Eu não acompanho nenhuma das séries atuais de super-heróis assiduamente. Eu raramente tenho disciplina para assistir uma série do começo ao fim, a maratona de episódios, os subplots, o “vilão da temporada”… Tudo isso acaba sendo um pouco cansativo. Geralmente, eu vejo apenas o primeiro episódio e deixo pra lá, como foi com Flash e Arrow. Em outros casos, eu vejo episódios específicos, como Supergirl e Demolidor. Mas parece que há uma série que vem crescendo a cada temporada, apresentando diversos elementos fascinantes sob uma nova roupagem. Sim, senhoras e senhores, temos um novo rei!

Não estamos falando de você.

Gotham está em sua terceira temporada e, depois de um começo vacilante, os produtores parecem dispostos a dar o público exatamente aquilo que esperam de uma série do Batman (exceto o próprio Batman). A fórmula deu certo com Smallville, mostrando um jovem Clark Kent e diversos elementos de sua mitologia anos antes de ele se tornar Superman. Boa? Ruim? Durou dez temporadas, isso deve querer dizer alguma coisa.

Ou não.

O maior problema acaba sendo o próprio público. Existe uma tendência a tentar “encaixar” séries como Gotham e Smallville na cronologia, como se, em nossa cabeça, elas fossem o “passado oficial” dos personagens. Mas não dá, não funciona desse jeito. Os próprios roteiristas tentam se distanciar disso, explorando ao máximo a mitologia dos personagens, mas sem se preocupar se ela vai fazer sentido com os quadrinhos ou filmes para o cinema. É uma cronologia diferente, vamos esquecer todo o resto e tentar nos divertir.

Vai um filézinho mal-passado?

Eu admito que não fiquei nem um pouco animado quando foi anunciado que o personagem Jerome Valeska foi anunciado como um possível Coringa. Claro, era muito melhor do que a teoria de que Oswald Cobblepot, o Pinguim, era o verdadeiro Coringa (acreditem, essa teoria tomou conta dos fóruns de fãs três anos atrás). Agora temos um Pinguim apaixonado pelo Charada, Chapeleiro Louco, Hugo Strange, Sr.Frio e, claro, o misterioso Sr.Valeska.

Valeska errada.

Com a repercussão extremamente positiva do episódio da última semana, resolvi dar uma chance para a série (melhor dizendo, para essa nova versão do Coringa) e qual não foi minha surpresa ao descobrir que Gotham tem evoluído como entretenimento e como uma revisão da mitologia do Cavaleiro das Trevas. Dificilmente eu vá acompanhar a série ou fazer uma maratona dos episódios que perdi, mas sou fã do Coringa (não diga) e vou seguir os próximos episódios em que ele aparecer.

Como resistir?

No episódio 16 da primeira temporada (“The Blind Fortune Teller”), o tentente Gordon (Ben McKenzie, cada vez melhor no papel) e Lee Thompkins (a sempre linda Morena Baccarin) investigam o assassinato de Lila Valeska, uma artista do Haly Circus que dança com cobras (hell, yeah!). Os Graysons Voadores (onde já vi esse nome antes?) são os suspeitos, mas o misterioso Paul Cicero, um vidente cego (interpretado pelo veterano Mark Margolis), diz ter conversado com a morta e dá uma pista para a polícia. Gordon e Thompkins descobrem que o assassino é, na verdade, Jerome (Cameron Monaghan) e que ele é filho de Paul Cicero, que passou uma pista falsa na esperança de protege-lo. Vemos então a transformação de Jerome, uma cena fantástica cortesia do jovem ator.

“Você me encontrou usando uma COBRA DETETIVE?”

Ele é preso e não temos mais notícias dele até o terceiro episódio da segunda temporada (“The Last Laugh”) onde, após ter sido solto do Arkham, ele começa um massacre pela cidade e vai atrás do próprio pai. Gordon e Bullock (Donal Logue, excelente como o “investigador durão mas de bom coração”) chegam tarde demais para salvar Cicero mas, quando o homem responsável por tirar Jerome do Arkham dá um baile de caridade, é a vez do nosso protocoringa invadir a festa e começar a matança. Jerome acaba sendo morto, com um sorriso ensanguentado no rosto e esse pareceu ser o seu fim.

Chegamos à terceira temporada em que, no 13º episódio (“Smile like you mean it”), o corpo de Jerome é roubado pelo lunático Dwight Pollard (David Dastmalchian, repetindo o papel de “seguidor do Coringa” que ele fez no filme Cavaleiro das Trevas), na esperança de trazê-lo de volta à vida e liderar os lunáticos de Gotham numa onda de morte e destruição. Ele pensa ter fracassado, mas não aceita a derrota assim tão facilmente. Numa cena saída direta das páginas dos quadrinhos, ele arranca o rosto de Jerome e o veste, declarando que agora “todos são Jerome”.

Sobre aquele filézinho…

O que ele não sabe é que o plano deu certo como ele originalmente planejou. Jerome volta à vida, sem o rosto, e parte para resgatar Dwight da polícia. É quando a interpretação de Monaghan está ainda mais próxima do Coringa que conhecemos, com o tom de voz e postura corporal lembrando o de Heath Ledger e – por que não? – Mark Hamill.

Claro, Hamill apenas dublou o Coringa na série animada do Batman, mas o fez com vigor e paixão o suficiente para ser chamado novamente como dublador do palhaço do crime na série de videogames Arkham e no longa metragem Piada Mortal. Não podemos nos esquecer também de sua performance como o Trapaceiro, na série de TV do Flash dos anos 90.

Podemos sim.

No episódio seguinte (“The gentle art of making enemies”) Jerome decide levar seu plano a cabo, matando Bruce Wayne. Ele sequestra o jovem milionário e o leva para um lugar que somente o Coringa poderia conceber – mas ainda não vimos no cinema: um parque de diversões de loucura e morte.

Tipo o Playcenter, mas sem os brinquedos enferrujados.

Bruce o confronta e consegue derrotá-lo, com a ajuda do tenente Gordon (que, literalmente, arranca o rosto de Jerome na porrada). O protocoringa é preso, o que nos dá a certeza de que ele vai retornar em futuros episódios pra voltar a espalhar medo e morte por Gotham City, “uma cidade sem heróis”, em suas palavras. E Jerome não precisa de cabelo verde para reconhecermos elementos de 77 anos de história do maior vilão dos quadrinhos.

Let’s put a smile on that face!

Toda a sequência de episódios presta uma série de homenagens à mitologia do Batman, o que eu acredito que aconteça ao longo de toda a série. A dinâmica entre os personagens, mais especificamente Gordon-Bullock, Gordon-Thompkins e Bruce-Alfred é excelente. O final deste episódio nos presenteia com um momento muito marcante, quando Bruce (pelo cada vez mais maduro David Mazouz) admite ter estado muito próximo de matar Jerome, mas se recusou a fazê-lo. Alfred (Sean Pertwee, magistral como mentor, amigo e “pai” de Bruce Wayne) diz que, se o que ele realmente quer é enfrentar o mal, terá que seguir regras. Bruce diz, sem hesitar, “eu não vou matar”. Alfred, orgulhoso pela fibra moral de Bruce mesmo perante uma situação tão extrema, insiste: “Diga isso de novo”. E o jovem Bruce Wayne, com uma convicção incomum para alguém tão jovem, reafirma: “Eu não vou matar”. “Então vamos ao trabalho”, conclui Alfred, mostrando a clareza e conhecimento dos criadores da série acerca dos personagens que estão trabalhando.

Hello darkness, my old friend…

Mas o grande destaque é a performance de Monaghan. Sua transformação no primeiro episódio é suficientemente competente para deixar o tenente Gordon assustado e a doutora Thompkins apavorada. Após matar Sarah Essen e ir atrás de seu pai, o vidente faz uma profecia sobre Jerome: “Você será uma maldição em Gotham! Seu legado será morte e loucura!” Mesmo na morte, é exatamente o que acontece e seu retorno é o prenúncio de todo o caos que ele trará para a cidade. Com todos os seus altos e baixos (Barbara ficando louca, o amor de Pinguim pelo Charada, o romance entre Gordon e Thompkins), a série parece ter encontrado os dois catalizadores para sua longevidade: 1, não ter medo de correr riscos com os personagens e sua vasta mitologia, mesmo que ainda seja cedo demais para vermos o Batman e 2, quando o Coringa entra em cena, ele tem que ser muito mais do que um gângster de cabelo verde.

Imagem meramente ilustrativa.

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