Um cavalheiro grosseiramente vestido se intromete na cena, garras expostas, dentes rangendo, sua face inundada com um fúria quase feral!

E com essa introdução, em 1974 os leitores americanos foram apresentados pela primeira vez a Wolverineo baixinho canadense mais esquentado das HQs. Apesar da abertura pomposa, as origens do “Melhor no que faz” são bastante simplórias, bem distantes do lugar que ele viria assumir como representante da Era de Bronze dos quadrinhos e ícone da cultura pop nos anos 80 e 90. Na verdade, Wolverine passaria seus primeiros anos de existência bem longe holofotes, servindo mais como “escada” (ou talvez um banquinho) para que outros heróis da Marvel tentassem alcançar o estrelato. Quem diria?

Wolverine: a Arma X

A primeira aparição de Wolverine! Meio diferente do Hugh Jackman, não?

Wolverine estreia em Incredible Hulk #181, escrito por Len Wein e desenhado por Herb Trimpe, após um teaser no último quadro da edição anterior. Também conhecido como “Arma X”, ele é apresentado como um agente especial do governo do Canadá, enviado para acabar com a ameaça do Hulk em suas andanças pelas Rochosas Canadenses, enfrentando Wendigo e uma bruxa (nada importante). Os adversários mostram-se equilibrados: Wolverine é rápido demais para o Hulk acerta-lo, enquanto suas garras de adamantium (“tão duras quanto diamante!”, anuncia o narrador) são incapazes de rasgar a pele do Golias Verde.

No final, um momento de distração de Wolverine permite que Hulk o nocauteie, com o gigante deixando a cena para continuar sua jornada de solidão e autopiedade. Quanto ao baixinho canadense, mal sabia ele que essa seria apenas a primeira de muitas surras de sua carreira… mas acho que estou me adiantando um pouco.

Wolverine, mostrando que até “o melhor no que faz” pode ter queixo de vidro.

A verdade é que a gênese e  ascensão de Wolverine é um daqueles casos de uma série de coincidências fortuitas que resultam em um sucesso inesperado. Tudo começa com a ligação de Roy Thomas, então Editor-Chefe da Marvel Comics, para Len Wein, então escritor do Hulk e criador de personagens que se tornariam famosos nas mãos de outros artistas (como o próprio Wolverine e o Monstro do Pântano). Roy incumbiu Len de inventar um herói canadense para editora, já que ele era bom em “escrever personagens com sotaque” (sic). Roy não passou mais instruções, salvo a sugestão do nome da nova criação.

Len não teve muito trabalho: ele simplesmente consultou o dicionário para saber mais sobre o tal “wolverine”, um feroz predador das regiões frias do Canadá e da Ásia. Copiando algumas características do animal, o novo herói seria atarracado e violento, com garras ferozes feitas do tal adamantium, e agilidade e resistências sobre-humanas. Seu design foi elaborado por ninguém menos que John Romita, com um uniforme bizarramente colorido para um agente secreto (e curiosamente, sem as cores da bandeira do Canadá), e uma máscara que acentuava sua personalidade animal…

Personalidade… seria um exagero usar essa palavra para descrever algo sobre Wolverine em seus primeiros anos. A verdade é que Wein criou um personagem bastante superficial. Do seu passado, sabíamos apenas que ele era um experimento milionário do governo canadense que incluía um intenso condicionamento físico e mental. Nem tínhamos seu rosto ou um nome real, que surgiriam apenas um tempo depois. Ele deveria ser apenas mais um “monstro da semana” para as aventuras do Hulk, a entrar na longa galeria de agentes governamentais durões que subestimaram o gigante verde e foram esmagados por ele.

Wein já até confessou que preferia escrever heróis mais tradicionais, bem-intencionados e que agiam de acordo com as regras, bem oposto a uma “máquina de matar” como Wolverine. Tudo estava pronto para que o herói fosse descartado no limbo dos personagens esquecidos, não fosse o fato de Wein ter definido em um balão solto que ele era também um mutante.

Wolverine: o novo X-Men

Ocorre que Wein sabia que havia conversas na Casa das Ideias sobre um possível relançamento da revista dos X-Men, cancelada em 1970 devido às suas baixas vendas (desde então, a editora se limitava a republicar edições anteriores). Não fazia mal transformar um personagem secundário em um mutante (a Marvel sempre se notabilizou por ter um universo coeso e autorreferenciado), quem sabe alguém não pudesse aproveitá-lo no futuro? O que o escritor não sabia é que isso ocorreria novamente pelas suas próprias mãos…

Uma pequena nota sobre como entender a evolução dos quadrinhos mainstream de super-heróis: as decisões editoriais normalmente são uma combinação de escolhas criativas e, principalmente, comerciais. Na época, a editora estava iniciando operações de republicação de seus quadrinhos na Europa, e o então presidente da Marvel, Al Landau, estava empenhado em uma iniciativa de adaptar os produtos Marvel para os mercados europeu e asiático. Roy Thomas, interessado em revitalizar a franquia mutante, uniu as duas ideias: os X-Men seriam uma nova equipe, multiétnica e internacional, atualizando assim a franquia e tornando-a mais atrativa para leitores fora dos EUA.

Len Wein e o desenhista Dave Cockrun ficaram encarregados de estabelecer o novo elenco, combinando personagens inéditos criados a partir de conceitos não aproveitados por Cockrun durante seu tempo em Superboy e a Legião de Super-Heróis (como o alemão Noturno, o russo Colossus e a queniana Tempestade), com alguns poucos mutantes estrangeiros que já haviam aparecido no Universo Marvel (como o escocês Banshee e o japonês Solaris). É claro que Wein poupou trabalho importando sua criação de apenas alguns meses de vida. Em maio de 1975, Wolverine estrelava com seus novos aliados a capa do especial Giant-Size X-Men #1, um marco na história da Marvel Comics.

A dupla estreia de Wolverine nos quadrinhos

Na trama da revista, o Professor X recruta um novo grupo de mutantes para, liderado pelo veterano Ciclope, salvar a equipe original da ameaça de Krakoa, a Ilha Viva (novamente, não é importante). Após a rápida aventura, os antigos colegas de Ciclope decidem tirar umas merecidas férias, abrindo espaço para os novos recrutas.

Novamente, Wolverine não teria uma grande importância para a história (que é bem morna, por sinal), mas Wein ainda legaria mais algumas características à sua criação: ao contrário dos demais, o furioso mutante decide se juntar ao grupo sem nenhum grande motivo altruísta, mas por estar de saco cheio da burocracia do governo canadense e resolver ser um “agente freelance”. O canadense ainda demonstra uma clara propensão a desafiar (muitas vezes violentamente) autoridades, algo que vai ser bastante aproveitado nos anos seguintes.

Dica do RH: se o cara se demite assim do seu antigo emprego, espere problemas no novo!

Por volta do mesmo período, Len Wein, trabalhando há poucos meses como assistente de Roy Thomas, é escolhido para assumir o cargo de Editor-Chefe da linha de gibis coloridos da Marvel, com a conturbada saída de Thomas do cargo. Com pouco tempo de casa e atulhado de revistas para escrever e editar, Wein entregou de bom grado Uncanny X-Men para Chris Claremont. Inicialmente, o jovem roteirista estava mais interessado na oportunidade de trabalhar ao lado do veterano Cockrun, já que imaginava que o título só duraria um ano ou dois. Claremont ficaria responsável pelos roteiros da equipe mutante por impressionantes 17 anos!

Se Wein foi um genitor bem ausente, Claremont não se mostrou uma figura paterna muito melhor: durante a primeira fase da revista, Wolverine ficaria a maior parte do tempo em segundo plano, como aquele filho tosco, feio e mal-educado que você esconde no final da mesa quando as visitas chegam. Sendo bastante honesto, nenhum dos novos mutantes tem lá um desenvolvimento tão aprofundado nas primeiras edições da revista, que em geral se dedicam a mostrar a equipe enfrentando uma sequência de Sentinelas, extremistas raciais e monstros aleatórios, enquanto trocavam farpas entre si.

Mas entre o bondoso Noturno, o inocente Colossus e a majestosa Tempestade, Claremont parecia não encontrar inicialmente espaço para desenvolver Wolverine. Tanto que só em Uncanny X-Men #98, sete edições após sua criação, vemos sua cara feia sem máscara! O penteado esquisito foi cortesia de Cockrun, novamente aproveitando um de seus trabalhos na Legião de Super-Heróis. No caso, uma atualização do Lobo Cinzento (outro personagem com poderes ferais). Foi o desenhista que também sugeriu a Claremont que suas temidas garras saíssem diretamente de suas mãos, e não fossem apenas parte de suas luvas.

Wolverine e Lobo Cinzento em Superboy #197 (1973), seu primo distante do Séc.XXX.

O próprio Claremont declarou anos depois que achava o personagem unidimensional demais, um “psicopata terminal, uma nitroglicerina humana, pronta para explodir em uma fúria assassina sem aviso”, que não rendia boas histórias.

Não que toda essa bestialidade se revelasse nas páginas da HQ: tentando seguir os preceitos do Comics Code Authority, Wolverine raramente era apresentado fumando seus tradicionais charutos ou se embebedando, muito menos machucava realmente ninguém (além de alguns robôs ou caranguejos gigantes), embora vivesse distribuindo ameaças a torto e à direito, tanto para inimigos quanto para seus aliados. De fato, o tal “assassino cruel” parecia mais um daqueles bad boys adolescentes e problemáticos que fariam sucesso em filmes como O Clube dos CincoTe Pego Lá Fora.

Talvez o grande mérito de Claremont nesse período tenha sido usar o canadense como praticamente um antagonista moral da equipe. Assim como Wolverine surge como uma ameaça física a ser superada pelo Hulk, nas primeiras edições de Uncanny X-Men ele vai regularmente bater de frente com seus colegas. O alvo preferencial era o circunspecto Ciclope, que tinha suas decisões regularmente contestadas aos berros pelo baixinho esquentado. Não que o líder dos X-Men não merecesse: talvez fosse o traço de Cockrun (um verdadeiro Caravaggio dos quadrinhos), mas nessa época Ciclope era um cara bastante dramático e arrogante… e olha que ainda nem tínhamos o “triângulo amoroso” com Jean Grey, apenas sugerido em algumas edições.

Wolverine e Ciclope: um caso de amor.

Essa dinâmica acabou acarretando em diversos momentos de tensão, permitindo que os demais personagens colocassem em dúvida suas escolhas pessoais, ou reafirmassem seus valores perante a si mesmos (e os leitores). De certa forma, o heroísmo dos demais x-men era acentuado com a presença da “ovelha negra” canadense ao seu lado. De fato, mesmo após alcançar a fama nos quadrinhos e no cinema, Wolverine continua servindo como uma ótima ferramenta para diversos autores desenvolverem conflitos narrativos entre os heróis da editora, bem como para testar os limites morais de seus colegas.

Diversão para toda a família!

O problema é que no desenrolar das edições, começa a ficar claro para o leitor que Claremont estava em beco sem saída em relação ao canadense: enquanto os novos membros lentamente deixavam de lado suas diferenças e começavam a se comportar como uma verdadeira família (algo que marcaria as histórias dos X-Men desde então), Wolverine permanecia um outsider entre párias, constantemente reclamando dos parceiros, descumprindo ordens e berrando que deixaria a equipe. E uma ameça só é crível se em algum momento ela é cumprida…

Hello Darkness, my Old Friend…

Claremont e Cockrun já estavam lentamente colocando no tabuleiro as peças para a introdução do Império Shi´ar e a “Saga da Fênix Negra”, com a ressurreição milagrosa de Jean Grey. E a primeira regra de um bom escritor é se concentrar no desenvolvimento de seus personagens e na história que você quer contar, eliminando a gordura extra. Claremont sabia disso, tanto que já havia se livrado de alguns personagens ao longo das primeiras edições. Sem um arco claro e sem render novas situações, Wolverine parecia ser o próximo da lista.

Por mais divertido que fosse acompanhar os surtos do baixinho, talvez fosse hora de dizer adeus…

Eis que Wolverine ganharia a inesperada ajuda de um compatriota. Entra em ação John Byrne.

(Mas essa história fica para semana que vem, em Wolverine: o Ronin)

Material Recomendado:

Quadrinhos:

  • Incredible Hulk v.1 #181 (1974) (primeira aparição de Wolverine)
  • Giant-Size X-Men v.1 #1 (1975) (Wolverine entra para os X-Men)
  • Uncanny X-Men v.1 #97-101 (1976) (parte da primeira fase dos nova equipe)
  • Fantastic Four vs The X-Men #1-4 (1987) (exemplo moderno do Wolverine comprando briga)
  • Ultimate Wolverine vs Hulk #1-6 (2005-2009) (versão Ultimate do primeiro encontro)

Animação:

  • Hulk vs Series s01e02 – Hulk x Wolverine (2009) (versão animada do primeiro encontro)

Entrevistas em vídeo:

 

 

Autor: