Os britânicos cultivaram por muito tempo uma imagem ao redor do mundo de povo certinho e ordeiro. As pessoas formam filas no ponto de ônibus antes mesmo de eles chegarem. Ficam à direita na escada-rolante. Eles tomam cuidado com o vão e prosseguem mantendo a calma durante bombardeios. Eles têm pontualidade britânica. Mas talvez sua melhor herança seja justamente a da desordem. Só pensando na música: Beatles, Led Zeppelin, Black Sabbath, Sex Pistols, Iron Maiden, enfim, certamente você já lembrou de vários outros exemplos. E, é claro, ninguém jamais mexeu tão bem com a imagem de certinho dos súditos de Elizabeth II como a trupe do Monty Python.

Silly Walk

Capa de The New Yorker, baseado no sketch The Silly Walk Ministry para noticiar a saída do RU da União Europeia

Ainda que já houvesse trabalhado junto antes, o grupo formado por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin deslanchou em 1969, com o lançamento da série Monty Python’s Flying Circus. O programa refletia uma nova corrente de humor da época e é amplamente conhecido por ter influenciado 12 a cada 10 comediantes que você gosta, além da cultura pop como um todo.

Uma curiosidade é que, no que seria graças a uma de suas sketches, o termo SPAM, que antes era só um tipo de carne suína enlatada, passou a ser usado para designar aqueles emails chatos que a gente não quer mas enchem a nossa caixa de qualquer jeito.

O programa durou até 1974, mas não acabou por falta de sucesso: John Cleese decidiu sair porque acreditava que aquela fórmula de humor já havia se esgotado. Sem ele, o show durou apenas mais seis episódios, mas isso não encerrou as atividades do grupo. No ano seguinte, entraram no mundo cinematográfico com Monty Python em busca do Cálice Sagrado. Em 1979, lançaram o igualmente impagável Monty Pyhton e A Vida de Brian e, em 1983, voltaram ao esquema de sketches com o longa Monty Python e o Sentido da Vida.

Eles também faziam apresentações ao vivo, que resultaram na gravação de Monty Python Live at the Hollywood Bowl (1982). Em 2014, o grupo se reuniu pela primeira vez em mais de 30 anos (sem Graham Chapman, que faleceu em 1989, mas aparece em vídeos durante o show) para dez apresentações em Monty Python Live (Mostly). O motivo? Eles perderam uma batalha legal contra Mark Forstater, produtor de Cálice Sagrado, que havia adaptado o filme para o musical Spamalot e estavam devendo um caminhão de dinheiro. E você aí achando que foi por amor aos fãs; se fosse – e eu digo isso como um viés positivo, já que o cinismo é uma das pedras fundamentais de seu humor -, não seriam eles.

Enquanto o mundo diz adeus ao Reino Unido como conhecemos, acho que colocar uns pequenos trechos dos Pythons é o melhor tributo que poderia fazer aqui: