Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo, tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.

Um grande amigo me disse certa vez que esse é o melhor início de uma história. Bom, não posso confirmar já que não li todos os livros já escritos nem já ouvi todas as histórias já contadas, mas certamente ele guarda um lugar especial em meu coração. Essas são as primeiras linhas de “O Hobbit”, de J.R.R. Tolkien. A simpática obra narra a história do pequeno Bilbo Bolseiro, que aceita o chamado do misterioso mago Gandalf e deixa sua pacata vila em uma perigosa aventura que envolve anões, orcs, elfos e um temível dragão. Convencional? Muito! Talvez porque o escritor inglês tenha popularizado todo um subgênero de literatura fantástica.

Não que esse fosse exatamente o objetivo. Após a ótima recepção do livro após sua publicação em 1937, Tolkien foi continuamente incentivado (e cobrado) por algum tipo de continuação de sua obra. Somente 17 anos depois foi lançado O Senhor dos Anéis, um épico fantástico mais adulto sobre a guerra dos Povos Livres pela Terra-Média contra o malévolo Sauron. Juntamente com o hermético Quenta Silmarillion, Tolkien estabeleceu um universo ficcional rico e complexo que se impregnou na cultura pop atual.

É claro, a obra de Tolkien não é totalmente inédita. Praticamente todos os elementos da mitologia tolkieniana foram emprestados dos mitos nórdico, celta, judaico-cristão, além das lendas arturianas e as óperas wagnerianas (especialmente O Anel de Nibelungo). Isso é condizente com a própria origem da pátria de seu autor: o que é o finado Reino Unido senão uma amálgama de sucessivos povos que se estabeleceram e deixaram sua marca em suas ilhas? A grande façanha de Tolkien foi ter amarrado isso em um todo (mais ou menos) coerente e atrativo para os leitores modernos.

A Guerra do Anel, uma representação dos horrores da Grande Guerra.

A Guerra do Anel, uma representação dos horrores da Grande Guerra.

 

De forma inovadora, Tolkien conseguiu inserir nesses elementos fantásticos temas caros à sociedade de sua época. Como veterano da 1ª Guerra Mundial, o filólogo inglês tratou em suas obras sobre a corrupção do poder, a tragédia dos conflitos entre povos que deveriam ser amigos (como na Guerra dos Cinco Exércitos), e as indeléveis consequências das guerras para os povos e as nações. Basta lembrarmos da sensação agridoce que temos ao terminar de lermos O Retorno do Rei, por exemplo. O escritor sempre negou que a Saga do Anel fosse uma alegoria para a ascensão do III Reich e a 2ª Guerra Mundial, mas a universalidade de sua obra permite essa interpretação. A resposta de Tolkien de encontrar nos frágeis hobbits (na figura do homem comum) a solução para esses conflitos fala muito sobre as ideias do escritor.

 

A Sociedade do Anel, o primeiro grupo de RPG (por Angus McBride).

A Sociedade do Anel, o primeiro grupo de RPG (por Angus McBride).

 

Após um tempo, a legião de fãs de Tolkien não se contentou mais em apenas ler e reler suas obras, buscando um caminho para simular suas próprias aventuras. Em um porão nos subúrbios dos EUA, Gary Gygax e Dave Arneson misturaram as regras dos jogos de tabuleiro de estratégia com a ambientação fantástica de Tolkien para criar Dungeons & Dragons e fundar um passatempo totalmente novo, o Role-Playing Game (RPG). Das mesas de jogo, o hobby migrou para os consoles de videogame, se tornando um dos mercados mais lucrativos da atualidade.

É claro que isso é apenas um de muitos exemplos da influência dos Hobbits e Cia. Quase oito décadas do início de seu início, os contos da Terra-Média se tornaram os livros mais vendidos da história moderna, especialmente com sua reapresentação por meio das duas trilogias cinematográficas dirigidas por Peter Jackson. Seus símbolos podem ser encontrados em diversos momentos de nossa história recente, do movimento Hippie à cultura geek/nerd. Uma geração de escritores de ficção se inspiraram em seus livros: Stephen King, Terry Pratchett e G.R.R. Martin são apenas alguns dos autores que leram as lendas da Terra-Média e procuraram se estabelecer como “o proximo Tolkien” com seus próprios épicos.

Dessa maneira, no momento em que, assim como os elfos, os povos do Reino Unido se preparam para deixar o mundo conhecido, resta-nos agradecer por deixar para trás as fábulas dos pequenos hobbits, e como as mais simples das criaturas podem algumas vezes vencer os mais terríveis desafios.

 

 

 

 

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