Como todos sabem, o primeiro e um dos mais importantes passos para um filme de super-herói é saber quem será o protagonista. No caso dos X-Men, no entanto, não há um só protagonista, já que esse título se refere a um time, não é? Bom, sim e não.

Ainda que a mitologia mutante esteja recheada de personagens interessantes, é justo dizer que nenhum alcançou a importância de Wolverine. Em uma época em que Alan Moore e Frank Miller haviam mudado tudo e feito os consumidores de gibis exigirem heróis mais intensos e profundos, o baixinho invocado ganha um passado de violência, tornando-se um anti-herói em busca de redenção perfeito para o espírito do tempo. Com isso, vem a popularidade e, nos anos noventa, ele já era um dos personagens mais importantes da Marvel.

Então sim, se foi importante ter escalado os excelentes Patrick Stewart e Ian MacKellan respectivamente para os papeis de Xavier e Magneto em X-Men: O Filmepelícula de 2000 que deu início ao universo mutante na Fox, os fãs estavam ansiosos era para saber quem interpretaria o Wolverine. O primeiro pensado para o personagem, segundo o roteirista do filme David Hayter, foi Mel Gibson. Ele estava nas artes conceituais no início do projeto.

Por que não param de envolver meu nome em filmes de quadrinhos?

Além dele, Viggo Mortensen, o Mithrandir em pessoa, chegou a fazer testes e foi fortemente considerado.

Eu sou o melhor no que faço. E o que faço é matar orcs.

Até mesmo o rockstar Glenn Danzig chegou a fazer um teste para o papel. Ele era fã do carcaju. Na época, havia gente torcendo por ele. Ok, eu torcia por ele, que é bem parecido com o personagem. Mas, pensando bem, talvez tenha sido melhor não trazer alguém tão inexperiente como ator.

Baixinho, mal-encarado e fã do Wolverine

Então o martelo foi batido e todos nós já sabemos quem foi o grande escolhido: Dougray Scott.

Ah, sim, claro. Peraí, quem?

Ainda segundo Hayter, Scott estava filmando Missão: Impossível 2 com Tom Cruise na época e não chegava nunca para filmar. No fim, descobriram que ele havia se acidentado nas filmagens e não estava bem. Aí, a produtora-executiva Laura Schuler Donner sugeriu, então, sobre trazer novamente Hugh Jackman, que já havia feito testes em estágios anteriores e a equipe tinha gostado muito dele.

No filme, descobrimos os X-Men e o que é ser um mutante pelos olhos de Wolverine, quando ele é acolhido na mansão do Professor Charles Xavier. Na tela, vemos um Logan que tem alguns trejeitos de animal e alienado da sociedade. A grande reclamação, na época, foi a altura do ator: 1,88m, mas todos superaram isso com o tempo e a maior dificuldade do diretor Bryan Synger parece ter sido mesmo que ele é um sujeito muito boa-praça.

A prova disso é a disposição com que ele enfrenta o martírio que é a divulgação dos filmes. Nas vezes que passou pelo Brasil, ele foi conhecer o Ronaldo Fenômeno no Corinthians. Ok, quem não queria fazer isso, né? Bom, ele foi bastante simpático até com o Pânico.

Ok, aí você olha e fica pensando como deve ser duro ser xavecado pela Sabrina Sato. Bem, o cara proporcionou essa bela homenagem a Isaac Bardavid, o dublador oficial do Wolverine no Brasil desde a animação dos anos 90 (a partir dos 30 min.):

E isso foi só no Brasil. Saquem só um gostinho do que o cara tem que passar pra vender o seu filme, sem perder a simpatia:

Hayter cita um caso em que Synger disse a Jackson que ele deveria ser mais agressivo. Mandou o ator ir pra casa brigar com a sua mulher para voltar pilhado. Ele respondeu que, se fizesse isso, voltaria para o trabalho chorando. Fofo.

Mas ele segurou bem a barra de ser o porta-bandeira dos filmes dos X-Men e soube transmitir sua agressividade com um tom de humanidade. Na trilogia inicial, Wolverine foi o personagem central e salvou o dia da Fênix Negra em X-Men: O Confronto Final (2006).

Em sua carreira fora dos filmes do X-Men, procurou se diversificar, assinando desde blockbusters esquecíveis como A Senha: Swordfish e Van Helsing: Caçador de Monstros, até filmes com grandes diretores, como O Grande Truque, Scoop: O Grande Furo e Fonte da Vida (nem todos eles bons, é verdade), e mais tarde chegou até a ser anfitrião do Oscar, além de ganhar um Globo de Ouro pelo seu papel em Os Miseráveis:

Ok, o vídeo talvez não fosse bem esse, mas não importa. Tudo isso indicaria que ele estaria desesperado para fugir da maldição do ator-de-um-papel-só de Hollywood e se livrar o mais rápido possível do carcaju canadense, não é verdade?

Não. Jackman percebeu que, ainda que gostasse de diversificar como artista, o papel de Wolverine foi crucial para o seu sucesso e continuou investindo pesado nele, envolvendo-se até mesmo na produção. Sua transformação física nos filmes solo não pode ser classificada como menos do que impressionante. O ator dizia que queria chegar a ter um físico sobre-humano, como Mike Tyson em seu auge, e trabalhou muito para isso. Dizia que não aguentava mais comer peito de frango.

Jackman com 31 anos na esquerda e 44 na direita. E você aí reclamando do seu crossfit.

Infelizmente, X-Men Origens: Wolverine (2009) , o primeiro filme solo do mutante não foi nada bem. Com muitos problemas de produção, inclusive com os produtores tendo que intervir diretamente no corte final e fazendo muitas refilmagens, pode-se dizer que as únicas coisas aproveitáveis são as interpretações de Jackman e a de Liv Schreiber como Dentes-de-Sabre.

Desculpe que por causa desse filme você nunca mais vai voltar a ser o Dentes-de-Sabre

A franquia dos X-Men, no entanto, procurou explorar novos personagens e manter uma distância saudável do Wolverine para o reboot light que foi X-Men: Primeira Classe (2011), o que não impediu a genial participação especial do ator no filme:

Nos filmes seguintes, ele voltou a ter participações maiores na série. Como protagonista em filme solo, há uma nova tentativa de acertar a mão com Wolverine: Imortal (2013). A película vai até indo bem intencionada até o momento em que isso acontece:

Hoje não, hoje não! Hoje sim…

Ao longo desses 17 anos, Jackson interpretou o personagem em nove filmes diferentes (contando com Logan), além de alguns videogames. Pode-se dizer que, ainda que sua cinegrafia como Wolverine tenha sido instável, Hugh nunca deixou o personagem de lado mesmo depois que foi ficando claro que ele não tinha ficado preso à já mencionada maldição de um papel só. Era nítido que ele queria entregar um filme marcante para os fãs que tanto o haviam ajudado.

A idade, no entanto, estava começando a pesar. Não era mais possível passar pelas provações físicas que o personagem exige. Foi aí que ele disse à Fox que, se fosse fazer mais um filme, seria do jeito dele. A ideia inicial seria basear o enredo em Old Man Logan. Achei que era uma boa ideia, se fosse baseado no gibi. “É o Wolverine mais velho, de cabelo branco, sangrando mais e reclamando mais, o resto é a mesma coisa”, ponderei de maneira sagaz. Só que Logan não só tem méritos próprios, é mais como a revista deveria ter sido. Muito disso, em minha pouco valiosa opinião, por conta de um aceno aos fãs que estão com ele desde o primeiro filme como o mutante. Explico.

X-Men: O Filme, tinha censura 12 anos. Seria justo afirmar aí que pessoas que acompanham a franquia tivessem entre essa idade e uns 25 anos, ou seja, hoje teriam entre 29 e 42 anos, ou seja, são adultos. Talvez já não estejam no auge de sua forma física e até passando por questionamentos sobre sua própria mortalidade (e eles que se achavam imortais).

É muito provável que já tenham se dado conta de que o amadurecimento passa necessariamente pela sua relação com as pessoas à sua volta. Se tudo correr conforme o esperado, na sua vida você vai aprender a cuidar de você mesmo, depois de um cônjuge, depois de crianças e, finalmente, de seus idosos, só para ficar no círculo mais próximo. E não estou falando apenas de família, mas pessoas com as quais você criou laços.

Mas nada na vida acontece conforme o esperado e frequentemente ela atropela o que queremos dela. Talvez você estivesse completamente despreparado para ter pessoas sob sua responsabilidade. Talvez nem soubesse cuidar de você mesmo ainda. Na real, nada disso importa, não é verdade? Porque a companhia dessas pessoas é o que nos motiva. No fim das contas, elas também cuidam de nós e vão nos ensinando pelo caminho, e esses momentos de crescimento fazem valer a pena a existência nesse mundo cada vez mais cheio de ódio, intolerância, xenofobia e empresas que clonam e torturam mutantes. No fim da vida, o que queremos é só mais uma noite em uma cama confortável em sensação de segurança na companhia daqueles que amamos. O resto é conversa.

Essa é a essência do filme que Jackman entregou de presente aos seus fãs como o fim da sua jornada do Wolverine. É uma emocionante obra sobre um homem, a vida que construiu, e o que conta no final: as pessoas que ele ama. Não me entendam mal, não acho que seja um filme exclusivo para pessoas que têm os mesmos questionamentos que seu personagem principal, pelo contrário: na condição de aceno a esse público cativo, sua honestidade o torna universal. Assim, temos o filme que queríamos e o ator merecia.

Esperamos que o próximo intérprete do enfezado canadense tenha uma fração da dedicação que teve Jackman. A ele, fica aqui o nosso muito obrigado.