Esta resenha contem spoilers pesados do último episódio da décima temporada de Dr Who, além de uma visão geral dos demais episódios! Leia por sua conta e risco, não diga que a River Song não avisou!

No ano passado não tivemos uma temporada regular de Dr Who, para que o produtor executivo da série, Steven Moffat, pudesse se dedicar à última temporada da série que criou com Mark Gatiss (também um dos roteiristas de DW), Sherlock. Fizeram um explêndido trabalho com o detetive, o que só aumentou a expectativa para a temporada final do viajante do tempo com dois corações.

Final em diversos sentidos. Peter Capaldi, de longe, o melhor ator a interpretar o Doutor, anunciou que seria sua última temporada, bem como a do tão criticado pelos fãs Moffat. Ainda resta o especial de Natal em dezembro, onde a tocha será definitivamente entregue a um novo ator e produtor, mas até lá ainda temos que lidar com a carga emocional de “The Doctor Falls”, último episódio da temporada regular.

De modo geral, o que tivemos nessa décima temporada (da Era Moderna) de Dr Who foi uma série de histórias mais contidas, que prepararam para o grand finale. Já comentei o primeiro episódio aqui, um excelente começo para uma temporada sensacional.

O segundo e terceiro episódios, “Smile” e “Thin Ice“, respectivamente, serviram para estabalecer melhor o relacionamento entre a nova companion, Bill Potts, e o Doutor, à medida que ela o conhecia melhor. Esse foi o grande acerto da temporada. Ao invés do plot manjado da “mulher misteriosa que sabe mais sobre o Doutor do que ele mesmo”, temos aqui uma garota comum, com uma vida simples e que, em muitos aspectos, remete diretamente a Rose Tyler. Felizmente, a Bill de Pearl Mackie não se apaixona pelo Doutor, tendo suas preferências declaradas logo no começo, o que torna a dinâmica professor-aluno dos dois muito mais interessante, terna e crível.

Knock, knock” e “Oxygen” buscaram dar variedade aos temas, com o primeiro mais próximo de um filme de terror clássico e o segundo, uma ficção científica de terror. Claro que sem deixar de mostrar não apenas Bill crescendo em importância para o Doutor, mas dando espaço para Nardole ir evoluindo, ainda que devagar. O plot twist ao final de “Oxygen“, com o Doutor cego por ter se arriscado salvando a vida de Bill, não nos deixa esquecer de que ele pode ter 2000 anos de idade, mas cada vida importa. As vidas das pessoas sob sua proteção, então, valem qualquer sacrifício.

Os três episódios seguintes, “Extremis“, “The Pyramid at the End of the World” e “The Lie of the Land“, formam uma história com novos vilões: a espécie alienígena conhecida como “os Monges”. Eles desejam conquistar a Terra, mas não pela força e sim pela aceitação. É necessário que a humanidade queira estar sob seu jugo. É a vez de Bill retribuir ao Doutor, sacrificando a liberdade de toda raça humana para salvar seu mentor, amigo e figura paterna – com a esperança de que ele vá ajudá-la a resolver tudo depois.

Empress of Mars” e “The Eaters of Light” exploram a fundo um subplot da temporada: quem estava trancada no cofre que o Doutor e Nardole mantinham sob severa vigilância. Para surpresa de, bem, ninguém, quem estava lá era Missy, a atual regeneração do clássico inimigo O Mestre. A interpretação deliciosa de Michelle Gomez para a clássica vilã nos faz ter dúvidas o tempo todo sobre suas reais intenções. Ela está mesmo arrependida de todos os seus crimes ou está tramando trair o Doutor mais uma vez – mesmo ele tendo salvado sua vida?

Chegamos à dobradinha final. “World Enough and Time” mostra Missy, cada vez mais divertida, assumindo o papel de “Doctor Who” com relutantes Bill e Nardole, monitorados à distância pelo Doutor. Eles tentam ajudar uma gigantesca nave colônia, próxima demais de um buraco negro, uma situação que faz a gravidade alterar o próprio tempo. Bill é morta por um disparo descuidado e levada para o outro extremo da nave, mais próximo do buraco negro, onde o tempo passa numa velocidade diferente. Para Bill, mais de dez anos se passam num estranho hospital, onde ela é salva por implantes eletromecânicos, com a companhia do misterioso Razor. Para o Doutor, Missy e Nardole, são apenas alguns minutos até que eles formulem um plano para resgatá-la. Ao descer até o hospital, porém, duas terríveis revelações são feitas.

A primeira, é que Bill foi transformada num Cyberman mondasiano, o primeiro modelo (e, de longe, o mais feio). A segunda é que Razor é, na verdade, a prévia regeneração do Mestre, interpretado por John Simm num retorno magistral à série. Ele e Missy se aliam para não apenas destruir o Doutor definitivamente, mas também partir seu coração ao ver Bill irremediavelmente perdida no corpo de um cyberman.

Chegamos ao season finale, “The Doctor Falls”, um episódio emocionante mas com diversos problemas em seu roteiro. Temos o Doutor novamente cercado por inimigos numérica e tecnologicamente superiores em uma comunidade primitiva, sabendo que vai morrer em batalha. Felizmente, temos Missy, dividida entre ficar ao seu lado ou continuar sendo a pessoa que sempre foi; temos John Simm fantástico, mais contido do que em suas aparições anteriores quando confrontou o Doutor de David Tennant – e, justamente por isso, mais assustador, ameaçador e cruel. Temos Nardole assumindo um papel mais ativo na resolução da trama e temos Pearl Mackie, dando um brilho triste a Bill Potts, a cyberman que sofre sem que ninguém saiba.

E temos Peter Capaldi.

O 12º não é meu Doutor preferido, mas Capaldi é, de muito longe, o melhor ator a interpretar o Senhor do Tempo. Cada nuance de sua interpretação é riquíssima. A maneira como ele diz tudo que está sentindo apenas pela maneira como olha, ou desvia o olhar, aqueles olhos cansados e cheios de lágrimas, a dificuldade em tirar da garganta o perdão para Missy e o Mestre, a facilidade com que diz pra Bill “eu vou consertar isso”, culminam nos discursos mais importantes dessa temporada. Em Extremis, quando decide não matar Missy, Nardole cita as palavras de River Song:

“Somente em meio às trevas nos revelamos. […] Bondade não é a bondade que busca tirar vantagem. Bondade é ser bom na hora final, no poço mais profundo, sem esperança, sem testemunhas, sem recompensa. Virtude só é virtude quando chegamos ao extremo. É nisso que ele acredita, e é por esse motivo, acima de todos, que eu o amo, meu marido. Meu louco em uma caixa. Meu Doutor.”

Felizmente, Moffat soube dar a River a importância que ela merecia, não apenas na mitologia da série mas também na vida do Doutor. Muitas vezes ele precisou tomar decisões difíceis, que colocavam em jogo a vida de milhões de pessoas, ou mesmo do universo inteiro – mas o fato de River ainda ter tanta importância para ele, o que é evidenciado pela foto dela em sua mesa, é justamente um dos elementos que tornam a série brilhante: o respeito ao próprio passado. Esse discurso se reflete nas palavras do Doutor, quando ele faz um último e desesperado apelo ao Mestre e Missy:

“Eu não estou tentando ganhar. Não estou tentando fazer isso porque quero derrotar alguém, porque eu odeio alguém ou porque eu quero culpar alguém. Não é porque é divertido. Deus sabe que não é porque é fácil. Nem mesmo porque isso dá certo, porque raramente dá. Eu faço o que faço porque é o certo! Porque é decente! E acima de tudo, é bondade! É só isso… Apenas bondade. Se eu fugir hoje, pessoas boas vão morrer. Se eu ficar e lutar, alguns deles podem viver. Talvez não muitos, talvez não por muito tempo. Quer saber?, talvez nada disso faça sentido. Mas é o melhor que posso fazer. Então eu vou fazer. E vou ficar aqui até isso me matar. E vocês vão morrer também! Um dia… E como isso vai acontecer? Já pensou nisso? Pelo que você morreria? Quem eu sou é onde eu estou. Onde estou é onde cairei.”

Ironicamente, o Mestre e Missy apunhalam um ao outro pelas costas, numa cena que define bem o personagem. O Mestre está para o Doutor como o Coringa está para o Batman, é seu reflexo distorcido, seu oposto – que prefere sacrificar a própria vida a ficar do lado dele. Por outro lado, ele, na forma de Missy, tem um lampejo de lucidez, uma decisão fatal tomada no último instante, mas que jamais foi capaz de cumprir por conta de sua própria loucura. Ela decidiu ficar ao lado do Doutor, mas ele jamais saberá, destinado a lutar sem seu mais antigo amigo/inimigo.

Em dois mil anos de viagens pelo tempo e espaço, uma coisa, no entanto, permanece constante: ele vai fazer tudo que estiver ao seu alcance. Para salvar um ou para salvar milhões. E quando ele perde pessoas que ama, pode até enfrentar momentos de amargura e fúria, mas sua determinação em salvar quantos puder aumenta. Seja para salvar um, como Wilfred Mott, ou para salvar o universo. Dessa vez, ele espera salvar uns poucos, talvez Missy mas, principalmente, Bill.

E ele luta, até o último suspiro.

As cenas finais de Bill deixaram de dúvidas que devem ser esclarecidas no especial de Natal. Ela voltará a ser humana? Heather não podia ter aparecido antes? Para onde ela vai agora que sua vida foi totalmente transformada pelas viagens ao lado do Doutor?

O que nos leva ao que seriam os últimos momentos do 12º. Ele delira, repete frases de suas regenerações anteriores, revê seus companions (da fase moderna da série, inclusive River) mas não aceita a regeneração. Ele a contém, como se mudar fosse uma maldição. Ele se apegou não apenas a River ou Missy, mas à ideia de que não precisa mais mudar. E tenta, a todo custo, se manter preso a sua forma…

…apenas para ser interrompido por uma versão mais nova de si mesmo, o primeiro Doutor, interpretado originalmente por William Hartnell e trazido de volta numa releitura magistral de David Bradley. As consequências do encontro entre os dois Doutores, no entanto, ficam para o especial de Natal, que promete mais surpresas. Se a BBC errou feio em divulgar a participação de John Simm na série, conseguiu desviar a atenção o suficiente para que Bradley pegasse a todos de surpresa. Com isso, podem estar abrindo precedentes para que novos atores interpretem os Doutores clássicos, mas isso ficará a cargo do novo produtor executivo, Chris Chibnall.

O que temos até aqui é uma temporada muito bem montada, com diversas referências ao primeiro Doutor escondidas nas entrelinhas, dando uma despedida digna para Capaldi. O veterano escocês sofreu nas mãos de roteiros pobres e do descaso da BBC com a série, mas atuou em cada episódio como se fosse o último, e o primeiro. É bom ver o Doutor no centro do episódio ou, como ele mesmo diz, “adoro estar cercado, significa que todos estão olhando pra mim!” O ponto negativo fica para a chegada de Heather – se Bill chorou várias vezes quando foi transformada em cyberman, ela não podia ter feito alguma coisa antes? E as duas simplesmente vão se beijar na TARDIS diante do corpo do Doutor e, mesmo com poderes para salvar Bill, a misteriosa “Piloto” não vai tentar salvá-lo?

Eu sempre vou me lembrar do 12º como o Doutor da fase mais feliz da minha vida e que, infelizmente, se despede da série ainda tentando se apegar a alguma coisa – como eu também tentei. Mudança sempre desempenhou um papel fundamental na mitologia do personagem e, como ele vai aceitar essa mudança, fica para o especial de Natal. Espero escrever sobre ele e encontrar paralelos em minha própria vida para isso. Nas palavras do meu Doutor clássico preferido, o segundo, “a vida depende de mudança e renovação”.

Nota: Christopher Ecclestone

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