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Com a iminente saída da Inglaterra da UE, o HQCafé fez uma série de posts ao longo da semana, relembrado e debatendo algumas das maiores contribuições do Reino Unido à cultura pop. Como nossa praia também é quadrinhos e com a anunciada aposentaria dele desta mesma mídia, bom, é óbvio que Alan Moore não poderia ficar de fora.

É possível afirmar que um dos critérios para medir um grande autor pode ser o número de paradigmas que ele quebra. Quanto maior o desafio superado, maior a estatura de quem o enfrentou. É desse eterno jogo de ampliação de horizontes, ora avançando, ora recuando, que os caminhos da arte enquanto linguagem são traçados. O que dizer então do placar de Alan Moore, um cidadão de Northampton que com seus colossais 1,98 metros resolveu confrontar pública e abertamente toda a indústria de quadrinhos?

Um autor tão anômalo quanto Moore, surge de condições muito específicas. Neste caso, uma condição de pobreza extrema, o que lhe deu uma boa perspectiva de como funciona a mecânica do preconceito – e alimentou sua desconfiança quanto a qualquer tipo de elitismo ou autoridade – aliada a uma erudição profunda, despida de preconceitos, por vias tortas, um self made man intelectual, quase uma subversão do mito americano do homem que se fez por si só. Um pensador singular, justamente por esta trajetória incomum, grosseiramente resumida aqui.

Ao longo de toda sua carreira – como acontece com todo autor – determinados temas unificam sua obra. Dentro das premissas da obra de Moore, podemos encarar a questão da responsabilidade pessoal, do risco de ter heróis e da arte como linguagem mágica, que altera a percepção e por conseguinte o próprio mundo. Dentro desta lógica, até mesmo a veneração de seu séquito de fãs ao próprio autor, não deixa de ser uma contradição, o que talvez explique a própria postura iconoclasta assumida pelo mesmo. Não confie em ninguém, não tenha heróis. Diria Moore. Heróis são um problema. Entendo o que ele quis dizer. Heróis são homens, homens falham, heróis são uma maneira de transferir sua responsabilidade a alguém, a entregar as atitudes que você deveria tomar, para outras mãos. É a tônica central de V de Vingança: tenha um ideal. Não heróis. Esse conceito simples e profundo é mostrado, aliás, em uma das sequências mais poderosas e marcantes da história da nona arte:

 

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Já que empurrar a missão de mudar o que não concorda para outra pessoa seria contra sua crença pessoal, Moore então resolveu usar seu status de celebridade do meio para empreender uma cruzada pessoal contra a indústria que fez seu nome. Uma queda de braço considerável, abarcando questões como propriedade intelectual, legitimização enquanto artistas e não apenas membros de uma linha de montagem de produtos de consumo rápido. Para provar seu ponto de vista, Moore recorreu a medidas extremas, como exigir legalmente que retirassem seu nome de qualquer adaptação hollywoodiana de seus quadrinhos (incluídos neste balaio, blockbusters e produções do porte de Do Inferno, Constantine, A Liga Extraordinária, Watchmen, e V de Vingança), e recusar royalties de venda de qualquer obra sua publicada pela DC Comics, pertencente ao conglomerado da Warner Brothers. Não é o tipo de coisa que consigo visualizar seus pares como Frank Miller ou Neil Gaiman fazendo.

E apesar de tudo, acredito que o homem venceu a queda de braço contra a indústria. Ok, por que?

a) Porque de certa maneira, Moore tornou os quadrinhos autoconscientes de seu papel como arte. Em vez de fazer apenas produtos para a diversão de crianças de 13 anos, cada novo autor que surge na indústria tem a ambição de fazer algo direta, ou indiretamente, tão marcante quanto a obra de Moore. Para o bem ou para o mal, se perdeu um pouco da inocência, leveza e diversão inicial, por outro, a grosso modo, as principais obras da indústria ganharam um escopo maior, ainda que escorregando eventualmente na pura pretensão e no artificialismo barato. Com Moore, boa parte dos autores da indústria ganharam aval para terem seu nome sobreposto à obra, feito inimaginável antes dos anos 80, o que, evidentemente não interessava às editoras, pois para elas, as marcas de sua propriedade sempre tem que ser maiores que tudo, contudo, esse foi um movimento sem volta e uma conquista gigantesca na luta pelo reconhecimento do autor.

b) Porque Moore ajudou a expandir as possibilidades narrativas da linguagem, utilizando os elementos que tornam os quadrinhos únicos enquanto mídia. Trocando em miúdos, para ele, os quadrinhos tem que ser utilizados enquanto quadrinhos, não como storyboards para cinema ou algo do gênero. Em uma época onde o cinema faz praticamente qualquer coisa, uma chave central para sobrevivência dos quadrinhos está aí. A cada novo experimento narrativo feito, é impossível voltar atrás, conhecimento simplesmente não pode ser desfeito.

c) Porque com Moore temos finalmente uma história dos quadrinhos. Ele foi um dos primeiros autores a reconhecer a evolução da mídia e usar isso em suas narrativas, primeiro timidamente citando Pogo de Walt Kelly em Monstro do Pântano, ou comparando os quadrinhos de outros tempos com suas contrapartes atuais em Miracleman, Watchmen e Piada Mortal, depois, de maneira mais ampla e ostensiva em suas releituras promovidas no selo ABC e seus trabalhos na Image Comics. Esse senso de continuidade é importante, tanto para reparar injustiças históricas, como para apontar caminhos para o futuro. Com isso também cai por terra o senso de descartabilidade que permeava a indústria. Com uma história reconhecida você tem uma tradição, uma linha contínua. Você tem um senso real de continuidade e comunidade que define o seu trabalho. E esse é um passo que uma vez dado, é irrevogável.

Vivemos uma indústria feroz hoje, com base no efeito gratuito, no choque e na polêmica vazia, no vale-tudo para elevar vendas. Em um cenário como este, a relevância artística e humana de determinadas obras parece algo fadado à extinção. Porém a história já ensinou que os crossovers infinitos passarão e serão esquecidos. O que tiver pertinência e qualidade permanecerá.

E se hoje existe a percepção que se pode ir mais longe dentro da própria indústria, que uma obra pode ser comercial e ainda assim ter relevância e pertinência artística, não é exagero dizer que uma parte do mérito se deve a Alan Moore. E com isso, é seguro dizer que no fim das contas, ele ganhou esta queda de braço. São conquistas que ficarão.

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Em tempo: anos atrás, em uma palestra, Will Eisner disse que todo autor começa fazendo arte para seu bairro, então, para sua cidade, seu país e então para o mundo. Em uma curiosa inversão da lógica, Moore virou as costas para o mundo e tem se dedicado a publicar, nos últimos anos, a revista bimestral Dodgem Logic, com equipe paga, e foco apenas nos assuntos locais de Northamptom, com boa parte da renda sendo canalizada para auxílio aos menos favorecidos daquela sociedade e sempre levantando questões públicas quanto aos rumos da cidade.

Estranho? Não, apenas outra aplicação de sua crença na arte como ferramenta de transformação, tanto de percepção, como da realidade.

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