Agora que as novas temporadas estão começando nos EUA, já estamos animados para ver um pouco mais de nossas séries favoritas, se é que elas já não começaram. Então vamos aproveitar para comentar aqui um pouco sobre aquelas baseadas em quadrinhos de super-heróis. Por quê? Ué, porque este site se chama HQ Café e falar de quadrinhos é o que nós fazemos.

Neste primeiro post, vamos falar sobre as séries baseadas nos personagens da DC Comics. No passado, já fomos brindados com inesquecíveis versões live action na TV desde que essa editora criou o ramo de super-heróis. Como vamos esquecer encarnações memoráveis de George Reeves como o Super-Homem, Lynda Carter como a Mulher Maravilha, ou mesmo Adam West como o Batman, só pra citar alguns? E pode até negar até a morte se quiser, mas eu sei você não perdia um capítulo do romance de Lois & Clark.

Para entender as aventuras desses heróis na TV, temos que saber um pouco da Time Warner. Esse é o nome da empresa proprietária de produtoras de filmes como Warner Bros. e New Line, canais de televisão como HBO, CW e Cartoon Network, além da nossa querida DC Comics. Ou seja, quando se trata de abertura de personagens para um mercado multimídia, eles têm a faca e o queijo na mão já desde 1967, entre aquisições, fusões e mudanças de nome. Talvez essa metáfora não dê uma noção exata da extensão da situação favorável da editora. Mais adequado seria dizer que eles têm a fábrica que produz facas, uma empresa inteira de laticínios e profissionais treinados apenas para cortar queijo.

Mas como na vida nem tudo é tão simples como parece, uma gigante do entretenimento como essa não pode deixar de estar coalhada de fofocas da salinha do café, intrigas de corredor e marqueteiros descolados que sabem exatamente o que o público quer consumir.

Atualmente, Arrow, Flash, Legends of Tomorrow e Supergirl são produzidas pela CW. Vamos voltar um pouco no tempo para contextualizar o início dessa leva. Em 2011, terminava Smallville, série focada nos primeiros anos do Superman. Ela começou muito boa, entrando para substituir o buraco deixado por Buffy – A Caça-Vampiros na programação da WBTV. A ideia era parecida, mostrar o kryptoniano enquanto ele descobria novos poderes e lidava com monstro da semana, ambos metáforas para problemas típicos de adolescentes. Era uma época em que super-heróis não eram muito populares, então Alfred Gough e Miles Millar, seus criadores, juraram que o Superman só apareceria como tal no último episódio.

Smallville, que trazia o ótimo Tom Welling como Clark Kent, também estabeleceu algumas características que seriam recorrentes nas séries da produtora. Entre eles, conflitos familiares, triângulos amorosos e todo mundo beleza nível modelo Victoria Secret, o que sempre dá um certo tom novelesco à trama. Havia também o círculo interno de amigos que o herói pode contar e cada um ajuda do seu jeito (era o que a Buffy chamava de “turma do Scooby”) e os fanservices com aparecimento de heróis e vilões do panteão da DC.

O ator Mehcad Brooks foi uma opção artística para viver um James Olsen, que não é mais o Jimmy estagiário que conhecemos. No hiato entre o aparecimento para o mundo do Superman e da Supergirl, ele ficou mais experiente, não fez outra coisa além de abdominais e ficou 30 cm mais alto.

O ator Mehcad Brooks foi uma opção artística para viver um James Olsen, que não é mais o Jimmy moleque estagiário que conhecemos. No hiato entre o aparecimento para o mundo do Superman e da Supergirl, ele ficou mais experiente, não fez outra coisa além de abdominais e ficou uns 30 cm mais alto.

Depois que Clark sai do colégio, no entanto, o programa falhou miseravelmente em criar situações para o Homem de Aço naquela fase da vida em que ainda estamos tentando descobrir que adultos vamos querer ser. Alguns acontecimentos da jornada de Kal El começaram a aparecer cedo demais, algumas coisas foram colocadas sem fazer muito sentido, como o fato de Jor El já ter estado na Terra e o famigerado Blur, que agia exatamente como o Superman, mas sem usar o mesmo nome. Mesmo assim, houve bons momentos quando eles descobriram como usar melhor os fanservices.

Na mesma época (entre 2005 e 2012), era lançada a Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, com retumbante sucesso de público e crítica. Há uma fofoca de internet que diz que o todo-poderoso diretor vetou a participação do Batman em Smallville e por isso o Morcegão foi substituído pelo Arqueiro Verde, que é um personagem similar o suficiente.

Se isso é verdade é difícil saber, mas é fato que o Nolan acreditava que sua obra com o Homem-Morcego não comportava a participação de alienígenas, meta-humanos e outras criações mais distantes da realidade como a conhecemos. Além disso, abriu a tendência das produções da DC realistas, sérias e sombrias.

arrow_geneseEsse era o contexto no qual surgiu Arrow em 2012. Inicialmente, até foi especulado que Justin Hartley (que viveu o Arqueiro Verde em Smallville apenas um ano antes) repetiria o papel, mas Stephen Amell, de aparência menos frágil, acabou ficando com o trabalho. O programa tem as características já citadas das produções da CW, mas é mais sombrio, e o herói mais sério.

Arrow tem alguns problemas para manter a regularidade e se perdeu em alguns momentos, mas segunda temporada teve um arco principal com o Exterminador que foi excelente. Por vezes, o programa nem tenta disfarçar que gostaria de estar trabalhando com o Batman. Houve um arco inteiro com Ra’s Al Ghul e a Liga das Sombras, mas essa é uma série do Arqueiro Verde (pisca, pisca).

A primeira spin-off de Arrow foi Flash, com um protagonista muito carismático interpretado por Grant Gustin. As características básicas das séries predecessoras do canal foram mantidas, com a grande diferença de que os produtores se deram conta que já vivemos em uma época em que não se precisa mais ter vergonha de apresentar um super-herói como ele é originalmente. A série foi muito elogiada por transcrever bem personagens e arcos como Flashpoint. O mesmo exemplo foi seguido pela série Legends of Tomorrow, que saiu ainda mais do armário dos super-heróis apresentando um grupo inteiro deles.

Os melhores amigos nerds. Ninguém percebe que eles são gatinhos, principalmente os heróis ou heroínas, que os ignoram romanticamente até que os percebem. Bom, Caitlin não gosta do Flash. Mas dê tempo ao tempo.

A evolução dos melhores amigos nerds ao longo dos anos. Ninguém percebe que eles são gatinhos (claro, porque quem não é?), principalmente os heróis ou heroínas, que os ignoram romanticamente até o momento em que os percebem. Bom, Caitlin e o Flash não têm relacionamento romântico. Mas dê tempo ao tempo.

Supergirl, que estava na CBS mas já migrou para sua parceira CW, segue a mesma linha, apesar de ser mais direcionada a um público feminino. Interpretada por Melissa Benoist, a heroína passa ao mesmo tempo inspiração e insegurança. O crossover com Flash foi insanamente divertido. Como a protagonista, no entanto, a série sofre pelo peso da comparação com o Superman. Sem poder usar o personagem em um momento inicial, o Homem de Aço era uma eterna sombra, mencionado em todos os episódios, sem contar o uso recorrente dos seus vilões. Veremos como a série vai continuar agora que eles vão poder usar o primo-de-aço mais regularmente, já que ele virou um personagem regular na segunda temporada.

Flash, o nerd carismático e boa-praça. Supergirl, a repórter bonita, inteligente, superpoderosa e... insegura? Sei lá, eu acreditei, ela deve ter lá seus motivos.

Flash, o nerd carismático e boa-praça. Supergirl, a repórter bonita (óbvio), inteligente, superpoderosa, inspiradora e… insegura? Sei lá, eu acreditei. Ela deve ter lá seus motivos, vai.

Mas nem todas as séries da DC estão com a CW. Produzida pela Fox, Gotham estreou em 2014 e segue a ideia de Smallville de mostrar o herói antes de se tornar quem é, mas dessa vez com o jovem Bruce Wayne (David Mazouz), que é apenas coadjuvante do protagonista James Gordon (Ben McKenzie). Apesar de seguir a tendência sombria dos filmes de Nolan, também tem alguns toques do kitsch do seriado que o mesmo canal produziu nos anos 60. Teve boas sacadas nas caracterizações de personagens como o Charada e o Pinguim, mas também se perdeu em antecipar situações que só deveriam aparecer mais tarde. Quando o Homem-Morcego finalmente assumir a capa, seus inimigos já estarão todos na ativa e lá pelos 50 anos de idade…

Um homem sendo morto com um balão. Já não é mais necessário ser pé-no-chão.

Um homem sendo morto com um balão em Gotham. Já não é mais necessário ser pé-no-chão. Tu-dum, tsss!

Os personagens da DC estão aos poucos se encontrando na TV, mas a impressão é que dá pra ousar um pouco mais. Parece que a Warner fica sentada em cima de seus principais super-heróis por medo de saturar o mercado que traz mais lucro no cinema. Ao mesmo tempo, os criadores das séries tentam aproveitar arcos e personagens de mais sucesso e acaba ficando um chove-não-molha que chega a ser irritante. Como resultado, não aproveitam o total potencial dos personagens que já têm suas séries.

Quanto a isso, há uma pequena luz no fim do túnel. Vai haver um Flash e um Superman tanto no cinema quanto na TV, e já foi estabelecido no universo televisivo que há muitas dimensões diferentes, então talvez estejamos testemunhando um início de um uso mais livre desses personagens. Talvez realmente as pessoas se cansem ao ter filmes e séries dos mesmos personagens rolando ao mesmo tempo, então os principais como Batman, Superman e Mulher Maravilha poderiam apenas transitar em participações especiais sem necessariamente ter uma série própria. Mas ainda assim seria imprescindível para Gotham, Supergirl e Arrow acharem seu próprio brilho trabalhando com o material que têm e não com o que gostariam de ter.

Outra coisa é que o megaconglomerado Warner poderia usar mais de seus recursos para produzir séries mais diversas. O tom novelesco de heróis chorando porque brigaram com as namoradas cai bem para personagens mais leves, mas em Arrow por exemplo, soa fora de contexto. Uma vez o personagem principal teve o seguinte diálogo com o vilão Vagalume:

– Pra trás! Eu não tenho medo de morrer!
– Não; você tem medo de viver!

Mano…

Quanto a isso, a coisa parece ser mais complicada. Não sei se outros canais estariam abertos a diferentes interpretações de heróis. Uma Liga da Justiça Sombria na HBO seria legal, mas muito inverossímil, ainda mais porque a série solo de Constantine foi cancelada pela NBC depois de apenas uma temporada. Outra opção seria a CW mudar um pouco seu estilo, o que também não vejo como muito viável; esse é o arroz-com-feijão deles. Mas vamos continuar acompanhando – como todo o gigante, a Warner é lenta mas acaba aprendendo um dia.

No próximo post, falaremos sobre as séries da Marvel. Não deixe de acompanhar aqui no HQ Café 😉