O texto a seguir pode conter spoilers!

Nova Temporada, Nova Doutora

A muita antecipada décima-primeira temporada de Dr Who veio com muitas surpresas nos bolsos de seu casaco. Não se trata apenas de termos uma mulher, a brilhante Jodie Whittaker (“Broadchurch”), como protagonista, ou um novo produtor/roteirista, Chris Chibnall. Temos uma nova chave sônica, companions, logo, canção-tema, roteiristas… E ainda assim, um ponto de partida perfeitamente acessível para novos fãs.

Houve quem criticasse a escolha de Whittaker para o papel…

“A Mulher Que Caiu na Terra”, título que não apenas homenageia David Bowie como também situa perfeitamente a Doutora no começo da história, tem uma energia e identidade visual próprias, bem diferentes do que vinha sendo feito nos últimos anos com Steven Moffat e até mesmo com Russel T. Davies. Davies era o cara que conhecia a cronologia como ninguém e sabia como modernizá-la, adicionando novos elementos. Nos quadrinhos, seu equivalente seria Mark Waid. Moffat quebrava regras, aumentava o drama e dava contornos épicos a tudo. Cada ameaça era maior que a anterior, com o Doutor salvando o Universo, a Criação, a Realidade, o Continuum… Um Mark Millar, fanfarrão e ousado.

Chibnall parece mais preocupado em tornar a série mais sóbria, mas sem perder o humor, drama e ação que a caracterizam, mais ou menos como a fase de Joss Whedon nos X-Men. A apresentação da Doutora nem de longe é tão épica quanto foi a de Matt Smith no papel do 11º Doutor – mas ela esbanja carisma, é divertida, um pouco atrapalhada e totalmente à vontade com a responsabilidade que está sobre seus ombros. Ela deixou para trás o olhar sombrio e cansado do 12º Doutor de Peter Capaldi e parece, novamente, empolgada com a vida e com as aventuras que tem pela frente. Salvar o planeta? O universo? Nada disso, dessa vez a corrida contra o tempo é para salvar uma única pessoa. Porque ela nunca conheceu ninguém que não fosse importante o suficiente.

Até porque ela não visitou o Brasil em época de eleições

Algumas coisas nunca mudam

Os companions formam uma equipe muito interessante, com personalidades bem distintas, motivações, traços marcantes e, por que não?, aquelas falhas que os tornam mais fáceis de nos relacionarmos. Eles acabam aceitando rapidamente o fato de que sua nova amiga é uma alienígena e, inspirados por ela, mostram coragem e determinação nos momentos mais importantes. E, claro, sacrifício.

A coisa mais bonita em Dr Who é o fato de ele sempre ajudar quem precisa se esforçando para não recorrer à violência. Sua empatia com a espécie humana (que ele já chegou a chamar de “primatas” na primeira temporada moderna), só é comparável à sua curiosidade diante do gigantesco universo. Sempre há algo a aprender, novos lugares para visitar, culturas para conhecer. Atores fantásticos deram sua contribuição à mitologia do personagem e Whittaker consegue entregar uma performance incrível, fisgando a audiência e sendo aceita pelo público muito rapidamente. Ela personifica a essência de tudo que o personagem tem de melhor: tolerância, esperança e bondade, demonstrando tudo isso com um mero olhar, um simples sorriso. Mesmo substituindo gigantes do porte de Capaldi, Smith, David Tennant, John Hurt e Christopher Eccleston, pra citar só os da era moderna da série, ela está absolutamente natural no papel, como se tivessem sido feitos um para o outro.

“Episódio de estreia sem TARDIS? E vou ter que fazer minha própria chave sônica?”

Visualmente e essencialmente

Já a promessa de não termos daleks ou cybermen esse ano nos coloca frente a frente com um novo inimigo, que parece muito mais saído de um filme da Marvel do que de uma série de ficção científica britânica. Ele é violento, cruel e implacável, de uma maneira que não é comum em Dr Who. Há aquele “fator de esquisitice” em seu modus operandi, mas é claramente um passo a frente de tudo que já foi feito antes. Com os vilões clássicos “de molho” por um tempo, tudo leva a crer que eles voltarão ainda mais ameaçadores.

A própria identidade visual do episódio foi modernizada, mais cinematográfica, com grandes tomadas abertas em locações. O plano é renovar a audiência e alcançar novos públicos. Ainda é cedo para sabermos se a abordagem é bem-sucedida, mas uma coisa é certa: a ruptura de tudo que veio antes é bem grande. Acho arriscado, mas de uma maneira positiva. Depois de dez temporadas, uma nova forma de contar histórias vai garantir a longevidade da série com abordagens bem distintas. Teremos Dr Who para todos os públicos.

O Veredicto

Só para lembrar o episódio de 50 anos, “The Day of the Doctor”, o que temos aqui é o mesmo software com um hardware diferente. A roupagem é nova, mas as características básicas e mais marcantes da série estão lá. Menos épico, sem discursos grandiloquentes, mas com visual revigorado e linguagem dinâmica, fica claro que ninguém quis reinventar a roda: Dr Who sempre foi sobre mudança, “desde que você não esqueça quem costumava ser”. Considerando “A Mulher Que Caiu na Terra”, fica a certeza de que a mudança foi muito bem-sucedida e que nossa querida Doutora ainda vai ter muitas aventuras pela frente, no tempo e no espaço.

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