Inovando sempre, o HQ Café finalmente abre sua caixa. Frequentemente nossos bate-papos dentro do grupo fechado acabam sendo quase complementares aos posts, com muita informação que fica de fora. Juliano, nosso Jim Shooter do agreste deu a ordem, abrir a caixa preta e revelar na íntegra algumas dessas conversas. Então, sem filtros e sem censura (bem, quase), vamos à primeira dessas caixas preta que abrimos elas:

(Hobbit entra comentando sobre a lista de melhores HQs do ano publicada no site Pastel Nerd. Confira lá as indicações do Ochôa que fica mais fácil de entender a conversa 🙂 )

HOBBIT: Ochoa, não li nada que vc indicou como The Best Of 2016

OCHÔA: eita

OCHÔA: já saiu a lista do Pastel?

HOBBIT: Sim, vi agora, pulei o dos outros e fui direto pra sua pra criticar la
(o momento que a gente conhece os amigos)

OCHÔA: não leu Sopa de Lágrimas????

OCHÔA: Tom Strong????

OCHÔA: porra, Hobbit, o direita-cis-falocrata-with-eyes-lasers do site sou eu

OCHÔA: você é o esquerda-vegano

OCHÔA: é obrigatória a leitura das crônicas de um vilarejo situado lá no cu da América Central

RAUL: LOL

(surgindo misteriosamente)

OCHÔA: e de um herói que tem filha mista e veio de uma ilha enfiada lá no cu da África

OCHÔA: Ah, e Doom Patrol tem seus momentos

OCHÔA: mas não é sempre que funciona

HOBBIT: Hehehe, verdade, mas estou tentando remediar essa minha falha de caráter

HOBBIT: De não ter lido, não de ser comunista-vegano-descontruidor-disruptivo-problematizador-simpatizante

HOBBIT: Tom Strong apareceu primeiro em Promethea?

HOBBIT: Ah e gostei da dica do Gustavo-nao-conheço do Tin Tin no Congo

HOBBIT: não, não

HOBBIT: Não li, mas já folheei

OCHÔA: apareceu direto no título próprio dele

OCHÔA: na verdade o Moore lançou o universo dele com quatro títulos simultâneos mensais

OCHÔA: e escrevia um a cada três semanas o filho da puta

OCHÔA: Tom Strong, Top Ten, Promethea e Tomorrow Stories

OCHÔA: Tomorrow Stories dá para pular, os outros três são excelentes

OCHÔA: é outra fase da carreira dele, bem mais leve, relaxada e inteligente

OCHÔA: é ele brincando de escrever, sem aquela fome que ele tinha no começo

OCHÔA: todos são uma aula absurda de narrativa

OCHÔA: mas Sopa de Lágrimas, ao lado de Calvin & Haroldo é o melhor quadrinho que li na minha vida

HOBBIT: Cara, Promethea é um troço bem difícil pro público em geral

HOBBIT: Se isso é o Moore brincando…

OCHÔA: Promethea eu li duas vezes

OCHÔA: a primeira na alvorada dos scans, lá por dois mil e pouquinhos

OCHÔA: e achei chato e diletante pra porra

OCHÔA: reli agora, que saiu pela Panini

OCHÔA: achei incrível

HOBBIT: Oq mudou?

OCHÔA: acho que o modo com que eu me relaciono com as obras

OCHÔA: (e com todo o resto)

OCHÔA: antes eu era cagão de regra

OCHÔA: já tinha uma ideia preconcebida do que deveria ser o que eu ia ler

OCHÔA: hoje eu apenas leio, dentro da proposta que ela estabelece

OCHÔA: (ou não leio, o que é mais frequente)

HOBBIT: É um bom jeito de levar a leitura

HOBBIT: Alias, Promethea já é um show à parte no layout das páginas

HOBBIT: Acho que é uma obra que se perde muito lendo no digital

HOBBIT: Digo isso pq tb li o começo no digital primeiro

OCHÔA: Sim

OCHÔA: o J.H. Williams é um dos maiores desenhistas da atualidade

HOBBIT: e Promethea funciona em muitos níveis

OCHÔA: mas o período do Moore na ABC [America´s Best Comics é um selo da editora norte-americana Wildstorm]

OCHÔA: é leitura obrigatória para qualquer um que queira escrever quadrinhos

OCHÔA: ali o domínio dele da linguagem é pleno

OCHÔA: nenhum quadro é desperdiçado, cada pequeno gesto quer dizer alguma coisa

OCHÔA: na última edição do Tom Strong que saiu pela Panini, tem sete histórias, três deles, três do Peter Hogan e uma do Geoff Johns

OCHÔA: a diferença é gritante

OCHÔA: parece que os outros dois simplesmente não sabem o que fazer com os quadros em certas páginas, então tem os personagens na prática, só servindo de suporte para o balão

OCHÔA: Aqui, olha isso

OCHÔA: primeiro quadro, introduz a personagem Dhalua, que vai se tornar esposa dele, enquanto Tom se despede

OCHÔA: repare no rosto dela quando ele beija ela, na frase dele “como se fosse uma irmãzinha” no FUCKING SEGUNDO QUADRO ele já estabeleceu a personagem e a relação deles, sem ela sequer abrir a boca

OCHÔA: terceiro quadro, ele parte para a américa

OCHÔA: quarto quadro, tudo que você precisa saber sobre a intensidade da relação dela por ele, está ali, sem uma frase sequer

OCHÔA: uma única página

OCHÔA: sem uma frase sequer

OCHÔA: introduz personagem

OCHÔA: e estabelece toda a mecânica dos dois

OCHÔA: aqui

OCHÔA: em três quadros, ele estabelece a personagem e a dinâmica da mãe e do pai do Strong

OCHÔA: suas diferenças

OCHÔA: tudo a partir da morte do auxiliar negro

OCHÔA: quando Tom Strong parte para Vênus

OCHÔA: a filha dele fica tomando conta da cidade

OCHÔA: ela é nova, inexperiente e está nervosa de ter que assumir o lugar do pai. Nenhuma frase sobre isso especificamente, mas isso permeia toda a página nela falando sem parar no fone

OCHÔA: e quase trombando com o teleférico (um erro que o pai dela jamais cometeria)

OCHÔA: isso é um respeito pela inteligência do seu público muito grande, tudo está ali, mas nada é textão, nada é mastigado ou óbvio

HOBBIT: Sim, é entender que quadrinho é uma mídia composta por imagem e texto

HOBBIT: E sequência de imagens

OCHÔA: Sim

OCHÔA: e é incrível como os roteiristas desconsideram isso

OCHÔA: nas histórias do Hogan e do Johns é muito evidente

OCHÔA: porque tu vê claramente que eles conduzem a história através do diálogo explicativo

OCHÔA: e parece que o desenhista tem que desenhar os personagens fazendo qualquer coisa, enquanto falam

OCHÔA: parece que os desenhos são apenas um suporte para os balões

HOBBIT: Nesse sentido, eu gosto bastante da abertura do Morrison no All-Star Superman

HOBBIT: aquilo eu acho genial

HOBBIT: Não é exatamente uma questão de imagem, embora a imagem seja boa, mas a síntese do personagem

OCHÔA: tudo que você precisa saber está naqueles quatro quadros

JULIANO (vindo do nada): Ochôa, copia tudo isso e publica no site.

JULIANO (voltando para o nada): Amanhã!!!

*O “Caixa Preta” é um novo tipo de coluna, onde abrimos conversas privadas que achamos interessantes, curiosas ou relevantes, sem (muitas) interferências ou correções, se gostou, comente que pode vir mais.

Autor: