Este é um post sobre as discussões politicamente corretas que o filme da Mulher-Maravilha levanta, e todo mundo sabe que é proibido por lei escrever sobre esse tema com menos de duas mil palavras, portanto prepare-se para um texto longo. Outra coisa que é bom colocar aqui é que essa é uma opinião emitida por um homem branco heterossexual na casa dos trinta (ainda) que não é lá muito engajado, mas um ser humano entusiasmado. Também é bom se preparar para spoilers, caso você não tenha visto o filme ainda.

Toda a forma de arte é um reflexo de seu tempo. Como tal, o novo filme da Mulher Maravilha tem sido apontado como exemplo de uma nova tendência de empoderamento feminino. Além disso, o tema central do filme é claramente antiguerra. Vamos fazer aqui então um textão como uma tentativa de refletir um pouco sobre a mensagem que ele passa no contexto social atual.

O empoderamento feminino

O filme está indo muito bem, obrigado. Fez mais de US$ 100 milhões só no fim de semana de abertura, a terceira do ano, com uma das menores quedas para a segunda semana em filmes de herói de todos os tempos, mesmo com a estreia de A Múmia. Mas também era de se esperar de uma das pontas da Trindade da DC, afinal se nem Batman e Robin e Superman – O Retorno conseguiram ser fracassos totais, então muito provavelmente o filme arrecadaria um bom dinheiro mesmo se fosse ruim, não é?

Mesmo assim, a personagem teve que esperar mais de 75 anos para que um executivo de estúdio acreditasse nela o suficiente para levá-la à tela grande e foi considerado um movimento arriscado. Isso porque na hora de investir em um filme de grande orçamento é necessário levar em consideração o retorno na bilheteria, e também a venda de produtos licenciados. Pensem que a Marvel/Disney tem Scarlet Johanson em seu elenco e até hoje acha que não vale a pena fazer um filme solo da Viúva Negra. Isso que eles fizeram um filme bem sucedido do Homem-Formiga. Pode-se argumentar que filmes como Mulher-Gato e Elektra foram fracassos totais.

Vamos combinar: Mulher-Gato e Elektra não deram certo por um motivo muito simples: eram horrorosos!

Se há uma regra que parece valer é que nenhum filme ou obra tem garantia de êxito por ser mais ou menos engajado, mas sim se é boa ou não. Vimos o caso do All-New-All-Different-All-Awesome-All-Amazing-All-Incredible-All-Just-Throwing-Random-Words-Now-All-Etc Marvel que meio que parecia algo enfiado goela abaixo dos criadores, sem nenhum compromisso com resultado real e foi considerado um fracasso como conjunto pela Marvel, apesar de alguns títulos terem tido runs de sucesso, como Ms. Marvel e Thor. Isso pode ser um indício de que alguns autores têm algo para falar sobre diversidade, e alguns não, e isso é a primeiro fator que deveria ser levado em consideração pelo editor na hora de cruzar suas planilhas com seu planejamento editorial.

No cinema e TV, houve alguns casos de sucesso que podem corroborar essa tese. Há Jogos Vorazes, Mad Max Fury Road, blockbusters que tiveram seu êxito amplamente ancorado no carisma e competência das atrizes para carregar o fardo e um roteiro que lidava muito bem com isso, ou seja, são filmes inclusivos, mas que têm apelo universal, e como tal prestam um ótimo serviço à causa de igualdade de gênero nem que seja pelo simples fato de aumentar a representatividade.

E por que Caça-Fantasmas não teve a mesma sorte? Da mesma maneira que o original, o filme se apoiou em comediantes conhecidas e carismáticas. Dizem por aí que o filme é bom (eu não vi), mas faz alguma diferença? Fui ver o Robocop do José Padilha por curiosidade, e é um bom filme também, mas não foi bem o suficiente de bilheteria para garantir uma sequência. Isso porque não havia nada no original que precisasse de atualização, ele ainda conversa bem com os dias de hoje. Não houve uma ideia revolucionária por trás do remake, não havia nenhum motivo para fazê-lo a não ser ordenhar mais continuações. Podemos raciocinar do mesmo modo com Ben Hur e Total Recall. Então por que eu gastaria meu dinheiro para ver um filme que eu já vi, mas que a chance de ser melhor que o clássico é mínima?

Enfim, voltemos à Mulher Maravilha. A personagem é um ícone feminino controverso desde sua concepção nas mãos do psicólogo William Moulton Marston e H.G. Peter (que não é creditado). Marston era um sujeito bem prafrentex, como se dizia na época, acreditava na superioridade feminina e o pioneirismo de uma heroína mulher foi considerado um avanço para a época, embora a publicação não fosse exatamente politicamente correta para os padrões de hoje. As preferências fetichistas do autor ficavam bastante aparentes. Isso sem contar a pobre Etta Candy, amiga gordinha de Diana que a ajudava a combater o crime com ajuda das suas amigas de fraternidade (?), e que não conseguia largar seu lanche nem na hora de cruzar o rio a nado.

Tapas na bunda eram um tema recorrente na revista…

De fato, mais recentemente, a Mulher Maravilha chegou a ter seu recém-adquirido cargo de Embaixadora Honorária para o Empoderamento Feminino retirado pelas Nações Unidas atendendo a uma petição assinada por quase 45 mil pessoas. O que foi alegado é que ela é uma personagem hiperssexualizada e que não tem uma imagem “culturalmente abrangente ou sensível”, seja lá o que isso quer dizer. Lendo o texto, no entanto, me surpreendi ao ver que o que mais parece ter incomodado os assinantes foi o fato de ela ser uma personagem ficcional.

Muitos artistas se defendem dizendo que quadrinhos são uma mídia em que a sexualidade está muito presente de maneira natural, seja pela necessidade de exibir proficiência anatômica ou apelar para os hormônios adolescentes dos leitores. Personagens femininos e masculinos são desenhados com roupas coladas como se estivessem nus, com corpos impossivelmente musculosos ou retorcidos de maneira frequente. Será que cabe falar em objetificação de uma das personagens mais poderosas e importantes do Universo DC, uma das líderes da Liga da Justiça? Nesse sentido, da maneira como foi colocada, a revolta parece ter saído pela culatra, e acabou soando algo como se essas pessoas estivessem puramente querendo policiar a maneira com que Diana se veste e lida com sua sexualidade.

Dito isso, será que homens e mulheres têm a mesma visão do que está apresentado ali? É preciso levar em consideração como a parte representada se sente com a forma que está sendo mostrada, já que símbolos têm diferentes significados para diferentes observadores, com histórico de vida distintos. Então não cabe a mim decidir se alguém deve ou não se sentir ofendido. Dado ao pequeno universo do abaixo-assinado, seria interessante saber se essa rejeição é representativa ou se ao menos quem assinou chegou a ler algum gibi antes de fazê-lo.

No caso do filme, um grande mérito da Warner Bros. foi de ter deixado os criadores como a diretora Patty Jenkins irem apenas até onde se sentiam confortáveis em termos de engajamento. Desse modo, ao mesmo tempo em que não há discursos ou diálogos profundos sobre a força das mulheres no texto, ele também não é alheio a essa discussão. Ela está presente no choque cultural que ela tem que enfrentar quando conhece o mundo do patriarcado. Diana é ingênua nesse sentido, não sabe o que é esperado dela e, se essas expectativas estiverem no caminho entre ela e sua missão, não hesita em ignorá-las por completo.

Há armadilhas de outros filmes de superheroínas que o filme também não cai, como roupas que não são funcionais, mas ressaltam o corpo, ângulos de câmera que fazem a mesma coisa, e a indefectível chave de pernas.

Ainda que Diana seja manipulada em muitos momentos por Trevors, e criada por Zeus para ser uma matadora de deuses, ela tem uma meta bem clara na trama e é isso o que ela persegue, independente da vontade ou expectativa de qualquer um, sejam esses dois ou sua mãe Hipólita, muitas vezes passando por cima delas.

No fim, ela convence Trevors de que seu caminho é o correto. Aliás, quando ele consegue fazer com que a Diana não mate Lundendorff, a vila que tinham acabado de salvar morre inteira. Quando consegue manipulá-la para que o mate, não adianta nada. Enfim, talvez ele devesse deixar de se meter um pouco.

Guerra

Outro ponto que o filme fala bastante é a guerra. Os acontecimentos deixam claro que humanos são falhos, ambos os lados de cada guerra cometem atrocidades, em muito poucas vezes um deles está certo e, mesmo nesse caso, não está certo o tempo todo. Não se pode colocar a culpa em apenas um homem; o que causa esses conflitos é uma sucessão de erros humanos. Por isso o Ares não é aquilo o que Diana espera que seja, apenas um influenciador (isso até que depois que o deus morre, alemães e ingleses se abraçam livres de sua influência e, pra falar a verdade, não entendi mais nada).

Mas vamos considerar que a mensagem vai só até essa parte: a guerra é uma merda e é complicada. Frequentemente os espectadores (e os estúdios, em suas estratégias de marketing) esperam dos intérpretes dos heróis um comportamento que seja condizente com o de seu personagem. Então vira e mexe temos uma visita de atores uniformizados a um hospital ou algo assim. Vejam Henry Cavill salvando uma tartaruga de ser atropelada:

@HenryCavill stoping traffic to save a turtle!!! YAY #Superman!!! #turtle#superman #henrycavill

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Digo isso porque o tema da guerra se tornou polêmico uma vez que opiniões políticas de Gadot vieram à tona. Conforme foi noticiado por aí, o Líbano proibiu a exibição do filme em seu território pelo que considerou uma ideologia sionista de Gal Gadot. Em particular, foi usado como argumento o post no Facebook traduzido abaixo:

Estou mandando todo o meu amor e orações aos meus companheiros cidadãos israelenses. Especialmente para todos os rapazes e garotas que estão protegendo meu país contra os atos terríveis cometidos pelo Hamas, que estão se escondendo como covardes atrás de mulheres e crianças… Nós vamos superar!!! Shabbat Shalom! #estamoscertos #libertegazadohamas #paremoterror #coexistencia #amoasForçasdeDefesadeIsrael

Olha, eu não vou ser idiota de colocar minha opinião pessoal sobre o conflito Israel x Palestina aqui, porque já estabelecemos que a guerra é complicada. Mas vou só colocar algum contexto em notícias que estão rolando por aí sobre isso para você decidir o lado que prefere. A atriz nasceu em Israel e prestou serviço militar obrigatório, que não é igual ao do Brasil: a maioria das pessoas aptas realmente serve. E vejam que é direito dela apoiar o ponto de vista de seu país ou qualquer outro em relação a um conflito, até porque ela está em contato com o drama humano causado ao seu lado e provavelmente conhece pessoas que ainda estão lutando. Lembrando ademais que o post vem de antes de sua escolha como Mulher Maravilha.

A postagem foi feita na época de uma campanha israelense na Faixa de Gaza em 2014, que foi o ponto culminante de uma escalada de tensão após o sequestro e assassinato de três estudantes israelenses que estavam fazendo trilha, Eyal Yifrach de 19 anos, Gilad Shaar e Naftali Frenkel, ambos de 16 anos. O fato foi admitido mais tarde pelo Hamas, que considerava os garotos colonos. Em retaliação, radicais judeus sequestraram, torturaram e queimaram vivo Mohammed Abu Jdeir, de 16 anos, causando protestos na área palestina. Mais tarde, três criminosos, dois deles menores, foram condenados a indenizar a família da vítima e à prisão (duas sentenças perpétuas e uma de 21 anos) pela justiça de Israel, que considerou o adolescente vítima de terrorismo. Unidas pela dor, as mães de Naftali e Mohammed  conversaram por telefone em uma tentativa de se consolar e condenar esses atos de violência.

A situação tensa levou à incursão do post, pela qual Israel foi criticada por organizações como Human Rights Watch, UNICEF e Anistia Internacional (AI) pelo grande número de prisões sem acusação formal e a morte de civis em número expressivo. As Forças de Defesa de Israel acusaram o Hamas de usá-los como escudo humano, o que o grupo nega. Enquanto isso, também denunciados pela AI, o lançamento de mísseis e morteiros contra civis do lado israelense foi condenado pela própria representação palestina no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

História bonita, não? É possível que você já tenha uma opinião sobre o quadro geral do conflito, que está sempre no centro das atenções nos noticiários, e talvez até tenha achado um lado correto nessa confusão toda, mas é preciso admitir diante dos fatos que sim, a guerra é uma merda e é complicada. Certamente, alheia a toda a parte política do assunto, Diana estaria do lado das vítimas fossem elas quem fossem. Fico me perguntando se hoje a modelo de comportamento (para meninas e meninos israelenses, palestinos e todos as outros) Gal Gadot se daria ao luxo de colocar sua opinião de maneira tão contundente.

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