Capa do encardenado da Panini do "Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas"

Capa do encadernado da Panini do “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”

Quando eu li pela primeira vez “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”, eu fiquei confuso. Na mesma semana, li e reli várias vezes. Minha confusão não veio porque não entendi a história, veio porque a história me tocou muito.

A história escrita por Neil Gaiman, desenhada por Andy Kubert e arte-finalizada por Scott Williams foi publicada, em 2009, em duas partes. A primeira em Batman #686 e a segunda em Detective Comics #853. O título original em inglês “Whatever Happened to the Caped Crusader?” remete à consagrada história “Whatever Happened to the Man of Tomorrow?” que Alan Moore escreveu em 1986.

Capa de Batman #686, de 2009

Capa de Batman #686, de 2009

Capa de Detective Comics #853, de 2009

Capa de Detective Comics #853, de 2009

Reza a lenda que Julius Schwartz queria produzir a última história do Superman, que encerraria toda a cronologia do Homem de Aço desde 1938. Quando Alan Moore ficou sabendo, ele teria ligado para Schwartz e dito, “Se você não me deixar eu escrever essa história eu te mato”. De acordo com o meu colega HQcafiniano Gonzalez, o Moore ameaçou o Schwartz em uma cafeteria.

Seja verdade ou não a ameaça de morte, Moore escreveu uma das mais celebradas e melhores histórias do Superman. A última história do Homem de Aço que surgiu em 1938. Desenhada por Curt Swan, com arte final de George Pérez e Kurt Schaffenberger, essa história também foi originalmente publicada em duas partes e, para mim, os desenhos do Swan e a arte final do Pérez já são, em si, uma homenagem ao Homem de Aço, uma vez que trabalharam juntos um veterano cujo traço era sinônimo do Superman e um artista cujo traço e roteiros estavam alterando os quadrinhos para sempre. A tradição e a inovação.

Capa de "Whatever Happened to the Man of Tomorrow?"

Capa de “Whatever Happened to the Man of Tomorrow?”

“Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”, ao referenciar “O que aconteceu ao Super-Homem?”, já define seu objetivo: contar a última história do Batman, que nessa época estava morrendo em meio aos acontecimentos de Crise Final e Batman RIP.

Gaiman conta que, quando foi convidado por Dan Didio, foi-lhe dado total liberdade criativa, e ele se deu conta de que nunca havia escrito Batman em suas revistas mensais. Já havia escrito Batman nas histórias de Sandman e em “Batman Preto e Branco”. Mesmo não querendo mais escrever quadrinhos mensais em meio à quantidade de projetos que ele executava na época, topou o projeto. Gaiman conta que quando Didio o ligou, propondo que ele escrevesse uma história do Batman, ele achou que seria cobrado por um pagamento antecipado feito a ele, Gaiman, vinte anos antes, por arco de histórias do Cavaleiro das Trevas nunca escrito.

A parceria com Andy Kubert pareceu-lhe perfeita e Gaiman confiava na capacidade de Kubert de emular traços de diferentes artistas que trabalharam com o Morcego. Kubert disse que, para esse propósito, ele desenhou como se esses artistas estivessem tentando emular a ele. O resultado é impressionante.

Esse post comentará essa história, e as várias mortes do Batman. A trama inicia-se com os inimigos, parceiros e amigos do Cavaleiro das Trevas chegando para o seu funeral. A entrada se dá por um bar e quem está cuidando do local é Joe Chill, o qual Selina Kyle julgava ter morrido.

Os convidados vão chegando e, assim, os discursos iniciam-se, as vidas e as mortes do Homem Morcego são narradas em suas várias versões. Os presentes ao funeral aparecem em diferentes traços, épocas e décadas. O Coringa da série animada, o Coringa da Piada Mortal (com os traços dos autores originais – cheguei a pesquisar se o Brian Bolland havia desenhado). A Mulher Gato, o Charada, Pinguim, Ra’s al Ghul (com os traços clássicos do Neal Adams), Arlequina, Chapeleiro Maluco e, claro, Alfred, Robin, Comissário Gordon, Bárbara Gordon, Superman e a mais surpreendente de todas as aparições: Martha Wayne.

O filme Batman vs Superman causou polêmica por causa das Marthas: Martha Wayne e Martha Kent. Muita gente nunca havia se ligado que os dois maiores heróis da DC Comics tinham mães com o mesmo nome. Eu avia. Nunca entendi por que a mãe de Bruce aparecia tão pouco nas hqs, mesmo que em lembranças, já o seu pai era sempre mencionado. Mesmo nos filmes, na trilogia do Nolan a atriz que faz o papel de Martha Wayne parece uma figurante. Não tem fala (se não me engano). Já Thomas Wayne é peça importante para o desenvolvimento da trama.

Já na história do Gaiman, ela possui papel fundamental. Batman, ao assistir a seu próprio funeral, acredita estar em uma experiência de quase morte e então, sendo o maior detetive do mundo, deduz que em algum momento alguém importante a ele apareceria, ao que ele olha ao lado e diz, “Não é mãe?”.

Martha explica ao Bruce que ele está errado, que não está passando por uma experiência de quase morte, ele está morto, ou quase isso. Pergunta a Bruce o que ele aprendeu assistindo a seu funeral e, meio surpreso com a pergunta, ele responde que não importa quem são seus amigos ou inimigos, ele estará sempre lutando, não importa a história, ele sempre luta, que nunca vai desistir, e estar vivo significa estar lutando.

Ela o faz ver que, mesmo quase morto, ele continua lutando, e lutará até que se seja colocado em um caixão porque isso é ser Batman, é precisar lutar, é não evitar. E que não importa o quanto lute, essa luta nunca trará ela e seu pai de volta. Martha lembra a Bruce que no pouco tempo que estiveram juntos ele foi feliz, e que esse tempo foi maior do que muitas pessoas tiveram.

Cético, mesmo conversando com sua mãe, Batman acredita que vai acordar a qualquer momento em um hospital ou na margem de um rio. Martha responde que não, desta vez era diferente. Ele insiste no argumento de que não há vida após morte e que está sozinho, aquilo tudo é obra de sua mente e ela não estava ali de verdade. Sua mãe responde “Estou aqui Bruce. Sempre estou”.

Martha mostra que não há céu ou inferno para ele, e a única recompensa por ser Batman é tornar-se Batman porque ele é o Batman e sempre será, e o mundo nunca deixará de ter sua presença. Sua morte é o começo de outra vida que o levará a ser o Homem Morcego novamente e, nesse processo, seus pais irão morrer para que a lenda nasça. E antes de recomeçar sua luta, ele terá alguns anos de paz.

Página de “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”

Página de “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”

Essa história do Gaiman é mais do que uma homenagem, é a verdadeira tradução do que significa ser o Batman, do peso que é carregar o símbolo do morcego, não importando a cronologia ou a época, ou quem o escreva ou o desenhe. Ele estará lá sempre lutando.

Página de “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”

Página de “Batman: O que aconteceu com o Cavaleiro das Trevas”

Eu li e reli. Fazia tempo que uma história não mexia tanto comigo porque, mais do que tudo, eu senti.