estrutura dessas empresas que são suas donas. É provável que emissoras e distribuidoras mantenham um acervo que licenciam para outras empresas ou utilizam em sua programação no caso da TV (mesmo se a licença já tiver expirado, é possível usar alguns segundos em uma inserção em um programa próprio). De acordo com a Delart, “com a obsolescência das mídias, muita coisa se perdeu ou está numa configuração ou qualidade que não atende os suportes de hoje”.

Assim, é justo esperar que emissoras com mais estrutura tenham um banco em melhores condições do que as que não tem. Cabe lembrar que a TV Cultura (que inclusive herdou o acervo da Rede Manchete), por exemplo, chegou a reutilizar fitas de sua própria produção em momentos de dificuldades financeiras, portanto não seria nada surpreendente se muitas dublagens estivessem perdidas. Isso, no entanto, não passa de suposição, já que nenhuma emissora de televisão respondeu às tentativas de contato do HQ Café.

Portanto, se você se lembra com carinho de uma dublagem que nunca mais ouviu, saiba que ela pode ter sido apagada, estar em uma gaveta por aí na forma de uma fita obsoleta, ou até estar em forma digital em um servidor com ar condicionado e controle de umidade, só depende do dono. Essa é uma realidade da produção artística no Brasil, e é triste observar ao ponto que chegou o patrimônio da Herbert Richers até que alguém se preocupasse em doá-lo para recuperação, mas também é um quadro muito ilustrativo da realidade da preservação da cultura em um país em desenvolvimento. O fato de que hoje o material documental está nas mãos da Cinemateca é uma boa notícia para aqueles que querem entender a história da televisão brasileira como um todo.